Outeiro Secano em Lisboa

Março 28 2013


Dizia há dias o teólogo Frei Bento Domingos que as religiões, nascem da necessidade dos povos, obterem respostas a coisas desconhecidas, como a criação do universo ou da natureza humana.

Entretanto o cristianismo apoderou-se um pouco do termo religião, pese embora haja muitas outras por todo o mundo. E um exemplo disso passa-se com a Páscoa, cuja origem da palavra significa passagem, e no cristianismo está associada à morte e ressurreição de Cristo. Porém há muitos milénios que na antiga Grécia Antiga, se comemorava a Páscoa, como a passagem do inverno para a primavera.

Da mesma forma que os judeus têm a sua Páscoa há mais de 3.500 anos, comemorando  o seu êxodo do Egipto, com a passagem pelo Mar Vermelho. Existe porém uma coisa comum em todas estas comemorações da Páscoa, a data em que a mesma se comemora. É sempre no primeiro domingo de lua cheia, a seguir ao Equinócio de 21 de Março. Este ano a lua cheia entrou na quarta-feira dia 27 Março, razão pela qual a Páscoa é no dia 31. Já agora ficam a saber que em 2014, a Páscoa é no dia 15 de Abril, precisamente no dia dos meus anos.

Associado às comemorações da Páscoa, existem depois várias tradições, desde logo o cordeiro, porque fazia parte do sacrifício aos deuses. Mais recentemente são as amêndoas e os ovos de chocolate. Na nossa região prevalece também o folar o qual tem vindo a ganhar espaço fora da região pois já se comercializa em Lisboa, na Praça da Estefânia n.º 6. O folar da foto não é de lá, mas "made in" Outeiro Seco.

Aproveitando as festividades da Páscoa este blog vai fazer um curto interregno, razão pela qual deixo aqui os desejos de uma boa Páscoa, para todos os meus amigos e visitantes deste blog.
publicado por Nuno Santos às 22:50

Março 27 2013
 

Na próxima sexta-feira à mesma hora em que na aldeia decorre a via-sacra, em evocação da paixão de Cristo, eu estarei sobrevoando a aldeia, e lá de cima irão ocorrer-me alguns pensamentos, sobre o que se estará a passar lá em baixo.

Seguramente que os meus pensamentos não irão tanto para a evocação das três quedas de  Cristo e das ajudas do Cireneu ou da Verónica, mas, para a azáfama que em outros anos a essa mesma hora, um grupo no qual eu me incluía, andávamos com a organização da Corrida da Páscoa.

Uma azáfama que embora começasse alguns meses antes, intensificava-se na noite de quinta-feira santa, com o planeamento do dia seguinte, o dia das provas. Digo provas porque eram várias, contemplando todos os escalões, desde a formação aos veteranos. 

A Corrida da Páscoa e o arraial da festa da Sra. da Azinheira, foram durantes anos os dois eventos que, mais forasteiros trouxeram à nossa aldeia. Entre atletas e apoiantes, visitavam a aldeia nesse dia centenas de pessoas, oriundas dos mais variados concelhos do norte do país, ao contrário do arraial da festa, que tem um público mais localizado.

Por isso é para mim uma enorme frustração, que a nossa Corrida não tenha continuidade, quando a maioria das outras corridas pelo país, têm vindo em crescendo, só no passado domingo a Corrida da Ponte, teve mais de 40.000 atletas. Eu estive no sábado à noite nos pastéis de Belém, bem perto do local onde termina a prova, e lá estavam já imensas carrinhas de clubes e de juntas de freguesia vindas do norte do país, para participarem na corrida do dia seguinte.

 A frustração é ainda maior porque a nossa corrida foi durante anos, considerada das melhores provas  da região norte. Sendo uma organização da Casa da Cultura, vivia da carolice de alguns amigos, apoiados pelo exaurido comércio da cidade.

Quanto ao apoio institucional, não se pode dizer que não existisse, embora em minha opinião ficasse aquém do que devia, porquanto a Corrida da Páscoa, poderia ter sido um excelente veículo de divulgação da região, se da parte dos seus responsáveis, houvesse uma outra visão estratégica.

Fica-nos a satisfacção de termos tido entre os participantes, atletas olímpicos, campeões nacionais e mundiais, entre os quais; Delfim Moreira, Mário Silva e Albertina Dias e tantos outros.

