Outeiro Secano em Lisboa

Março 31 2016

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 Foto tirada em Segirei numa das rotas do Contrabando

 

 

Entende-se por contrabando, a transmissão de mercadorias entre dois países por vias não legais, sem o registo nem pagamento das taxas aduaneiras. Após a entrada na CEE Comunidade Económica Europeia, agora denominada União Europeia, essas barreiras foram abolidas passando tanto as mercadorias como as pessoas, a circularem livremente.

Antes disso, o contrabando apesar de proibido e fiscalizado do lado português pela Guarda Fiscal e do lado espanhol pela Guardía Civil (carabineiros) era uma prática utilizada em todas as regiões raianas, nomeadamente naquela que agora é designada como, a eurocidade Chaves-Verin, na área que vai da freguesia de Soutelinho da Raia até a Segirei.

 

Em Outeiro Seco essa prática do contrabando, foi transversal a várias gerações. Quase sempre havia um ou mais agentes que arriscavam financeiramente na operação, depois contratavam jovens que, a troco de um soldo combinado, transportavam às costas essas mercadorias, de Espanha para Portugal, até um local previamente combinado.

O que os jovens ganhavam nessa operação, dava-lhes para os seus pequenos gastos quotidianos, compensando a semanada que, não recebiam dos pais. Mas não se pense que era um dinheiro fácil, bem pelo contrário. Primeiro essas ações só se realizavam durante a noite, tanto nas noites serenas de verão, como nas frias e molhadas de inverno, além disso, estavam sujeitos ao excesso de zelo de algum guarda, havendo infelizmente vários episódios trágicos, que ilustram isso.

Nos finais da década de sessenta, era o José Rodrigo, também conhecido por Zé Moucho, o principal agente do contrabando na aldeia. O Zé herdara a alcunha e a atividade da sua mãe, Ana Batista, também conhecida como Ana Moucha, que durante uma boa parte da sua vida, fizera do contrabando o seu meio de vida.

Embora já casado e pai de filhos, porque casara muito precocemente, o Zé tinha pouco mais de vinte anos, por isso relacionava-se com toda a juventude da aldeia, inclusive jogava até na equipa de futebol, não tanto pelas suas aptidões futebolísticas, mas porque era o único que já tinha carro, um Volkswagen carocha branco, o qual funcionava como o autocarro da equipa.

A carga era variada, tanto poderia ser de têxteis, como calças de ganga ou de bombazine, como de bens alimentícios como o bacalhau ou o azeite. A maioria das operações tinham sucesso, até porque eram bem planeadas, procurando saber quem eram os guardas que estavam de serviço nesse dia e qual a zona de intervenção.

Já quanto aos carabineiros, as autoridades do outro lado da fronteira, havia alguma alguma negligência, pois como o fluxo era de lá para cá e como as divisas ficavam do lado espanhol, os carabineiros não costumavam ser muito atuantes, também porque os próprios comerciantes galegos, se encarregavam de os moderar.

Mas sempre que havia mudanças no comando do posto e enquanto a coisa não entrava na normalidade, havia sempre um período de alguma instabilidade. Ora precisamente numa altura dessas, em que o grupo vinha  ainda compacto do lado galego, foram surpreendidos pelos carabineiros.

Ouvida a ordem de paragem, dada pelo novo chefe dos carabineiros, foi um deus nos acuda, cada um fugiu para seu lado, só que perante os disparos para o ar, do chefe dos carabineiros, houve três que arrearam a carga.

Depois de ter posto a sua carga a salvo, o Zé Rodrigo  ainda voltou atrás, tentando junto do chefe da brigada, recuperar a carga apreendida, dizendo-lhe.

- Oh senhor guarda, eu já sou um homem casado e tenho dois filhos, o senhor tirou-me o pão dos meus filhinhos.

Sem se desconcertar o carabineiro disse-lhe.

- Mira se esto es el pan de tus hijos, Hoy será el pan de mis hijos.

Perante a intransigência do agente galego, não restou outra alternativa ao Zé Rodrigo em dar essa carga como perdida. Contudo o prejuízo não foi total, porquanto, os restantes elementos do grupo, ainda salvaram as suas.

