Outeiro Secano em Lisboa

Fevereiro 23 2017

Comemoram-se hoje 30 anos, após a morte de Zeca Afonso. Infelizmente ficou também a conhecer-se hoje que, os masters das suas gravações, assim como as do Adriano Correia de Oliveira, não estão no acervo da gravadora, estando provávelmente perdidos para sempre. É lamentavel que ao longo destes trinta anos, não houvesse nenhum Ministério da Cultura interessado em adquirir esse mesmo acervo.

O tema que vos deixo é o Alípio de Freitas, um transmontano natural de Bragança, com o qual convivi na Casa de Trás os Montes, quando a Casa funcionava na Rua da Misericódia, em Lisboa. Alípio de Freitas repartiu a sua vida entre Portugal e o Brasil onde teve uma intensa atividade revolucionária. Ao longo da sua vida foi padre, revolucionário, professor universitário e jornalista. Alípio de Freitas mantém ainda uma intensa atividade social e cultural, tendo sido inclusive o prsidente da Associação Zeca Afonso. É o pai da cantora Luanda Cozeti, que, com o marido constituem os Coffe Couple. 

 

publicado por Nuno Santos às 17:07

Fevereiro 22 2017

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Estes são os bilhetes para o jogo da próxima sexta-feira no Estádio da Luz, onde o Desportivo de Chaves jogará com o Benfica.

Este jogo traz-me à memória, dois outros encontros aos quais assisti na Luz, entre estas as duas equipas. O primeiro ocorreu em 29 de dezembro de 1976, já lá vão mais de quarenta anos e porventura terá sido o primeiro jogo que, o Desportivo de Chaves fez em Lisboa.

O Chaves não fazia parte do escalão principal do futebol português, creio mesmo que estava ainda na terceira divisão, mas, quis o capricho do sorteio da Taça de Portugal que, viesse jogar à Luz com o Benfica.

O jogo realizou-se numa quarta-feira à noite e os adeptos benfiquistas, desvalorizando o adversário por ser de um escalão inferior, acorreram em pouco número ao estádio. Ao invés, os flavienses e outros transmontanos residentes na capital, aproveitando a oportunidade rara de ver o Desportivo em Lisboa, acorreram em grande número, por isso eramos quase tantos os apoiantes do Chaves, como os do Benfica.

Embora o Benfica não fizesse grande poupança de jogadores, fazendo alinhar: José Henrique, Pietra, Eurico Gomes, Carlos Alhinho, António Bastos Lopes, José Luís, Shéu, Chalana, Moinhos e Nelinho, o Chaves defendeu-se com as suas armas, e o resultado foi-se mantendo no zero a zero, até que na marcação de um canto a bola foi cabeceada por José Luís, mas o Carlos Branco defesa do Chaves, cortou a bola de cabeça para canto, fazendo-a passar sobre a trave. Só que o fiscal de linha deu indicação ao árbitro, de que a bola tinha ultrapassado a linha de baliza e este validou o golo.

Gerou-se uma grande confusão no relvado, com os jogadores do Chaves a protestarem junto do árbitro, protestos que se estenderam depois à bancada, porque o fiscal de linha que validou o golo, estava posicionado na linha lateral, onde se encontravam os adeptos do Chaves.

Estávamos em 1976 e viviam-se ainda os resquícios da liberdade, conquistada dois anos antes, em abril de 1974 e a polícia, ainda não recuperara a sua veia repressora, em situações de conflito. Assim para evitar males maiores, a polícia colocou-se de forma apaziguadora, entre os contestários e a linha lateral, apesar de haver na altura, uma rede de proteção, a separar o público do campo.   

Talvez fruto do excesso de liberdade que, ainda pairava, fruto do momento revolucionário vivido, a certa altura alguém da assistência do Chaves gritou – invasão, invasão, invasão e muitos de nós, escalamos a rede para invadirmos o campo. Entretanto a polícia interveio de forma dissuasora, e eu, atingi um polícia com o guarda-chuva, partindo logo a mãozeira.  

