Outeiro Secano em Lisboa

Setembro 11 2017

Festa 2017.jpg

 

Depois da festa costuma dizer-se, "estamos sem festa e sem dinheiro", porém, reside em todos os outeiro secanos uma enorme satisfação e orgulho, pelo cumprimento de mais um ano de tradição, apesar das dificuldades na montagem deste evento, serem cada vez maiores.

Dificuldades que se prendem sobretudo com a angariação dos fundos necessários para a realização da festa, a qual orça entre os vinte e cinco a trinta mil euros, com recurso apenas a dávidas individuais.

Ora, é sabido que as populações do interior estão ficando cada vez mais reduzidas e claro, Outeiro Seco não é exceção, ainda que os cadernos eleitorais da freguesia não expressem muito essa redução, só que a maioria dos seus novos moradores pela nossa proximidade com a cidade, adquiriram aqui as suas casas, mas não os nossos costumes e tradições.

Como nos anos anos anteriores, muitos outeiro secanos não residentes, responderam ao chamamento da saudade e da fé na sua padroeira, vindo dos países de acolhimento, alguns da Europa, outros atravessaram mesmo o oceano, só para estarem presentes na sua festa.

O programa foi semelhante ao dos anos anteriores. No dia 6 realizou-se a Festa do Reco, um evento novo que, vai criando raízes e ganhando cada vez mais aderentes. Protagonizado por uma comissão independente da Comissão da Festa, mediante a aquisição de uma pulseira, os utentes usufruem do direito a comer sandes de porco assado e caldo verde, a divertir-se ao som de um conjunto musical e ainda a assistir a uma sessão de fogo de artifício, montado por elementos da própria organização, mas cada vez mais profissional.

No dia 7 à tarde houve o tradicional jogo entre os Casados e Solteiros, desta vez a taça foi para os solteiros por 4-3. Ao fim da tarde verificou-se ainda um outro evento, o qual já mereceu o meu comentário noutro local e abstenho-me de o comentar aqui. À noite realizou-se a Procissão das Velas, o momento do programa onde se agregam a maioria dos naturais e residentes, por causa da romagem ao cemitério, onde descansam os seus entes queridos.

Como sempre o programa do dia 8 cumpriu-se com a alvorada logo às oito da manhã, onde os entusiastas do fogo marcam presença in loco, fazendo uma avaliação das expetativas daquilo que os espera na sessão da noite.

Seguiu-se a arruada pela Banda local pelas ruas da aldeia, depois a missa e procissão, este ano apenas com seis andores, não sei se por falta de fé nos santos, se pelo preço dos andores, agora armados em flores naturais, orçando entre os duzentos e os trezentos euros.

A nossa festa, embora seja aquela que mais forasteiros recebe, estes só vêm à noite, sobretudo por causa do fogo. Durante a tarde há um concerto pela banda, mas os presentes, limitam-se aos outeiro secanos locais e pouco mais.

À noite são milhares de pessoas, vindas de todos os cantos da região, enchem os dois recintos, um onde atuam as duas bandas filarmónicas este ano a de Pontido do concelho de Vila Pouca de Aguiar e a de Cumieira do concelho de Santa Marta de Penaguião.

Apesar da distância donde vêm, estas bandas apresentam orçamentos mais compatíveis que as bandas do concelho, o que não deixa de ser um paradoxo.

No outro recinto atua o conjunto normalmente mais procurado pelo público mais jovem. Têm passado por aqui bons conjuntos, mas neste ano a atuação do TV5 não mereceu uma crítica muito favorável.

Como a maioria das pessoas vêm exclusivamente para ver o fogo-de-artifício, após uma breve visita à igreja a fim de verem os andores, perfilam-se logo no local mais apropriado, quer do ponto de visão como de segurança.

Creio que muitos nem se apercebem, da beleza do templo, um monumento românico classificado como monumento nacional, este ano mais enriquecido com quatro telas restauradas e que cobrem toda a parede da capela mor, além dos frescos cada vez mais esbatidos das paredes laterais, mas que encerram ainda grande beleza.