 

 

 

publicado por Nuno Santos às 12:46

Março 29 2016

 

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O fundo do mar é um depositário de muitas belezas naturais mas também de tesouros, entre as quais, o relógio de bolso de corrente prateada, da família Eckardt.

Reinaut Eckardt era um alemão nascido em Hamburgo, que, como a generalidade dos nórdicos, era alto e louro e tinha os olhos azuis. Devido à sua profissão de transitário no porto marítimo da sua cidade, um dos portos com maior tráfego na europa e no mundo, visitou várias vezes Portugal.Algumas vezes veio por razões profissionais, outras em férias com a família, disfrutando do nosso sol e das nossas praias.

Sentindo-se encantado pelo nosso clima, foi acalentando a ideia de que, quando se reformasse, seria em Portugal, onde passaria o resto da vida. Essa ideia foi germinando na sua mente, obtendo a concordância da família.

Assim quando atingiu a reforma, na altura ainda aos sessenta anos, Reinaut Eckardt e a mulher, porquanto, as duas filhas do casal já tinham a sua vida própria, mudaram-se definitivamente para Portugal. O local escolhido para a nova residência foi a pacata vila da Parede, no concelho de Cascais.

A escolha da Parede não fora despropositada, a sua localização reunia duas condições, que para o Eckardt eram essenciais. A primeira era a proximidade com o mar, porque o mar fazia parte do seu quotidiano. A segunda porque tinha as condições para a prática da vela, o desporto da sua paixão desde muito novo.

Como estavam reunidas estas duas condições, pouco depois de se instalarem na nova casa, Eckardt inscreveu-se como sócio no Centro Náutico de Cascais, adquirindo um barco à vela, da classe solitário, ou seja de um só velejador.

A prática da vela ajudou-o a integrá-lo na sociedade de Cascais, já a sua mulher que era uma exímia jogadora de golfe, tornou-se sócia do Clube de Golfe do Estoril, passando a viver como uns autênticos turistas, com visto permanente.

O Eckardt era o mais velho de três irmãos, facto que lhe valeu ter sido o herdeiro de uma relíquia da família, um relógio de bolso com corrente prateada. A Alemanha está associada ao nascimento do primeiro relógio de bolso, mais propriamente no ano de 1504, na cidade de Nuremberga.

Este relógio era mais recente, mas como tinha passado por várias de gerações, não sabiam ao certo qual o ano de fabrico, porém, era uma bela peça de relojoaria mais valorizada ainda, por ter pertencido aos seus antepassados. A  estima pelo relógio, fazia com que ele o usasse diariamente, separando-se dele apenas à noite, quando se deitava, ainda que ficasse bem próximo de si, na mesa de cabeceira.

A vela é um desporto condicionado pelas condições meteorológicas, apesar de ser uma modalidade muito antiga, não fez parte dos primeiros jogos olímpicos da era moderna, por causa do mau tempo que, nessa altura assolou Atenas, donde, só em 1900 nos jogos olímpicos de Paris, a vela se tornou efetivamente, uma modalidade olímpica.

Os velejadores dizem que a prática da vela, é o melhor remédio para combater o stress, porquanto, as preocupações do quotidiano ficam em terra porque no mar, as preocupações do velejador concentram-se exclusivamente, na estabilidade do barco.

Uma certa manhã o Eckardt zarpou com o seu veleiro da marina de Cascais, embora houvesse pouco vento, só ao largo o vento amainou totalmente. Embora tivesse utilizado todas as técnicas, aprendidas ao longo dos anos, para lidar com esta situação, o barco  limitava-se a balançar ao sabor das ondas.

Mas como velejador experimentado não se exasperou, baixou as velas e esperou que o vento voltasse, entretanto e para ajudar a passar o tempo morto, o Eckardt soltou a corrente do seu relógio e pôs-se a observá-lo minuciosamente, coisa que fazia pela enésima vez.

Entretido que estava nessa observação, foi surpreendido por uma forte onda, que, balançou de tal forma o barco, desequilibrando-o e fazendo com que o relógio lhe tenha saltado da mão e caído ao mar.