Eu tinha na altura vinte e um anos e embora estivesse ali como apoiante do Chaves, agi em função da minha rivalidade com o Benfica, fruto de outros amores. Esse momento tornou-se num dos meus maiores constrangimentos de sempre, quando o polícia me disse.

- Oh homem! Eu também sou transmontano e também estou revoltado, só que estou aqui na minha missão de manter a ordem.

Sentindo-me envergonhado pelo meu ato, atirei o guarda-chuva já sem mãozeira ao chão, e ocupei o meu lugar na bancada, com a má consciência pelo ato perpetrado.

Apenas a título de curiosidade o Zé Luís autor do golo benfiquista era filho de um ex-jogador do Chaves chamado Manuel Jorge e irmão de um outro jogador do Chaves de nome Jorge Silva, que, chegou a ser internacional, fruto do seu desempenho no Desportivo de Chaves.

Doze anos mais tarde, em 20 de março de 1988, voltei a assistir na Luz a um jogo entre o Benfica-Chaves e o resultado foi um empate de 1.1. Nesse jogo o Chaves voltou a ser prejudicado pela arbitragem. O Chaves na época apresentou-se com: Padrão, Vicente, Jorginho, Cerqueira, Rogério Pimenta, Júlio Sérgio, Radi, Gilberto Serra e Vermelhinho.

O Benfica marcou aos 16 minutos por Chalana e o Chaves empatou aos 81 minutos por Radi. Já quase a acabar o jogo, o Radi foi rasteirado por António Veloso, tendo-lhe arrancado até a bota do pé. O árbitro disse depois que não marcou penalti, porque o Radi ficara em posição de prosseguir a jogada, ora, em lance de penalti não há lei da vantagem, nem se pode chutar uma bola descalço.

Quando terminou o encontro, os milhares de flavienses no estádio cantaram orgulhosamente a Marcha de Chaves, que, ecoou pelos corredores do estádio da Luz.

 

 

publicado por Nuno Santos às 19:07

Fevereiro 19 2017

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Tal como a maioria das pessoas também eu detesto filas de espera, por serem uma coisa fastidiosa e sobretudo, uma perda de tempo. No entanto, suporto-as quando são por uma boa causa, nomeadamente, as filas de espera para visitar uma boa exposição, num museu.

Ora, foi por causa da exposição de Amadeu Sousa Cardoso no Museu do Chiado que, neste sábado, aguentei algum tempo numa fila de espera, a qual só não foi maior, porque fizemos a visita cedo, bem antes da hora do almoço.

Para mim é sempre um prazer ir ao Chiado e ao Bairro Alto, pois considero esta zona da cidade só por si, uma espécie de museu, tantos são os pontos de interesse que, ali existem. Além de que foi no Bairro Alto e Chiado, onde passei uma boa parte da minha vida de solteiro em Lisboa, por isso ir ao Bairro Alto, é como que um regresso a casa.

Esta exposição composta por 81 quadros é a evocação do centenário das primeiras exposições que, Amadeu fez no Porto e em Lisboa, em finais do ano de 1916, as quais decorreram nos Jardins Passos Manuel no Porto, e a de Lisboa, na Liga Naval, por sinal perto do Chiado.

Cem anos depois a exposição percorre o mesmo itinerário, esteve primeiro no Porto no Museu Nacional Soares dos Reis, agora está em Lisboa, no Museu Nacional de Arte do Chiado até ao dia 26 de fevereiro.

Quando há cem anos ocorreu esta exposição, segundo rezam as crónicas, ela mereceu uma grande discussão entre o público, não familiarizado com este estilo de pintura tão vanguardista. Na época teve como grande defensor um crítico, também ele pintor e vanguardista José Almada Negreiros.

Por coincidência, está atualmente patente ao público, no Centro de Arte Contemporânea da Fundação Calouste da Gulbenkian também uma grandiosa exposição de Almada Negreiros, a qual tem gerado um enorme interesse do público, gerando-se por isso enormes filas de espera na sua visita.