O fogo-de-artifício esteve a cargo da empresa Minhota, e a julgar pelos aplausos no final da sessão, esteve à altura das expectativas dos milhares de forasteiros, os quais após o fogo partem logo em debandada para as suas terras não esperando pelo final do arraial às duas da manhã e assim não assistindo a um dos momentos altos da festa que é a despedida das bandas e a homenagem à santa padroeira, com a volta à igreja.

Está de parabéns toda a população de Outeiro Seco por mais uma vez manter esta tradição secular, mas sobretudo aqueles que com o seu empenho e sacrifício, tornaram esta festa possível, ou seja as Comissões da Festa do Reco, Comissão dos Casados e Comissão dos Solteiros.

Um destaque para o Costinha e os primos Gonçalves, que neste ano em matéria de fogo-de-artifício, quase competiram com a Minhota.

Por tudo isto viva Outeiro Seco! E porque para o ano há mais, podemos dizer com propriedade que não há festa como esta.

 

 

 

publicado por Nuno Santos às 09:31

Julho 26 2017

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Nas muitas estórias fantásticas que constam da memória coletiva de Outeiro Seco, o forno do Có está ainda ligado a um outro mendigo, que, nas suas frequentes passagem pela ladeia, ali pernoitava. Apesar de já não se saber o nome, dizia-se dos lados do Vidago.

 Tal como os restantes não tinha ter eira nem beira, além disso, este mendigo era ainda apoquentado pelo espírito de um militar que, fora morto por uma patada de um cavalo, quando cumprira o serviço militar, no regimento de cavalaria de Chaves.

 De vez em quando e sem vir nada a propósito, este homem entrava em transe, saindo-lhe do interior uma voz que, nada tinha a ver com o tom de voz como falava, em estado natural.

Embora haja uma grande contradição no seio da igreja católica, sobre a temática dos espíritos, o certo é que a Bíblia tem várias passagens, citando a sua existência. Uma delas é a missão dos doze ou seja, a dos doze apóstolos que é:

Missão dos Doze (Mc 6,7-11; Lc 9,1-6; 10,1-11) - 5Jesus enviou estes doze apóstolos, depois de lhes ter dado as seguintes instruções: «Não sigais pelo caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. 6Ide, primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel. 7Pelo caminho, proclamai que o Reino do Céu está perto. 8Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça. 9Não possuais ouro, nem prata, nem cobre, em vossos cintos; 10nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem cajado; pois o trabalhador merece o seu sustento.

Ora, nas frequentes passagens pela aldeia, por mais de uma vez o pobre homem foi apoquentado pelo espírito do militar, dizendo que penava neste mundo, por causa do incumprimento de uma promessa ao São Caetano.

A maioria das pessoas que assistiam à cena dividia-se quanto ao fenómeno. Uns diziam que aquilo era de facto uma situação sobrenatural, outros que não passava de uma encenação, para captar maior pena e compaixão, a fim de recolher mais dádivas.

Crentes ou não mas corajosos, os jovens António Salgado, António Castro e Augusto dos Santos, decidiram levar o homem ao São Caetano, para que se consumasse o descanso eterno da alma penada.

Assim num tórrido dia de verão, ainda que não fosse no dia da festa do santo, a qual se comemora no segundo domingo de Agosto, os três jovens montaram o mendigo num burro da tia Ana Barroca, mãe do António Salgado, rumando até ao São Caetano pelo antigo estradão da Torre.

 No início do percurso tiveram logo um constrangimento, o mendigo não estava habituado a montar e não se segurava na montada, ultrapassaram a situação, atando o homem ao dorso do burro, como se fosse uma carga.

A viagem durou mais de duas horas, chegados ao São Caetano, deram duas voltas com o mendigo à capela do santo, cumprindo assim o desejo do espírito.

Cumprida a promessa os rapazes ouviram do interior do mendigo o agradecimento pelo seu gesto e que doravante, a sua alma ficaria em descanso.