Durante anos dizia eu que na XXV Corrida da Páscoa, iriamos ter a presença de um queniano. Ora se o ciclo não fosse interrompido, este ano seria a XXV Corrida, a qual curiosamente  não vai ter nem um queniano, nem este outeiro secano.

publicado por Nuno Santos às 17:53

Março 25 2013

 

Nos últimos dias tem decorrido uma grande polémica em todos os media, televisões, jornais em formato de papel ou digital, assim como na blogosfera, por causa do regresso de José Sócrates à RTP, como comentador político. De salientar que foi precisamente como comentador que José Sócrates, ganhou notoriedade, quando juntamente com Pedro Santana Lopes aos domingos à noite, comentavam a actualidade política, já lá vão uns bons anos.

Eu nunca votei em José Sócrates, mas não assinei qualquer petição contra o seu regresso à televisão, assim como também não assinei nenhuma petição, pelo facto de Pedro Santana Lopes um ex-primeiro ministro e presidente do PSD, tal como Marques Mendes ou Marcelo Rebelo de Sousa, ambos ex-presidentes do mesmo partido, serem também eles comentadores políticos, em canais televisivos.

Quanto a mim acho que se tem diabolizado em demasia, a figura de José Sócrates, o qual chegou à política vindo da sociedade civil, ao contrário dos actuais protagonistas, Pedro Passos Coeho e António José Seguro, cujos currículos são iguais, isto é fizeram todo o seu percurso nas jotinhas dos seus partidos.

Mas um dia gostava de ver um amplo debate, do tipo de “prós e contras” com os protagonistas pós 25 de Abril, para se saber a responsabilidade que, toca a cada um dos governantes, no actual estado da nação.

Isto porque anda por aí muita boa gente que, parece que não tem nada a ver com isto, quando durante esses quase quarenta anos, fomos governados apenas por dois partidos, os mesmos que disputam agora de novo o poder.

E se há auditorias para tudo, porque não se faz uma auditoria independente à governação, e de uma vez por todas, ficaríamos a saber quem são os verdadeiros culpados desta crise. Eu tenho para mim que um dos principais responsáveis, é agora o nosso principal representante, e muitos dos seus antigos comparsas, alguns responsáveis por actos que, segundo dizem, são autênticos casos de polícia, mas andam por aí alegremente, com o seu dinheiro bem acautelado, imune a situações como a que esteve recentemente eminente no Chipre.

publicado por Nuno Santos às 18:52

Março 24 2013

 

Ao contrário das minhas expectativas, mais uma vez estive do lado da minoria, porquanto, a lista B liderada por Bruno Carvalho, foi a escolhida pela maioria dos sócios sportinguistas. Segundo dados ainda não definitivos, por causa de um constrangimento com os votos por correspondência, nem todos chegados em tempo à assembleia, mas segundo a Mesa Eleitoral esses votos já não alteram os resultados que foram; a lista B  53,63% a lista C 45,35 e a lista A 1,02%.

Bem sei que em democracia, por um voto se ganha e por um voto se perde, mas era preferível que os resultados não fossem tão bipolarizados, como acabaram por ser, cuja diferença entre as duas listas mais votadas, não chegou a 10%.

Espero que esta nova direcção consiga congregar todos os sportinguistas, e aplique uma gestão rigorosa, capaz de  ultrapassar a grave crise que o clube atravessa, tanto financeira como desportiva, e que não aconteça como nas eleições anteriores em que, a nova campanha eleitoral começou, praticamente no dia das eleições.

Da minha parte cumprirei com as minhas obrigações estatutárias, pagando as minhas quotas, e dando o meu apoio, em especial nos jogos realizados em Alvalade, porque como diz uma das suas palavras de ordem “O Sporting é o nosso grande amor” independente de quem seja o seu presidente, porque o Bruno de Carvalho é já o 42.º presidente de um clube que, no próximo dia 1 de Julho comemora o seu 107º aniversário.

Viva o Sporting Club de Portugal!