Tal como disse no início deste post, eu detesto as filas de espera, porém não deixo de ficar satisfeito com este tipo de filas de espera, são um sinal de interesse pela cultura, ora, um povo será mais desenvolvido, quanto maior for a sua cultura.  

 

    

publicado por Nuno Santos às 10:34

Fevereiro 13 2017

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Está a decorrer uma petição para ser levada à Assembleia da República, no sentido de diminuir o peso das mochilas, porque segundo os especialistas da DECO, o peso das mochilas não deve ultrapassar os 10% do peso das crianças, quer isto dizer que, se uma criança pesar 40 kg, o peso da sua mochila não deve ultrapassar os 4 kg.

Embora não tenha nada a opor, esta petição fez-me reportar ao meu tempo de criança, concluindo quão diferente estão as condições de vida em Portugal, quando comparadas com a minha infância e adolescência. Nesse tempo não havia qualquer preocupação com os direitos das crianças, nem sequer havia mochilas, os livros eram transportados em pastas de pano ou de cartão, ou então nas mãos, debaixo do braço.

Só que os livros eram mesmo transportados pelos alunos, porque os pais não deixavam os filhos à porta da escola como agora, e quando não são os pais, são os transportes escolares. No meu tempo eu e todos os outeirosecanos meus contemporâneos fazíamos 5 quilómetros de casa à escola, ou seja 10 quilómetros diariamente. Entrávamos às 8,20 da manhã e embora o inverno em Chaves  seja muito agreste, o vestuário que usávamos na época, não tinha qualquer comparação com o conforto de agora.

Acrescendo a essas dificuldades, muitos de nós quando saíam das aulas, tinha ainda outras tarefas para cumprir, porque como diz o ditado “ trabalho de garoto é pouco, mas quem o não aproveita é louco”, e era necessário apoiar a economia doméstica da família.

O pior era nas chamadas férias de verão, quando ocorriam as principais tarefas agrícolas, porque eram feitas na sua maioria de forma manual, porquanto, as máquinas estavam a ser introduzidas de forma gradual na agricultura. Por essa razão os que vivíamos nas aldeias, considerávamos o início do período escolar, como o início das nossas férias. Nessa altura era vulgar verem-se jovens de catorze ou quinze anos, carregando sacos de centeio ou de batatas às costas, com um peso  bem mais desproporcional do que agora o peso das mochilas.

E aguentávamos? Pois como disse o Fernando Ulrich – Ai aguentávamos! Aguentávamos! porque o trabalho dá saúde diziam-nos os mais velhos, mas claro, era sobretudo porque a necessidade nos obrigava.

Não pretendo defender esse tempo e ainda bem que o país evoluiu, hoje já não existe aquilo a que se chamava exploração infantil, porém, acho que também não devemos cair no oposto, facilitando demasiado as coisas às crianças, ao ponto destas não estarem depois preparadas para as dificuldades da vida.

 

publicado por Nuno Santos às 23:47

Fevereiro 13 2017

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Esta história é muito antiga porque já a minha bisavó a contara á minha avó, que, por sua vez, a recontou á minha mãe e às minhas tias. Também no meu tempo de menino e moço, quando às refeições havia alguma contenda com os meus irmãos, porque algum de nós sentia prejudicado com a repartição do peguilho, a minha mãe dizia-nos.

- Vê-de lá se quereis ir ao macaco juiz.

Ora, a história do macaco juiz reza assim.

Era uma vez dois ratitos que, ludibriando a segurança do bichano lá da casa, o qual gostava mais de ficar enroscado ao borralho da lareira, do que caçar ratos, entraram na despensa da casa e furtaram um queijo. Depois, confrontados com a forma equitativa da partilha do queijo, um deles disse.

- Cá por mim íamos ao macaco juiz, pois segundo ouvi dizer, tem muita sabedoria e um grande sentido de justiça.

O outro rato concordou e lá foram ao macaco, para que este lhes fizesse a partilha do queijo. Exposta a situação, o macaco foi buscar uma balança e partiu o queijo em dois, colocando cada bocado do queijo, nos pratos da balança.