Instantaneamente o Eckardt ficou sem saber o que fazer, se havia de mergulhar tentando recuperar o relógio, ou se havia de segurar o barco e consequentemente a sua vida. Ainda hoje não sabe explicar a razão da sua opção, mas o certo é que optou pela segunda.

 

Odivelas, 8 de março de 2016

publicado por Nuno Santos às 08:14

Março 28 2016

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Foram muitos os outeiro secanos, que vieram das várias regiões do país e do estrangeiro, para socializarem com as suas famílias e os amigos, nesta quadra festiva. Mas, não fora o facto de se ter realizado na sexta-feira santa a via sacra, cada vez menos participada, uns porque a distância do  calvário, já pesa nas suas pernas, outros por preguiça e comodismo preferem ficar na cama, da tradição da Páscoa vai restando, a cozedura dos folares e o evangelho da missa do domingo.

Até  a tradição de se cozerem os folares, já não existe em todas as casas, porquanto, muitos compram-nos na cidade, nas diversas casas da especialidade.

Longe vão os tempos em que esta quadra festiva, se vivia na aldeia com grande intensidade. Começava logo na quarta-feira de Cinzas, o dia que marca o início da quaresma, com a novena da via sacra, a qual era rezada todos os dias. Agora a novena da via sacra, reza-se apenas às sextas-feiras à noite, com pouco mais de uma dezena de presenças.

Ao meio dia de quinta-feira santa, quando se ouvia nos sinos da torre da igreja o toque a sinais, simbolizando a morte de Cristo, os lavradores interrompiam as suas lides, guardando o feriado, o qual se prolongava até segunda-feira. Na sexta-feira de manhã realizava-se então a via sacra sempre muito participada. As mulheres faziam luto, cobrindo-se com os seus xailes negros. No regresso do calvário, os jovens mais irreverentes atavam as franjas dos xailes às mais distraídas, de modo que quando a primeira virava para a sua rua, arrastava o xaile das outras, para grande risada e chacota dos restantes.

No sábado da Páscoa era dedicado à azáfama dos folares e à decoração das ruas e das casas, para no domingo se receber o Compasso, que ia benzer as casas. Nessa madrugada os rapazes acordavam a aldeia, com o toque nos sinos da igreja,  assinalando a aleluia e ainda que voltássemos a adormecer, éramos despertados bem cedo, por uma alvorada de foguetes.

Após a celebração da  missa, o povo andava numa roda viva entre os assados para o almoço e o ouvido à escuta da campaínha, anunciando a proximidade do Compasso. O Compasso era composto normalmente por cinco elementos, o padre, o sacristão e mais três voluntários.

À frente ia a campaínha anunciando o séquito, seguindo-se a cruz, a qual era dada a beijar a todos os elementos da família, depois a caldeirinha com a água benta, com a qual o padre benzia a casa, por fim o saco, onde se guardavam as oferendas. Quase sempre o portador do saco era o sacristão, não fosse algum dos outros, cair em tentação.

Embora o calendário pascal se mantenha, isto é a Páscoa é sempre no primeiro domingo de lua cheia, após o equinócio da primavera, ou seja após o dia 21 de março. Razão porque a Páscoa é uma festa móvel. Este ano a primeira lua cheia, ocorreu seis dias após o equinócio da primavera, mas em 2017 já será em 16 de abril, na nossa aldeia as tradições da Páscoa, têm sofrido grande mutação.

Acabou-se a tradição do Compasso, mas com o aparecimento da Casa de Cultura, apareceram outras tradições, mais ligadas ao desporto e ao lazer, como a participação em torneios populares de futebol, a Corrida da Páscoa, complementadas pela organização de um baile.

O futebol pese embora existam infraestruturas para a sua prática, vá lá saber-se porquê, é uma atividade em vias de extinção na aldeia. Já a Corrida da Páscoa, com maior ou menor dinamismo tem-se realizado quase todos os anos. Porém este ano porque se celebrava a 25ª Corrida, atendendo ao seu simbolismo merecia um maior destaque, que, em minha opinião, não lhe foi dado.