Os rapazes sentiram um misto de espanto e satisfação pela missão cumprida, quanto ao mendigo, pelo menos nas suas passagens pela aldeia, jamais se verificou o aparecimento do espírito.

publicado por Nuno Santos às 07:37

Julho 25 2017

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Bai te por essa calle abajo, ter al forno do concelho” quem diz isto é o  Caldeireiro ao seu ajudante, numa das quadras do Auto de Natal, o Ramo, infelizmente representado com bastante intermitência em Outeiro Seco, embora tal como o Acto da Paixão,  façam parte do património imaterial de todos os outeiro secanos.

O pão e a batata sempre foram a base da alimentação das populações rurais, mas para se cozer o pão, são necessários fornos, que, nas aldeias serviam ainda também de estalagem aos pedintes, uma espécie de sem abrigo dos tempos modernos, que deambulavam de terra em terra, pedindo uma esmola, em nome de Deus ou pelas almas de quem as lá tinha.

Em Outeiro Seco, não há memória da existência de um forno do povo. O pão cozia-se em fornos privados, espalhados pelos bairros da aldeia. Alguns desses forneiros viviam praticamente dessa atividade. Aqueciam o forno, indo buscar a lenha a casa das donas da fornada, que apenas amassavam a farinha e tendian o pão.

No bairro do Eiró coexistiam os fornos do Joaquim Félix e da Delfina Carreira. No bairro do Penedo, o da Antónia Sanches, um dos mais procurados, estando até na origem da alcunha do seu filho José Ferreira, ficando conhecido como o Zé do Forno. No bairro do Papeiro não havia fornos, donde os seus moradores, tinham de  recorrer aos fornos dos outros bairros.

O bairro do Pontão onde se concentrava o maior núcleo populacional da aldeia, havia ali vários fornos. Os mais conhecidos eram o forno dos Canelhas ou da Tenreira, porque a forneira chamava-se Maria Tenreira, originária de Vilarelho da Raia e o Forno do Có, assim conhecido, por causa de uma tragédia que ali ocorreu.

Este forno fora propriedade de Teresa Merceana, mas devido à sua morte precoce, e porque era solteira, passou por herança para a sua irmã Rita Merceana, casada com Adriano Lara. Durante muitos anos o forno foi explorado em regime de concessão, primeiro pela família Agrela, depois por Maria Mafalda, minha avó paterna.

O forno porque estava situado junto ao largo do tanque, bem no centro da aldeia, era muito procurado não só para cozer o pão, mas também como albergue dos pedintes que, apareciam com alguma regularidade na aldeia.

Nas frias noites de inverno, por condescendência da forneira esses pedintes aqueciam o corpo, e muitas vezes aconchegavam o estômago, quando por misericórdia, ou pela alma de quem lá tinham, a dona da fornada lhes dava uma pequena bola quente, ou uma parte dela.

Uns dos muitos mendigos que aparecia com regularidade na aldeia, dizia-se dos lados do Barroso, embora não fosse esse o seu nome de batismo, era conhecido pelo Có, epíteto para alguém que é pouco expedito, e talvez por isso o Có  em vez de ser um homem de trabalho ativo, era um mendigo nómada.

Quando pernoitava na aldeia depois da última fornada, o Có tinha por hábito meter-se dentro do forno, abrigando-se assim do frio, sem precisão de cobertores. Só que um dia um grupo de rapazes decidiu pregar-lhe uma partida.

Sem medirem as consequências do acto, enquanto o homem dormia, taparam-lhe a entrada do forno com a porta. Por via disso, o pobre homem morreu asfixiado por falta de oxigénio.

Na manhã seguinte, quando a forneira, a minha avó, se preparava para acender ao forno, deparou-se com o corpo do mendigo já cadáver. Embora reportasse de imediato o caso ao regedor, o certo é que ninguém reclamou na justiça, a morte do infeliz, por isso a morte do Có ficou impune, só que doravante, esse forno passou a ser designado pelo forno do Có.