 

publicado por Nuno Santos às 08:28

Março 22 2013

 

Há muitos anos que eu acalentava um sonho, o de assistir a uma fase final de um mundial de futebol. Pensava eu que a realização desse sonho estava próximo, e quando em 2011 recebemos uns primos brasileiros, o Claudionor a Rosângela e o seu filho Augusto, ficou desde logo combinado que, o retorno da visita seria em 2014, por altura da Copa, como eles chamam ao campeonato mundial.

O Claudionor é filho de portugueses e outeiro secanos. O seu pai é o Alberto Chaves, irmão do meu sogro e a sua mãe, Maria Jorge é irmã da senhora Arlete e do Miguel Jorge. Não é a primeira vez que eles visitam a Europa e o nosso país, e também já foram nossos cicerones no Rio de Janeiro, numa viagem que ali fizemos, há cerca de doze anos. Falamos com alguma regularidade pelo Skipe, e reiteramos sempre a intenção do nosso reencontro em 2014.

Só que após o resultado de hoje em Israel, com um empate a três golos, a nossa selecção hipotecou a probalidade de se apurar para esse mundial, com grande tristeza para mim e para milhões de luso-brasileiros, desvanecendo-se assim o sonho, há muito acalentado. Esta realização do campeonato do mundo no Brasil tinha para os portugueses, razões acrescidas.

Primeiro porque se realizava num país, onde não existe a dificuldade do idioma. Segundo porque permitia rever e até conhecer, familiares ali radicados, sendo essa a nossa expectativa, minha e da Celeste.

O estado da nossa selecção está em linha com o país, sem ânimo e desmotivada, Paulo Bento diz que é uma questão de mentalidade,  embora não  se compreendam essas razões, pois a maioria deles vive e trabalha fora do país, onde são principescamente pagos, ao contrário da maioria dos seus apoiantes, que vivem com uma grande incerteza no dia de amanhã. O não apuramento da nossa selecção é uma enorme frustração não só para os portugueses, mas também, para os brasileiros, que, contavam com uma forte adesão da comunidade portuguesa no Brasil, que sem a sua selecção se alheará mais do evento.

Amanhã há eleições no meu clube, e em matéria eleitoral, quase sempre voto ao lado das minorias, porém amanhã, espero que lista que apoio, a lista C, saia vencedora, caso contrário o meu Sporting, corre o risco de entrar em insolvência, tal como está o nosso país.
publicado por Nuno Santos às 21:05

Março 21 2013

Hoje é o dia mundial da poesia e embora se diga que, de poeta e louco todos temos um pouco, não vos apresento nenhum poema meu, porque essa fase vivi-a na adolescência, sendo “o poeta” uma das minhas alcunhas, quando andei no secundário. Este poema foi escrito por António Lopes Ribeiro, uma figura multifacetada, curiosamente mais ligada ao cinema do que à literatura, considerado o realizador do regime, muitos de nós se lembra ainda de António Lopes Ribeiro, a apresentar na RTP o programa "O museu do cinema".

Este poema é um dos mais conhecidos da nossa literatura, graças à sua divulgação pelo actor João Vilaret, um dos maiores recitadores de poesia de sempre. A Procissão assim se chama este poema, exerce em mim um efeito nostálgico, fazendo-me lembrar sempre a festa da nossa senhora da Azinheira, razão pela qual  frequentemente o leio ou oiço, dito por João Vilaret, de quem tenho vários discos a dizer poesia.

 

 

Tocam os sinos da torre da igreja,

 Há rosmaninho e alecrim pelo chão.

 Na nossa aldeia que Deus a proteja!

 Vai passando a procissão.

Mesmo na frente, marchando a compasso,

 De fardas novas, vem o solidó.

 Quando o regente lhe acena com o braço,

 Logo o trombone faz popó, popó.

Olha os bombeiros, tão bem alinhados!

 Que se houver fogo vai tudo num fole.

 Trazem ao ombro brilhantes machados,

 E os capacetes rebrilham ao sol.

 Tocam os sinos na torre da igreja,

 Há rosmaninho e alecrim pelo chão.

Na nossa aldeia que Deus a proteja!

 Vai passando a procissão.

Olha os irmãos da nossa confraria!

 Muito solenes nas opas vermelhas!

 Ninguém supôs que nesta aldeia havia

 Tantos bigodes e tais sobrancelhas!

Ai, que bonitos que vão os anjinhos!

 Com que cuidado os vestiram em casa!

 Um deles leva a coroa de espinhos.