Para isso bastava que da parte da organização, no caso a Casa da Cultura, tivesse havido um maior empenhamento,  envolvendo anteriores organizadores que, sem disputarem qualquer protagonismo, estariam dispostos a colaborar de forma a assinalar esta efeméride, e ao mesmo tempo ajudando a corrida a ter o prestígio que merecia.

Com a criação da Banda Musical no seio da Casa da Cultura, acabou também a organização do baile da Páscoa sendo substituido por um concerto da Banda, aos seus associados. A ideia foi boa só que este ano, vá lá saber-se porquê! O concerto da Páscoa não se realizou, ficando os sócios da Casa da Cultura e o povo em geral privados de mais uma tradição da aldeia.

Ora, este ano o domingo de Páscoa, tornou-se praticamente num domingo igual a tantos outros, deixando em muitos outeiro secanos que vieram de longe a interrogação, se valeu a pena o sacrifício, de vir de tão longe passar a Páscoa à terra!

É urgente repensar tudo isto, para que Outeiro Seco possa manter vivo o lema de “Tradição e Modernidade”, sobretudo na área social e cultural.

publicado por Nuno Santos às 14:48

Março 24 2016

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Durante muitos anos mantive uma forte ligação à organização desta prova, fazendo entre outras coisas, a função de speaker. Por graça costumava dizer que, quando da realização da 25ª Corrida, teríamos a presença de um queniano, no pressuposto de que esta prova, se afirmaria no panorama do atletismo nacional.

Infelizmente tal afirmação nunca aconteceu e por isso, na 25.ª Corrida não haverá um queniano, não por culpa da Casa da Cultura que faz o que pode, mas sobretudo, por causa da falta de visão dos nossos dirigente autárquicos, os quais nunca souberam nem quiseram, potenciar este projecto.

Desde o início desta prova que, a participação da autarquia, limitou-se à doação de um subsídio simbólico e à presença dos seus responsáveis nesse dia, para a entrega dos troféus. De resto, pouco ou nada fizeram para que a prova se afirmasse no panorama desportivo, apesar de ser uma das mais antigas.

Ao invés, a Corrida do Douro Vinhateiro, na Régua, partindo atrás de nós catorze anos, tornou-se numa das corridas mais participadas, a nível nacional.

O mais paradoxal é que Chaves tem dado atletas que, na modalidade do atletismo, representaram o país em campeonatos europeus, mundiais e Jogos Olímpicos, como foram os casos de Delfim Moreira ou João Junqueira, sem que a cidade lhes tenha granjeado grande tributo.

Lembro-me até de uma partida dos atletas para uns Jogos Olímpicos, em que o Delfim Moreira foi o único atleta não foi homenageado pela sua Câmara, quando todos os atletas o tinham sido nas suas terras de origem.  

Não conheço de todo a programação desta 25ª Corrida, mas pelo cartaz parece-me que irá estar muito aquém, daquilo que durante muitos anos foi um sonho lindo, mas que se perdeu tal como outros, é a vida.

  

 

publicado por Nuno Santos às 07:23

Março 23 2016

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Há dias assim, logo ontem que o meu amigo João Paulo fazia 50 anos de idade, e a Carla em conluio com as filhas e alguns amigos, entre os quais me incluía, lhe preparou uma festa surpresa, as atenções estiveram quase todas viradas para Bruxelas, por causa dos terríficos atentados que vitimaram para já 31 pessoas.

Em minha opinião estes atentados são um retrocesso civilizacional, porém tocaram-me de um modo particular, porquanto por razões profissionais o meu filho, costuma ser um utente dessa estação de metro, duas vezes por mês. Felizmente não foi o caso de ontem, porque tinha lá passado na semana anterior.

Durante o dia multiplicaram-se as mesas redondas assim como as muitas opiniões nas redes sociais, sobre as causas e os juízos dos acontecimentos. Mas se para os mais novos isto seja uma novidade, infelizmente a minha geração, tem convivido desde sempre, com ações de terrorismo.

Quem não se lembra das ações das Brigadas Vermelhas em Itália, que desde a década de 1960 espalharam o terror nesse país, tendo inclusive sequestrado e morto o seu primeiro-ministro Aldo Moro.