Como o prato esquerdo da balança estivesse mais baixo, o macaco deu-lhe uma valente dentada fazendo com que o desequilíbrio passasse para o lado oposto. Nova dentada na porção do queijo da direita e o desequilíbrio passou de novo para a esquerda.

Os ratitos vendo o queijo a desaparecer, ainda interpelaram o juiz, mas este com ar de muito compenetrado na sua ação, disse-lhes.

- Mas não foi a justiça que procurastes? Então deixai que a justiça se faça.

Continuando com mais uma dentada no bocado da direita, outra dentada no bocado da esquerda, sobraram apenas dois bocaditos de queijo em cada prato da balança. E perante a estupefação dos ratitos, o macaco juiz disse-lhes.

- Bem, como já só há estes dois bocaditos, não vale a pena fazer a partilha, estes ficam como paga do meu serviço.

E dizendo isso, meteu os dois bocados de queijo à boca, ficando os dois ratitos incrédulos com o que lhes tinha acontecido.

Moral da história, nem sempre recorrer à justiça é a melhor solução, por vezes, é melhor o diálogo e a concertação entre as partes.

publicado por Nuno Santos às 09:34

Fevereiro 07 2017

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Alguns dos meus amigos residentes em Chaves, queixam-se do centralismo de Lisboa e Porto, dizendo-me que em matéria de cultura, ali não se passa nada. Ora isso parece-me ser apenas uma meia verdade, cabendo a outra meia verdade, à deficiente organização dos programadores locais, tanto na divulgação dos eventos, como na escolha das datas.

O fim-de-semana passado estivemos em Chaves, onde assistimos a esse exemplo paradigmático. À falta de Pavilhão Multiusos na cidade, decorria no Pavilhão Desportivo a Feira dos Sabores, um evento já por si catalisador de muito público, com expetativas de receber cerca de quarenta e cinco mil pessoas, porquanto este evento fora promovido pela RTP, tendo inclusivé a transmissão em direto, no programa “Aqui Portugal”.

Por coincidência do calendário, o Desportivo de Chaves agora no escalão maior, também jogou em casa nesta jornada, recebendo no sábado à tarde o Boavista, um clube que costuma trazer alguma massa adepta. Ora, estes dois eventos só por si, eram suficientes para dinamizarem muito público. Mas no âmbito cultural a cidade oferece ainda, o Museu da Cidade o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, o Museu de Arte Sacra, o qual creio que muitos flavienses nem sequer conhecem, e ainda a programação de fim-de-semana, do Casino.

Nós visitamos a feira na sexta-feira à tarde, coincidindo ocasionalmente com a abertura, porém, devido a umas encomendas inesperadas, tivemos de lá voltar no domingo de manhã. Sendo ainda muito cedo, pensava eu que seria fácil estacionar no parque do mercado, contudo quando lá cheguamos, deparei-me com o parque ocupado com uma concentração de veículos de todo o terreno, composto de motas de motocross, moto 4 e jipes.

Ora quando neste local já decorria um evento, como a Feira dos Sabores, porque sobrepor um outro na mesma data e no mesmo local? Lá diz o ditado “Não há fome que não dê em fartura” ou “dias de muito é vésperas de nada” ou ainda “Do 8 ao 80”.

 

publicado por Nuno Santos às 10:45

Fevereiro 06 2017

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Se em Outeiro Seco houvesse um prémio que distinguisse o outeiro secano mais empreendedor, esse prémio teria de ser para o Gonçalo Félix, um jovem que, com pouco mais de trinta anos, administra vários projetos que vão dos serviços, à agricultura.

Com um escritório como agente da Liberty Seguros, é gerente de uma tipografia e com a ajuda do pai gere ainda o café, a Taverna. Mais recentemente o Gonçalo dedicou-se à agricultura, iniciando uma exploração de frutos vermelhos, no lugar da Portela, conforme se mostra na imagem.

Apesar dessa atividade profissional o Gonçalo é um pai presente da Beatriz, e joga futebol federado no Vidago F.C,, clube que disputa o Campeonato Regional da A. F. de Vila Real, ocupando atualmente o terceiro lugar da classificação geral.