 E o mais pequeno perdeu uma asa!

Tocam os sinos na torre da igreja,

 Há rosmaninho e alecrim pelo chão.

 Na nossa aldeia que Deus a proteja!

 Vai passando a procissão.

Pelas janelas, as mães e as filhas,

 As colchas ricas, formando troféu.

 E os lindos rostos, por trás das mantilhas,

 Parecem anjos que vieram do Céu!

Com o calor, o Prior aflito.

 E o povo ajoelha ao passar o andor.

 Não há na aldeia nada mais bonito

Que estes passeios de Nosso Senhor!

Tocam os sinos na torre da igreja,

 Há rosmaninho e alecrim pelo chão.

 Na nossa aldeia que Deus a proteja!

 Já passou a procissão.

 

publicado por Nuno Santos às 20:24

Março 20 2013

 

Foi por ela que amanhã me vou embora

 ontem mesmo hoje e sempre ainda agora

 sempre o mesmo em frente ao mar também me cansa

 diz Madrid, Paris, Bruxelas quem me alcança

 em Lisboa fica o Tejo a ver navios

 dos rossios de guitarras à janela

 foi por ela que eu já danço a valsa em pontas

que eu passei das minhas contas foi por ela

Quando o Fausto Bordalo Dias escreveu esta canção, estavamos longe de imaginar, o que iriamos passar, por fazermos parte do clube dos ricos da Europa, ou mais propriamente, do seu sistema monetário, a principal causa dos nossos actuais problemas sociais. Portugal um dos países mais antigos da Europa, com quase um milénio de existência, vive agora sob um protetorado, o qual dita a forma como nos devemos governar.

É certo que também temos algumas culpas no cartório, em especial por causa das opções que fizemos, com os investimentos dos fundos estruturais, mas muitos deles foram-nos impostos por esse directório, e porque acreditamos nas promessas feitas, de que uma vez membros dessa comunidade, estaríamos defendidos das crises, quer fossem económicas ou financeiras, porque a união velaria por nós.

Agora estamos resignados ao nosso fado, o de um povo pobre e triste, à espera que o céu ou a Troika nos caia em cima. Em contrapartida os cipriotas, deram-nos esta semana uma lição de não resignação, tal como antes já o tinham feito os islandeses, ao não aceitarem as condições impostas do exterior.

 

 Foi por ela que eu passo coisas graves

 e passei passando as passas dos Algarves

 com tanto santo milagreiro todo o ano

 foi por milagre que eu até nasci profano

 e venho assim como um tritão subindo os rios

 que dão forma como um Deus ao rosto dela

 foi por ela que eu deixei de ser quem era

 sem saber o que me espera foi por ela.

 

 E é assim que estamos sem saber o que nos espera, quando as nossas expectativas de vivermos os últimos anos das nossas vidas, era bem diferentes.
publicado por Nuno Santos às 20:05

Março 18 2013
 
A queimada é uma bebida típica da Galiza, elaborada com aguardente e açúcar queimado, aos quais é adicionado entre outros ingredientes, casca de limão ou laranja. Qualquer ocasião é boa para realizar uma queimada, desde que se esteja em boa companhia. A queimada tem ganho adeptos no norte do país, sobretudo em Montalegre nas noites de sexta-feira 13, tendo como seu esconjurador-mor o Sr. Padre Fontes. Mas bebe-se também noutros locais e noutras alturas, o importante é que a aguardente seja boa e a queimada bem feita.
Para isso convém que arda durante bastante tempo, de preferência num recipiente de boca larga, como uma caldeira de cobre, como as utilizadas para as moadas do fumeiro. Associado à queimada existe um esconjuro, que se pronuncia enquanto da sua elaboração.
Segundo a crença, este esconjuro protege contra os feitiços, mantendo afastado de quem a bebe, os espíritos e demais seres do mal. A sua origem remonta à época medieval, embora a sua origem seja também atribuída aos celtas. Quanto ao esconjuro, haverá por certo outros textos, este  foi escrito por Mariano Marcos Abalo em 1967 e revisto em 1974. Mariano Marcos Abalo é um galego residente em Vigo, funcionário bancário, e escreveu este esconjuro, para um concurso de jogos florais. 
 
     Esconjuro
 

  Mochos, corujas,

 sapos e bruxas.