Quase em simultâneo na então Alemanha Ocidental, foram as Brigadas Baader Meinhof a espalhar o terror naquele país, também durante quase duas décadas. Em França foi Carlos o Chacal, pese embora fosse venezuelano, o mentor e autor de variadíssimos atentados em França, para onde tinha vindo estudar. Na vizinha Espanha foi a ETA, com atentados constantes até há bem pouco tempo.

Agora têm sido os muçulmanos radicais os protagonistas, atuando na Europa e no Mundo. Para aqueles que clamam pelo seu repatriamento, é preciso ter em consideração que, a larga maioria dos implicados são europeus, ainda que convertidos ao islão. Alguns até portugueses como Mikael Batista, morto na Síria que além de luso descendente, era filho de pais flavienses. Durante as suas férias no verão, até terá assistido à missa na igreja da aldeia dos pais, ou até feito ali o seu batismo.

Importa é que a população não se deixe manietar pelo medo, e que os líderes mundiais combatam a montante, as causas do terrorismo. Porque não é com decisões como as tomadas na cimeira dos Açores, onde se deliberou invadir o Iraque que, se combate o terrorismo.

Será que passou a haver maior estabilidade mundial, após a eliminação dos denominados ditadores como Kadahfi na Líbia, ou Sadam Hussein no Iraque? Ou pelo contrário, não terá sido essa a razão do aumento dessa instabilidade!

Apesar dos incidentes do dia, a noite acabou em festa na Churrasqueira Brasa em Sassoeiros, onde o meu amigo João Paulo se deslocou para jantar com a mulher e as filhas e foi surpreendido com um grupo de trinta amigos à sua espera. Muitas felicidades para o João Paulo e família e oxalá que o nosso brinde se concretize, porque foi “ Que o Sporting seja campeão”.

 

publicado por Nuno Santos às 09:53

Março 22 2016

 

 

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                                                                                         Foto retirada da internet

 

 

Parte I

Bateram à porta e quando a abri, deparei com uma jovem de porte excessivo quase obeso. Embora as feições do seu rosto aparentasse ser o de uma jovem, o seu conjunto físico dava-lhe um aspeto mais velho. Apresentou-se como Lila dizendo que, vinha por causa do anúncio, sendo uma das candidatas ao cargo de rececionista.

Mostrei alguma estranheza pela situação, mas disse-lhe que estávamos perante um equívoco, porquanto, não tínhamos colocado qualquer anúncio, nem tínhamos de momento qualquer vacatura de emprego.

Notei o desalento que a minha resposta lhe causara, desculpando-se agradeceu e saiu entristecida por certo.

Por instantes dei por mim a refletir nas causas que levaram aquela jovem, áquele estado de obesidade, uma situação cada vez mais recorrente. Seriam complicações hormonais, ou a prática continuada de maus hábitos alimentares!

Sem qualquer sentimento discriminatório, pensei ainda, nas dificuldades da jovem encontrar emprego como rececionista, porquanto, a função de rececionista é o cartão-de-visita de uma empresa, para quem a procura.

 

Parte II

Como habitualmente cheguei à estação do Cais do Sodré por volta das 19,00 horas, para apanhar o comboio que diariamente me leva a casa, saindo da estação pelas 19,05h. Enquanto esperava que o comboio formasse na linha, avistei uma jovem que devido ao seu aspeto um pouco excessivo,  deu-me a sensação de já a ter visto noutra ocasião.

Veio-me então à memória a jovem que, há dias batera à porta do escritório, por causa de um pretenso anúncio de emprego, lembrando-me inclusive do seu nome, pois apresentara-se como Lila, ao mesmo tempo apercebi-me de que a Lila, estava um pouco perdida, por isso dirigi-me a ela, perguntando-lhe se a podia ajudar. Ao que parece também ela me terá reconhecido, porque foi notória a sensação de alívio, da minha oferta.  