 

publicado por Nuno Santos às 00:42

Junho 29 2017

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O mês de junho é o mês dos santos populares, razão pela qual assistimos um pouco por todo o lado, às suas comemorações, misturando-se a parte religiosa do tributo aos santos pelas graças concedidas, com a festa pagã, mais virada para a folia e diversão.

O primeiro é o Santo António, cujos festejos atingem o seu expoente máximo em Lisboa, seguindo-se depois o São João e o São Pedro. Claro que o São João do Porto, é aquele que, concita uma maior atenção mediática, ainda que rivalizando um pouco com o de Braga, mas há muitos outros festejos do São João espalhados pelo país, como o de Almada e de outras localidades.

Com o São Pedro é precisamente o mesmo e quem ontem viu televisão, soube da devoção e tradição que este santo tem na Póvoa de Varzim, mas também no Montijo e em Sintra.

Curiosamente estes festejos têm todos um denominador comum, o forte envolvimento das respetivas autarquias no tocante à parte económica, suportando estas, uma boa parte da despesa, nomeadamente a do fogo-de-artifício. A propósito o fogo-de-artifício do São João no Porto neste ano, foi espetacular.

Mas independente do envolvimento das autarquias, assistimos também um grande envolvimento das populações, esforçando-se por manter vivas as tradições, honrando desse modo, a memória dos seus antepassados. No Porto, alguém faz a cascata do São João, porque herdou as figuras do seu avô e quer preservar a sua memória e a tradição. O mesmo se passa com os tronos de São Pedro na Póvoa de Varzim, nos desfiles etnográficos de Braga ou nas marchas de Lisboa.

Em Outeiro Seco também existia uma tradição no São Pedro. Armava-se uma espécie de trono no largo do tanque, feito com os vasos das flores roubados às donas de casa durante a noite, mas também com artefactos usados pelos lavradores que, descuidadamente os deixavam na rua nessa noite.

 Mas, a maior tradição da aldeia é sem dúvida em setembro, com a comemoração das festas da Senhora da Azinheira e do São Miguel, sobretudo o arraial da Senhora da Azinheira. Aqui manda a tradição que, a comissão nomeada para a organização da festa seja rotativa, tocando assim a todos os bairros, sendo que, neste ano, a comissão nomeada pertença ao bairro do Eiró.

Embora ainda falte algum tempo, para a data da festa, parece haver um silêncio ensurdecedor, levando em crer que, a comissão nomeada, vá resignar à organização da mesma, quebrando-se assim uma tradição à qual o bairro do Eiró esteve sempre associado, nomeadamente pela vitória conquistada no despique entre os bairros, realizado no ano de 1945.

Bem sei que vivemos outros tempos, e a proximidade de Outeiro Seco com a cidade, ajudou na descaracterização desse bairrismo. Mas por outro lado a cidade, tem sido nos últimos anos, a maior fonte de financiamento da festa.

Se calhar chegou o tempo de se encontrar um outro modelo para a organização da festa, assim em vez de se nomear uma comissão que, nunca se sabe se aceita a nobre missão de organizar a festa, passar a ser a própria Junta de Freguesia que, juntamente com os restantes elementos da Assembleia de Freguesia e a Comissão da Igreja, organizem em conjunto, as festas da Senhora da Azinheira e o São Miguel.

Embora não residente e cada vez com menor ligação funcional que não sentimental à aldeia, é com tristeza que vejo o desaparecimento dessas tradições do passado, porque uma terra sem passado não tem futuro. Ora todos nós conhecemos o brilhante passado da nossa terra, mas para o preservar, há que viver o presente e esse, é agora.

 

  

 

  

 

publicado por Nuno Santos às 08:51

Junho 19 2017

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 Foto do Público

 

O terrível incêndio de Pedrógão Grande, considerado desde já o maior de sempre em Portugal, por causa do número de vítimas causadas, trouxe à discussão temas recorrentes, como o ordenamento do território, a prevenção e o combate aos incêndios, além de outros temas como a cobertura televisiva.

Embora atento ao acontecimento, tenho evitado assistir às reportagens televisivas, sobretudo à sistemática repetição das imagens telivisivas, assim como às explicações de técnicos de gabinete, a maioria dos quais, nunca se viu confrontado com um incêndio.