 Demônios, trasgos e diabos,

 espíritos das enevoadas veigas.

 Corvos, píntigas e meigas:

 feitiços das mezinheiras.

 Podres canhotas furadas,

 lar dos vermes e alimárias.

 Fogo das Santas Companhas,

 mau-olhado, negros feitiços,

 cheiro dos mortos,

 trovões e raios.

 Uivar do cão,

 pregão da morte;

 focinho do sátiro e pé do coelho.

 Pecadora língua da má mulher

 casada com um homem velho.

 Averno de Satã e Belzebu,

 fogo dos cadáveres ardentes,

 corpos mutilados dos indecentes,

 peidos dos infernais cus,

 mugido do mar embravecido.

 Barriga inútil da mulher solteira,

 falar dos gatos que andam à janeira,

 guedelha porca da cabra mal parida.

Com este fole

levantarei as chamas deste fogo

 que assemelha o do Inferno,

 e fugirão as bruxas a cavalo das suas vassoiras,

 indo se banhar na praia das areias gordas.

 Ouvi, ouvi! os rugidos que dão

 as que não podem deixar de se queimar

na aguardente

 ficando assim purificadas.

 E quando esta beberagem baixe pelas nossas goelas,

 ficaremos livres dos males da nossa alma

 e de feitiço todo.

 Forças do ar, terra, mar e fogo,

 a vós faço esta chamada:

 se é verdade que tendes mais poder

 que a humanas pessoas,

 aqui e agora,

 fazei que os espíritos dos amigos que estão fora,

 participem connosco desta Queimada.

publicado por Nuno Santos às 21:12

Março 15 2013
 

 

Foto Blog do Altino

 

Os ex-donos do Solar

 

No verão passado decorreu mais um momento cultural na nossa aldeia, com o lançamento do livro “Memórias do Arco-da-velha”. Durante a cerimónia ocorreram várias representações, sendo uma delas efectuada pelos apresentadores, eu próprio e a Albertina Ferrador.

Este texto da minha autoria, recria um diálogo entre os últimos habitantes do solar, precisamente o Doutor José Maria Montalvão e sua mulher, conhecida na aldeia por Don’ Ana. Para quem não assistiu à cerimónia, eis o texto do diálogo.

…………………………………………………………………………………………………………………………………….

Doutor - Mas o que é que se está passar no solar! Don ’Ana?

Don ’Ana - José meu amado esposo, parece que vai haver uma festa!

Doutor - Uma festa no solar? A que propósito! Enquanto aqui vivemos, nunca houve festas para o povo, eles só vinham cá mas de chapéu na mão, para me pedir algo. Que lhes emprestasse dinheiro a juros, que lhes arrendasse uma terra, ou lhes perdoasse o arrendo, porque a geada não lhes deixara palha nem grão, uns pedinchões, era o que eles eram.

Don ‘Ana – Coitados! eram tempos muito difíceis José, sobretudo para aqueles, que viviam só do que a terra dava.

Doutor – Sim! Sim! As festas nesta casa eram só no verão e no Natal, quando os nossos filhos e netos vinham de Lisboa, e nós reuníamos aqui, toda a família.

Don ‘Ana - Pois lembro-me de uma festa que demos no pátio grande, onde esteve o povo todo, e até tocou o gaiteiro!

Doutor - Oh! Oh! Oh! Oh! Uma festa para a populaça, aqui no solar! E com o gaiteiro!

Don ‘Ana – Sim, sim José! Não te recordas? Foi quando a minha amiga, Maria de Lurdes Fragoso Carmona, e o seu marido, o Marechal Óscar Carmona que, era o Presidente da República, vieram à nossa casa!

Doutor - Ah pois foi, o gaiteiro até tocou o hino nacional ao Carmona! Nem sei como o encarrilharam. Eu e o senhor meu pai é que nunca morremos de amores pela República! por isso não me lembrava. Mas acabou cedo a festa, recordo-me que durante o baile, alguém apalpou o traseiro a uma moçoila, que dançava com o pai, gerou-se tal reboliço, que mandei por todo o mundo fora. Aliás, é o que vou fazer agora. Vou dar ordens ao Zé Mouco, para expulsar toda a populaça.