Disse-me que queria apanhar o comboio para Carcavelos, mas não sabia qual era a linha onde formava. Perguntei-lhe se já tinha adquirido o bilhete fazendo-me um sinal afirmativo, mas quando o procurava na mala, uma mala preta em imitação de pele, talvez comprada na feira de Carcavelos, ou na Parfois, a mala abriu-se deixando cair vários objectos pessoais, a carteira, o estojo de maquilhagem o isqueiro e os cigarros, mas o que me intrigou, foi um pequeno livro de bolso da obra de Fernando Pessoa, editado pelo Jornal Expresso.

Ajudei-a a apanhar os objectos caídos e disse-lhe que estava com sorte, pois também eu ia para Carcavelos, assim iríamos ser companheiros de viagem. Como os outros passageiros já subiam para o comboio, apesar do seu porte físico excessivo, Lila correu atrás de mim, subindo o estribo da carruagem com desenvoltura.

Foi durante a viagem que a Lila me contou a história da sua vida. Disse-me que nasceu nos Estados Unidos, filha de pais portugueses agora separados. Mas porque gostava muito de Portugal, onde em pequena passava as férias com os pais, a Lila decidira refazer no nosso país a sua vida, vivendo aqui com os avós.

Entretanto já constatara, quão diferente é o estilo de vida entre os Estados Unidos e Portugal, por isso estava a alterar radicalmente o seu estilo de vida, a fim de se  adaptar o mais rapidamente à vida no nosso país, que segundo ela adorava. Estava descoberta a razão do livro de Fernando Pessoa na sua carteira, pois também o poeta escrevera:

“Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida”.

Disse-me  que começara por alterar os seus hábitos alimentares e até já se inscrevera num ginásio. Agora procurava um emprego para se tornar independente e sair da tutela dos pais e dos avôs. Embora tivesse um bom currículo, e o domínio das duas línguas fosse uma vantagem, como a conjuntura do emprego estava difícil, ela não era muito selectiva, respondia a todas as propostas que lhe surgiam, razão de nos termos conhecido naquela situação.

O comboio abrandou mais uma vez a sua marcha chegaramos  à estação de Carcavelos, por isso despedimo-nos com votos de felicidades futuras.

 

 

Parte III

 

Durante a viagem e enquanto a Lila contava a sua história de vida, já na estação de Belém entrou um casal, ocupando os lugares vagos à nossa frente. Pelo estilo informal como vestiam, apercebi-me de que eram turistas. Vestiam ambos calça de ganga e t-shirt e às costas traziam umas pequenas mochilas, embora a dele fosse ligeiramente maior.

Ele trazia ao pescoço presa por uma alça azul, uma máquina fotográfica Canon digital, modelo EOS 760, adequada para fotógrafos amadores, pese embora tire boas fotografias.

Conversavam entre si, mas pelo idioma percebi que eram espanhóis. Estranhamente eram muito reservados, pois os espanhóis costumam ser mais expansivos. Falavam sobre os monumentos que visitaram na zona de Belém, admirados por haver tantos monumentos para visitar, em tão curto espaço.

Quando o comboio passava por Caxias, o nosso companheiro de viagem interpolou-nos, dizendo.

- Por favor, ¿qué es eso en el medio del mar?

Respondi-lhe no meu portunhol, aprendido num pequeno curso de três meses.

 Es el fuerte de Bugio, que há sido construido por un rey español, en el período en que Portugal estaba bajo dominio español.

Gracias - disse-me ele, retomando a conversa com a sua companheira.

A Lili retomou também a sua história de vida, até que chegamos à estação de Carcavelos. 

O casal continuou a viagem, provavelmente iriam até Cascais. À saída e já de pé no corredor, ainda soltei.

- Hasta la vista y buenas fiestas.

- Hasta la vista, Gracias, retorquiu o espanhol.

 

 

  

publicado por Nuno Santos às 08:29

Março 21 2016

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Este fim de semana em que entrou a primavera, esteve quase à beira de ser perfeito, não tanto do ponto de vista meteorológico, porque em Lisboa os aguaceiros foram frequentes, mas no âmbito desportivo, já que o Sporting esteve à beira de reconquistar a liderança do campeonato, coisa que lhe assentava bem, face ao seu desempenho, sejamos justos, .