Claro que o tema é muito controverso, digo isso porque já me vi confrontado de perto com este fenómeno, por mais de uma vez. Há poucos anos em Vilela Seca, concelho de Chaves, ajudei a estender as mangueiras aos bombeiros de Vidago, quando o fogo estava a cerca de três ou quatro quilómetros de distância. Ainda não tínhamos acabado de estender as mangueiras e tivemos de fugir, levando o carro as mangueiras de rasto, porque o fogo, já estava em cima de nós. Valeu-nos a circunstância de estarmos numa estrada asfaltada e ter sido fácil a escapatória.

Sobre este incêndio não deixa de ser paradoxal que, quando o mesmo ainda não se extinguiu, assim como não se tenham identificado todas as vítimas nem feito os funerais, já se procurem culpados desta catástrofe, mas em meu entender as suas causas estão muito a montante, desde logo no ordenamento do território.    

Ora, quando nas cidades do interior se fecham escolas, maternidades e outros serviços hospitalares, e as empresas e os serviços são deslocalizados para o litoral, contribuindo para a sua desertificação destas regiões, claro que se está a potenciar os incêndios.

Eu estive apenas por duas vezes nesta região, tendo almoçado numa delas em Figueiró dos Vinhos. Uma das coisas que me chamou a atenção foi a quantidade de casas solarengas ali existentes, muitas delas em estado de abandono, sinais dessa mesma desertificação.

A imagem publicada hoje na capa do Público é ilustrativa dessa realidade, atente-se na densidade deste pinhal, além de contribuir para uma maior propagação dos incêndios, contribui também uma menor rentabilidade económica do mesmo. Ora estando este pinhal à beira de uma estrada, quem é o responsável pelo seu estado? Claro que em primeiro será o proprietário, mas tratando-se de um depósito de combustão não existe uma fiscalização que obrigue à sua limpeza?

publicado por Nuno Santos às 20:37

Junho 11 2017

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                                                                  Foto Humberto Ferreira

 

Embora os censos indiquem que sejamos cerca de dez milhões de portugueses, há outros indicadores que dizem que seremos cerca de quinze milhões, espalhados pela diáspora, isto é pelos cinco continentes.

A prova disso é que no espaço de pouco mais de uma semana, os sinos da nossa igreja tocaram três vezes, anunciando a morte de outros tantos outeiro secanos, tendo em comum, o facto de terem nascido e vivido na nossa aldeia parte das suas vidas, mas por razões circunstanciais, tiveram de fazer as suas vidas noutros paradeiros, sem contudo perderem as suas raízes.

por via disso os seus familiares, fizeram questão que, o sino da nossa igreja que, quando dos seus batismos anunciou ao povo o seu nascimento, agora nas suas mortes anunciasse também a sua despedida.

A primeira vez foi a Aninhas Florista, lamento já não me lembrar do apelido verdadeiro, ainda que tivesse nascido em Guimarães, tal como o seu irmão, o Zé Sapateiro, foi em Outeiro Seco que cresceu e se fez mulher aqui casando e criado os seus filhos.

Mais tarde emigrou para os Estados Unidos, donde regressou para viver os seus últimos dias. Só que a vida dá muitas voltas e afinal, quem veio para ficar foi o seu marido, João Floristo, este sim nascido e criado na aldeia. Viúva e com a família toda nos Estados Unidos, a Aninhas acabou por regressar para junto dos seus, dos quais se separou em definitivo, na passada semana.

A segunda vez que o sino tocou foi pelo José Lopes, mais conhecido na aldeia como o Zé Chibinha. O Zé era o mais novo de quatro irmãos, dois rapazes e duas raparigas todos eles ainda vivos. Ao que parece, a vida terá sido um pouco madrasta para o Zé, lá por terras de França, razão pela qual poucas vezes nos visitava no verão, ao contrário da maioria dos emigrantes que regressam quase todos os anos por altura das férias.