Ora, numa região cada vez mais desertificada, porque a maioria dos seus jovens mais qualificados, procuram melhorar a sua vida noutros locais (mea culpa), o Gonçalo é um exemplo a seguir, demonstrando que na sua terra, também há janelas de oportunidades.

O Gonçalo fez anos a semana passada, de modo que os meus parabéns são pelo seu aniversário, mas também, pela sua dinâmica de vida, esperando que ele seja um exemplo para os seus conterrâneos, sobretudo os da sua idade.  

publicado por Nuno Santos às 18:23

Janeiro 29 2017

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Na semana em que foram conhecidos os filmes candidatos aos Óscares, fui ver o filme o “Silêncio”, de Martin Scorsese, estranhando que, não figurasse entre os principais nomeados, pois conta apenas com uma nomeação, na categoria de Melhor Argumento Adaptado.

Eu penso que, o facto do filme não ter mais nomeações, não deixa de ser uma forma de censura, à semelhança do que tem acontecido com outros filmes, cujos argumentos versam a religião católica, especialmente quando esta é questionada.

Compreendo que a maioria das pessoas, quando vão ao cinema, fazem-no com o intuito de se divertirem, preferindo filmes mais ligeiros, como o La La Land, um musical que conta com catorze nomeações. Mas como o cinema ´r considerado a sétima arte, este deve ser exposto a todos os géneros, razão pela qual os filmes são classificados, em comédias, dramas, romances, aventuras e outros géneros, cabendo ao público fazer a sua escolha.

Este filme de Scorsese vem na senda da “Última Tentação de Cristo” realizado em 1988, o qual tanta polémica gerou. Em ambos os filmes, Scorcese, mostra-nos a dimensão do sacrifício físico, através da tortura, mas também o sofrimento espiritual, em nome da fé e das convicções religiosas.

O argumento é uma adaptação de um livro com o mesmo nome, de um escritor japonês chamado Shusaku Endo, sobre perseguição ocorrida durante o século XVII, aos padres jesuítas sobretudo portugueses e espanhóis, assim como aos japoneses convertidos.

Os perseguidos ficaram conhecidos no Ocidente, como os Mártires do Japão, mas o filme baseia-se sobretudo, no drama vivido por dois padres jesuítas portugueses, que, face ao sofrimento infligido, aliado ao silêncio de Deus, perante as suas súplicas, tornaram-se apóstatas, isto é, renunciaram à sua fé.

O filme gera algumas perplexidades e reflexões, nomeadamente, as motivações dos Mártires do Japão na implementação de uma religião, onde já havia outra religião secular, a religião Budista.

Costuma-se dizer que a fé move montanhas e apesar da terrível repressão demonstrada no filme, o facto é que continuou a haver resistentes e embora numa proporção muito reduzida, continua a haver cristãos no Japão.

Só que, face ao que se vê pelo mundo, o silêncio tem continuado, razão pela qual em matéria de fé, existem cada vez mais agnósticos, e se há muitos anos atrás, quando aos domingos o sino chamava os fiéis, as igrejas se enchiam para ouvirem a sua palavra, mas dita pelo celebrante, esse chamamento cai cada vez mais no silêncio.

 

 

publicado por Nuno Santos às 10:36

Janeiro 26 2017

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Embora não fosse um passageiro regular do comboio, este fez sempre parte do meu quotidiano, ainda que em casa dos meus pais houvesse um relógio despertador, marca Reguladora, era o apito do sinal da partida, quem todos os dias às sete da manhã, nos indicava a hora do levantar.

A minha primeira vez como passageiro do comboio, só aconteceria no dia 30 de setembro de 1973 quando pela primeira vez saí de casa, para vir trabalhar para Lisboa.

Passaram-se já quarenta e quatro anos, desde essa minha primeira viagem, embora mantenha muito presente esse momento, porque correspondeu a um novo ciclo da minha vida.