Don ’Ana  - Deixa lá José! Olha que estão aqui pessoas importantes, o senhor Presidente da Câmara e outras pessoas ilustres, vai haver aqui o lançamento de um livro, e tu sempre gostastes de livros, lembras-te da tua famosa biblioteca?

Doutor - Oh! Se me lembro, espero que esteja em boas mãos. Os livros são uma óptima companhia, porque estimulam a nossa capacidade imaginária.

Don ‘Ana - Pois parece-me que, o tema do livro que vai ser apresentado, é precisamente sobre o Fantástico e o Imaginário, de coisas passadas nesta terra. Além disso, vão acontecer aqui outros motivos de interesse.

Doutor – Motivos de Interesse! Não me faças rir, mas que motivo de interesse pode ter esta gente?

Don ‘Ana – Vão ser ditos discursos, espero que não sejam tão longos, como os sermões do senhor teu pai, o Dr. Liberal.  Canto lírico, uma coisa que já havia no nosso tempo, ao qual José, tu nunca me levaste a ouvir. E ainda, a representação do 2.º Acto do Ramo, a esse creio que assistimos uma vez, no largo do tanque.

Doutor – Cantorias, homessa! Não bastava ouvires a cantoria das criadas, durante a lide da casa, e olha que algumas, até cantavam bem, oh se cantavam. E tinham até outros atributos, bem melhores.

Don ’Ana – Sim desses atributos das criadas, é melhor nem falarmos. Mas no fim da festa vai haver uma coisa que, foi sempre a tua perdição, aguardente e esta é especial, porque vai ser esconjurada, assim como umas coisas doces, feitas por mãos de fada.

Doutor - Ah bom! Se vai haver aguardente e doçaria, então, que se faça a festa, porque nós cá voltaremos para a sua degustação. Ainda quero ver se essa aguardente, é tão boa como aquela que eu fazia.

 

publicado por Nuno Santos às 18:20

Março 14 2013

 

As atenções do mundo católico centraram-se ontem, entre as 18 e as 19 horas numa das janelas do palácio do Vaticano, para conhecerem o novo papa, recém eleito pelo conclave dos cardeais, ou segundo o dogma, escolhido pelo Espirito Santo.

Quer fossem os cardeais ou o Espirito Santo, escolheram um papa fora da Europa, interrompendo uma prática com mais de 1200 anos. O papa eleito o cardeal José Mário Bergoglio, argentino de nascimento, mas filho de pais italianos.

O novo papa adoptou o nome de Francisco, curiosamente o primeiro com este nome, pese embora seja um nome santo, lembremo-nos de S. Francisco Xavier ou de S. Francisco de Assis.

O acontecimento originou uma série de debates, em todos os canais televisivos, tecendo-se as mais diversas teorias, sobre a personalidade do novo papa, um ex-jesuíta, uma corrente religiosa nem sempre bem vista, quer aos olhos dos políticos como da própria igreja.

Apesar do meu estatuto de pouco praticante e pouco preocupado com a eleição do papa, tenho  para mim que, a acção mais importante do seu papado, deveria ser a convocação de um Concílio, o qual já não se realiza desde a década de sessenta, com o Vaticano II.

Nesse Concílio deveriam fazer como que, uma espécie de revisão da constituição canónica, aproximando mais a igreja da modernidade dos nossos dias, no tocante ao celibato dos padres a intervenção activa das mulheres e em tantas outras práticas, muitas delas já ultrapassadas. Talvez essas medidas ajudasse a estancar a sangria que a igreja católica tem neste momento para outros movimentos, nomeadamente os evangélicos, quer na América Latina como em Portugal.

Aguardemos pois com serenidade o desempenho do novo papa, cujas referências são as de uma figura implicada com as desigualdades sociais, e desprendida dos bens materiais ao ponto de enquanto arcebispo de Buenos Aires, viver num simples apartamento e se deslocar em transportes públicos.

Curioso é ver a Praça de S. Pedro na televisão e ao vivo, a percepção quanto ao seu tamanho, é totalmente diferente. Ao vivo torna-se bem mais pequena, do que nos parece na televisão, uma sensação igual passa-se com o hemiciclo da Assembleia da República, que também nos parece bem mais pequeno ao vivo, do que na televisão, daí o ditado "as aparências iludem".   

publicado por Nuno Santos às 13:03

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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