Quem também nos visitava frequentemente, em especila por altura da festa da Sra da Azinheira, era a Maria do Céu Pinho, mais conhecida por Céu Vigária. A partir de hoje jamais o fará, porquanto, faleceu em Lisboa. O sino que tantas vezes tocou para as orações rezadas pela sua avó, a senhora Maria dos Anjos, toca hoje a finados pela sua neta Céu.

Convivi com todos eles ainda embora mais com a Céu, porque durante anos fomos vizinhos no Bairro Alto em Lisboa. Por isso deixo aqui os sentidos pêsames a todas as famílias enlutadas, em especial à Fernanda e ao Mári,o pois, pelo facto de ter vindo justamente neste fim de semana a Chaves, não poderei estar presente nas cerimónias fúnebres. Paz às suas almas.

Nota - Por ironia ontem o sino tocou duas vezes a finados, a primeira vez pela Céu Pinho falecida em Lisboa e ali enterrada, fazendo companhia ao seu marido Ângelo.

Em seguida, tocou pelo António Pereira do Rio Costa mais conhecido como o António "Caneco". O António nasceu em 03-09-1933 falecendo ontem dia 11 de junho de 2017 vítima de doença prolongada. O seu corpo está em câmara ardente na capela mortuária de Outeiro Seco e o seu funeral será hoje segunda-feira às 17 horas. À Lula sua esposa e restante família, apresentamos os sentidos pêsames.

 

 

 

publicado por Nuno Santos às 11:38

Junho 03 2017

Quem tem medo de V W.jpg

Depois de Plaza Suite no Teatro Tivoli a dupla Diogo Infante e Alexandra Lencastre regressou ao palco, desta vez no Teatro da Trindade, para interpretarem o clássico “Quem tem medo de Virgínia Woolf.

Porque morei alguns anos no Largo de Camões, tornei-me num frequente espetador do Teatro da Trindade, tendo ali assistido à exibição de grandes peças de teatro, mas também de outros espetáculos, recordando-me de uma atuação da flaviense Teresa Ventura, cuja carreira deixei de seguir, por ignorância minha ou se por abandono seu!

Quanto ao Teatro da Trindade e por causa dessa proximidade, também fui assistindo à sua degradação, ao ponto de se tornar penoso assistir ali a um espetáculo, por causa da incomodidade das cadeiras.

Felizmente este teatro um dos mais belos de Lisboa, foi requalificado, ganhando de novo comodidade e dada a sua capacidade, torna assim possível que, mais público possa usufruir da sua programação.

Claro que a cidade de Lisboa beneficia muito da proximidade dos grandes artistas, pois mesmo entre as gravações de novelas ou de outras séries televisivas, podem representar peças de teatro. Alguns fazem-no por necessidade artística pois o Teatro é a sua essência como artistas, enquanto as novelas e outras representações, são a sua sobrevivência.

A peça em cena embora não escrita por Virgínia Woolf, tem como referência os jogos psicológicos entre os casais, sendo que nestas circunstâncias nem sempre tenham finais felizes. A representação destes dois monstros do teatro nacional é que é sempre brilhante.

 

publicado por Nuno Santos às 09:54

Junho 01 2017

Pessoas já desaparecidas.jpg

Já não sei qual o evento que decorria no Largo do Tanque, o nosso salão de festas, mas presumo que seria uma Corrida da Páscoa. Dos assistentes nesta fotografia, apenas o meu sogro está entre nós, embora já não fosse o mais novo dos retratados.

Com o desaparecimento destas pessoas, desapareceu também muita da nossa história. Embora na nossa terra se tenha feito muita recolha, refletida em muita obra publicada, eu penitencio-me por não recolhido do meu pai ou do meu tio Augusto, como o filho mais velho, os testemunhos do meu avô Manuel dos Santos, um ex-combatente da I Grande Guerra, as suas vivências nesse terrível acontecimento que, assolou o mundo, no início do século passado.