A minha vinda para Lisboa satisfazia uma das minhas expectativas de vida, porque era em Lisboa, onde tudo acontecia, em contraste com a pacatez e o marasmo da aldeia e da cidade de Chaves, no início da década de setenta.

Desse dia recordo-me também, da minha primeira despedida da família. Nessa época sair de Chaves para vir para Lisboa, era como sair de Chaves para França, porquanto, ia-se à terra uma vez no ano. Porém esse ato da despedida teve algo de insólito protagonizado pelo meu pai, de quem tinha uma imagem que, em matéria de sentimentos, era algo frio e distante, quando afinal era bem mais sentimental do que eu imaginava.

Assim e para evitar o constrangimento da despedida, o meu pai saiu de casa bem cedo, para não demonstrar  que, por trás daquele corpo enorme de quase cem quilos de peso, havia um coração mole, o qual não aguentava uma despedida anunciada.

Mais tarde constatei essa fraqueza, vendo-o chorar bastas vezes, de felicidade quando chegávamos, de saudade quando partíamos, das primeiras gracinhas do neto, ou com algumas cenas de episódios mais comoventes na televisão.

Antes da minha vinda para Lisboa, poucas vezes tinha saído do vale de Chaves. Tinha ido umas vezes ao Vidago, às festas de Santa Eugénia, outra ao Complexo Agro Alimentar do Cachão, próximo de Mirandela, numa visita de estudo e algumas vezes aos Pisões com o meu tio Silvestre, onde a extensão da albufeira do Alto Rabagão, projetava-me a dimensão do mar.

Embora pouco viajado durante a adolescência, eu fora sempre um grande leitor. Primeiro na Biblioteca Itinerante da Fundação Kalouste Gulbenkian, depois na Biblioteca da Escola Júlio Martins, graças à empatia criada como o seu responsável, o Sr. Silvino. A leitura ajudou-me a abrir horizontes, assim como a criar uma enorme curiosidade e a ser um bom observador.

Donde, apesar de a viagem ter sido longa, de quase doze horas, a mim não me rendeu, atento que vinha a tudo o que via, pois tudo era novidade para mim. Recordo-me que, quando o comboio descia as Alvações do Tanha, já bem próximo da Régua, ter ficado deslumbrado com os vinhedos, assim como pouco depois, com a paisagem à beira do Douro, desde a Régua até ao Porto.

A maior surpresa da viagem ocorreu em Espinho, quando ali vi o mar, pela primeira vez. Afinal a sua dimensão, era bem diferente da albufeira da barragem dos Pisões. O resto da viagem foi um rememorar das localidades por onde o comboio passava, as quais eu já conhecia de cor e salteado. Conhecia-as, não porque as tivesse visitado, mas dos manuais escolares da quarta classe, de cujo programa, fazia parte a aprendizagem, não só de todas as linhas férreas, mas também dos rios e serras de Portugal.

Durante a viagem, os passageiros do comboio não vinham todos à gargalhada, como no Comboio Descendente do Zeca. Vinham cansados da longa viagem e a maioria vinha em silêncio, outros dormitavam. Os casais com a cabeça encostada nos ombros do parceiro, outros de cabeça encostada à janela, outros ainda, com a cabeça entre as mãos sobre os joelhos.

Ora, foi por isso que ninguém se apercebeu que, um saco de feijões colocado no espaço destinado às bagagens, com o balanço do comboio caiu sobre o pescoço de um passageiro. Com o impacto do peso do saco, a vítima bateu com o nariz num joelho, soltando-se logo o sangue.

Foi um Deus nos acuda na carruagem, a vítima que não era o proprietário da bagagem caída e queria tirar desforço do dono do saco agressor. Valeu a boa intermediação, dos outros passageiros evitando-se assim uma cena violenta da vítima com o pretenso agressor, o qual se achava um presumível inocente.

Os milhares de luzes que se viam das janelas, indiciavam-me a proximidade de Lisboa, onde na estação de Santa Apolónia nos aguardava a mim e ao Manuel Benedito, que fora o meu acompanhante e guia nesta viagem, o Joaquim Ferrador, que fora quem me arranjara o emprego e estadia em Lisboa, por quem tenho uma enorme dívida de gratidão.

Depois dessa minha primeira viagem, viajei outras vezes de comboio, mas nem sempre de Lisboa a Chaves. Nessas viagens vivi outros episódios, alguns também pitorescos e bizarros, os quais contarei noutra ocasião.

Esta minha viagem além de nostálgica e é irrepetível, porque os nossos governantes não apostaram na reconversão do caminho-de-ferro, donde já não é possível viajar de comboio, entre Lisboa/Chaves.

Claro que em todas as opções há sempre e ganhos e perdas, e quanto à supressão da linha do Corgo e de outros ramais, embora  se perdesse em segurança e lazer, ganhou-se tempo, pois a viagem que, antes demorava doze horas, de carro faz-se agora em três horas e meia.

publicado por Nuno Santos às 21:53

Janeiro 18 2017

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Não é só anatomicamente que o coração se divide em dois ou seja em dois ventrículos, o ventrículo direito e ventrículo esquerdo. Também emocionalmente o coração pode estar dividido, tal como o canta Marco Paulo “ Eu tenho dois amores”. Aliás, o Prof. Júlio Machado Vaz e Inês Maria Menezes, no programa “O Amor é” emitido diariamente nas manhãs da Antena 1, já por várias vezes desenvolveram o tema das duas paixões.

Bem isto a propósito do meu estado de alma, por causa dos recentes resultados do Chaves-Sporting, as minhas duas paixões desportivas. Eu escrevi antes do jogo, de que gostaria que o Sporting vencesse o jogo para o campeonato, e o Chaves ganhasse o jogo da Taça, a fim de poder regressar ao Jamor, repetindo assim a presença do ano de 2010, dando uma nova alegria a todos os transmontanos, tanto aos residentes na região, como aos que estão espalhados pela diáspora.

 Afinal o meu desejo só se concretizou em parte. Para o campeonato houve um empate, mas com sabor a derrota para os sportinguistas. Na Taça o meu desejo cumpriu-se, tendo o Desportivo ganho e bem, pese embora o golo da vitória só aparecesse ao minuto 87, por isso mesmo dramático para os sportinguistas,  mas saboroso para os flavienses.

Bem sei que falta ainda a meia-final, hoje saber-se-á com quem, se com o Sporting da Covilhã ou com o Vitória de Guimarães. Mas o facto de ser uma eliminatória a duas mãos, logo, haverá mais vantagens de vencer a eliminatória.

Embora flaviense  nunca escondi a minha simpatia pelo Sporting, e tenho a certeza que os  da minha geração, não haverá ninguém que seja exclusivamente, adepto do Chaves. Isso porque no nosso  tempo de meninos e moços, o Desportivo de Chaves disputava apenas os campeonatos regionais, e no máximo, a terceira divisão, com clubes como o Bragança, Fafe, Vianense, ou São Pedro da Cova.  

Ao contrário de outros países, onde as pessoas assumem exclusivamente a sua paixão, pelo clube da sua terra ou da sua região, em Portugal os adeptos assumem a sua simpatia pelos clubes que ganham, ainda que haja raras exceções, como é o caso de Guimarães. Donde, a maioria esmagadora dos flavienses que, ontem glorificaram e bem o Desportivo, tenho a certeza de que teriam sido bem mais contidos, caso o adversário do Chaves tivesse sido outro.

Ora atendendo ao bom momento que, o Chaves está a passar, e seguindo o exemplo do Sporting de Braga, o Desportivo deveria intensificar a visita dos seus jogadores às escolas, fazendo junto dos jovens essa adesão ao Desportivo, evitando deste modo que se tornem adeptos de outros clubes, adotando como clube do coração, o clube da sua terra.

Eu como já não estou em idade de mudar, continuarei fiel a ambos, fazendo seletivamente as minhas opções, embora quanto à Taça de Portugal serei um dos maiores torcedores.

publicado por Nuno Santos às 15:27

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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