Os personagens desta foto teriam também muitas histórias para contar, umas de caráter pessoal, outras com repercussões  na vida social da aldeia. Entre os retratados está o Zé Regalia, cuja bonomia era reconhecida sendo o autor de muitas histórias pitorescas.

Recordo-me duma que me contou, a do roubo da boina ao Carloto na Bagoeira, pensando este que fora o diabo que lhe aparecera, no cruzamento das Japoneiras.

Isso aconteceu numa noite de breu quando o Carloto e a sua mulher seroavam em casa da sua mãe, vizinha do Zé Regalia. Ora quando o Carloto estava para sair, o Zé escondeu-se na sua eira, entre as ramagens da figueira.

Nessa época durante o inverno, a Bagoeira era um lamaçal e os transeuntes tinham de passar por um tombarão, uma espécie de passadiço, mesmo rente ao muro da eira do Zé.

À frente vinha a tia Júlia e logo atrás o Carloto, assim quando o Carloto passou, o Zé aproveitando-se do escuro e da noite e as ramagens da figueira, sacou-lhe a boina da cabeça.

Este talvez sugestionado por aquilo que se dizia deste lugar, saltou para o meio da lama correndo o mais rápido que pode do lugar. A mulher surpreendida perguntou.

- Que foi Manel! Parece que viste o diabo?

- Foi o diabo negro, que me roubou a boina da cabeça.

O caso ficou apenas dentro do casal, reforçando a ideia que o cruzamento das Japoneiras, era um lugar assombrado. Passado alguns dias e como o Carloto continuava a andar com a cabeça em couca, o Zé com o seu espírito galhofeiro disse para os outros.

- Perguntai ao Carloto pela boina?

Foi quando o Carloto descobriu que, o diabo se chamava Zé.

 

publicado por Nuno Santos às 16:07

Maio 28 2017

Jamor 2.JPG

 

Para muitos adeptos do fenómeno desportivo, a época termina hoje, com a realização da final da Taça de Portugal. Para mim o desporto não se confina ao futebol, embora a nossa comunicação social, tanto as televisões como a imprensa escrita, lhe dediquem quase em exclusividade o seu espaço, sendo de salientar que, o fenómeno desportivo mundial que mais espetadores agrega, são os Jogos Olímpicos.

Embora os Jogos se realizam apenas de quatro em quatro anos, as modalidades que os potenciam, realizam-se semanalmente, mas a nossa comunicação social não lhe dá a visibilidade que merecem. O exemplo disso foi a vitória de ontem na Roménia do Sporting em andebol, uma modalidade olímpica, trazendo para Portugal mais um troféu europeu. A propósito de andebol, se o Sporting ganhar o próximo jogo na próxima quarta-feira contra o Benfica, sagra-se também campeão nacional.  

Voltando ao futebol e à Taça de Portugal, entre o Benfica e o Vitória de Guimarães, vou ver o jogo pela televisão, porquanto nenhuma das minhas equipas preferidas são finalistas. O Sporting porque foi eliminado e bem, pelo Chaves. O Chaves porque foi eliminado e mal, já na meia-final pelo Vitória de Guimarães.

Quando escrevo mal, refiro-me à forma como o Chaves abordou o jogo em Guimarães, armando-se em equipa grande, assumindo o jogo. Por sua vez o Vitória, apesar de jogar em casa, jogou na defensiva, esperando o erro do Chaves, marcando-nos assim dois golos sem resposta, em contra ataque.

No segundo jogo aconteceu futebol, o Chaves fez tudo para dar a volta ao resultado e conseguiu chegando a estar a ganhar 3-0. Entretanto o Vitória marcou o golo que os apurava por goal-average, e o Chaves não se apurou para o Jamor, porque falhamos um penalti já nos descontos, um lance que é uma contingência do futebol.

Diz-se que em futebol não há justiças nem injustiças e que só contam os golos que entram, mas se houvesse justiça, deveria ser o Chaves a estar no Jamor, atendendo aos adversários que ultrapassou até a essa meia-final.

Entre outros clubes eliminou o Futebol Clube do Porto e o Sporting. Em contra partida o Benfica outro dos finalistas, jogou sempre com equipas do escalão secundário, uma coisa recorrente nos sorteios, onde raramente lhe saem as equipas mais difíceis.

Para mim é uma grande frustração não estar hoje no Jamor, porquanto, perdura ainda na minha memória, a final entre o Chaves e o Porto em 2010, sobretudo pela jornada de grande transmontanismo vivida no Jamor. Depois disso já lá estive e até com melhor resultado desportivo, como na final de 2015, onde o Sporting saiu vencedor sobre o Sporting de Braga, mas não foi a mesma coisa.

Curiosamente no próximo domingo, dia 4 de junho, irá repetir-se a final Sporting- Sporting de Braga, desta vez em futebol feminino. Claro que lá estarei torcendo pelas leoas, esperando que façam a dobradinha, isto é juntem a taça ao campeonato já conquistado.

Voltando ao Desportivo de Chaves, espero que na próxima época consigam munir-se de um avançado com maior qualidade que, os desta época. Tenho para mim que, face ao futebol produzido ao longo da época, se o Desportivo tivesse um avançado melhor, por certo teria ficado classificado nos lugares cimeiros, isto é em lugar europeu.

Embora eu goste muito do Verão, a falta do desporto em geral e do futebol em particular, traz-me sempre alguma monotonia, nesta altura do ano.

Mas espero que neste ano, devido à realização da Taça das Confederações, entre os dias 14 de junho a 2 de julho e onde Portugal vai estar pela primeira vez, defendendo o estatuto de campeão europeu, me amenize essa monotonia.

Para muitos desportistas o que conta é apenas a conquista do título de campeonato nacional, seja qual for a forma e o contexto, nem que seja com a "mão de Vata". Mas o futebol é mais que isso e a prova é de que  está ainda a decorrer a fase final das equipas de formação, de onde sairão os atletas que mais tarde vestirão a camisola da seleção.

De salientar que este ano o Sporting, poderá conquistar o título de campeão nacional em todos os escalões, sendo que em Juniores A, já se sagrou ontem campeão.

Espero que o jogo de hoje decorra com a maior normalidade dentro e fora do campo, e que acima de tudo, perdure a verdade desportiva, aquela que ainda ontem colocou a selecção portuguesa de sub-20 nos oitavos de final. Ontem não fora o vídeo árbitro, do qual Rui Vitória não se mostra grande adepto, Portugal teria sido afastado do mundial, quando o árbitro marcou um penalti inexistente contra Portugal. Valeu-nos na circunstância o vídeo árbitro, que  fez o ábitro alterar a decisão.

Um bom domingo e saudações desportivas, em especial para os benfiquistas outeiro secanos, que hoje, celebram a comemoração do Tetra.

 

publicado por Nuno Santos às 10:57

Maio 16 2017

Tia Justina.jpg

As pagelas distribuídas pela Agência Esteves que, operacionalizou o seu funeral, diziam que nasceu para o mundo em 24-07-1934 e para o céu em 13-05-2017. Só não diziam quão importante foi durante a sua vida, sobretudo para os seus seis filhos, dos quais durante muitos anos, teve de ser mãe e pai, por causa da sua precoce viuvez de Norberto Rodrigues Afonso, criando-os como uma ínclita geração.

Tais encómios não a impediram de ser um elemento ativo na vida da comunidade. Durante muitos anos e juntamente com a sua irmã Matilde, foram as zeladoras da igreja da senhora da Azinheira e ainda, as fiéis depositárias do ouro da santa. Em simultâneo cantava no coro da igreja, função que manteve quase até ao final da sua vida.

O seu funeral ocorreu hoje dia 15 para o cemitério local e a missa do sétimo dia decorrerá na próxima sexta-feira dia 19 às 16,30 na igreja matriz de Outeiro Seco. Entretanto em Lisboa será também rezada uma missa na Basílica da Estrela, no próximo sábado às 19,00 horas.

A toda a família enlutada filhos, filha, noras, genro e netos, as sentidas condolências.   

publicado por Nuno Santos às 00:04

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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