Bem sei que o futebol não se rege por critérios de justiça, e os resultados desta jornada são disso um paradigma, o Benfica fez quatro remates à baliza, dois dos quais enquadrados com a baliza e faz um golo, enquanto o Boavista fez bem mais que isso, sofrendo um golo aos 93 minutos.

O Desportivo de Chaves também vai somando pontos, ainda que à Benfica, isto é ganhando mas não convencendo, ontem lá ganhou mais uma vez em casa ao Atlético por 1-0. Este ano já tive a oportunidade de assistir a vários jogos do Chaves em casa, sempre com resultados pouco positivos. Recordo-me dos empates com o Braga B, Benfica B, Oriental, mas não senti que fosse por falta de apoio da sua massa adepta.

Tem valido ao Chaves para se manter na frente, os resultados positivos obtidos fora, mas sobretudo, a conjugação dos resultados menos positivos das equipas concorrentes, demonstrando o equilíbrio que existe nas equipas da segunda liga.

No próximo fim de semana estarei em Chaves, mas por causa da seleção e da Páscoa não haverá jogos. O Chaves jogará agora dois fora, no dia 2 de abril na Oliveirense, o último classificado e no dia 6 de abril virá a Alcochete defrontar o Sporting B. Se tudo correr como o planeado, estarei presente, mas de cachecol azul grená, pese embora cá em casa haja muitos cachecóis verdes e brancos.

 

publicado por Nuno Santos às 08:47

Março 20 2016

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A leitura do evangelho nas missas dominicais de hoje dirá que, esta festa, simboliza a entrada triunfante de Jesus Cristo na cidade de Jerusalém, quando montado num burro e acompanhado pelos seus apóstolos, foi saudado pela multidão, com ramos de palmeira.

Ora, como a flora não é igual em todas as terras e as palmeiras predominam sobretudo, na zona mediterrânica e marítima, na nossa terra a saudação a Cristo, é feita com ramos compostos de louro, oliveira, congorsa, salva e alecrim.

Mas mais do que o simbolismo da saudação a Cristo, no meu tempo de menino e moço, este dia era para nós um concurso de ramos. A tarde de sábado era dedicada à procura das plantas com que ornamentávamos os ramos, e a sua apresentação, dependia da imaginação de cada um. Havia-os grandes e pequenos, uns em forma de arco, outros em forma de cruz, mas a maioria eram do tipo fachuco, ou seja, as plantas eram misturadas e atados com um fio, alguns também lhe dependuravam rebuçados.

Embora o dia de Ramos signifique o início da semana santa, para nós esse dia confinava-se apenas à bênção do ramo, o qual depois de benzido era oferecido aos padrinhos, dando quase sempre uma moedita, servindo para adoçar a boca, com as guloseimas compradas na taberna da Sra. Cândida ou da Sra. Adelaide.

Mas claro que nem todos os ramos eram para oferecer aos padrinhos, a sua maioria eram guardados e secos em casa, para serem utilizados como defumadouros. Nessa época a ida ao médico não era tão generalizada, muitas das doenças curavam-se com remédios e mezinhas caseiras.

E como nem todas as doenças eram físicas, algumas eram apenas do foro mental e psicológico, atribuídas ao mal da inveja ou mau olhado, a cura dessa doença fazia-se com um defumadouro. Queimava-se os ramos bentos e segundo os crentes, esse fumo afastava o mau olhado, curando o paciente.

Acredite quem quiser, mas era assim no meu tempo.

Um bom dia de Ramos para todos.

 

  

  

 

 

publicado por Nuno Santos às 10:17

Março 19 2016

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Preocupado com a minha nova fase de vida, a retirada da vida ativa, o meu filho a título de terapia ocupacional, ofereceu-me no último natal um curso de Escrita Criativa, o qual terminou ontem. Em forma de agradecimento dedico-lhe este pequeno conto, escrito durante o curso.

 

O menino que não gostava do por do sol

 

Era uma vez um menino que não gostava do por do sol. Chamava-se Luisinho e vivia numa aldeia situada no sopé de uma serra virada a nascente, onde o sol se punha mais cedo e as brincadeiras com as crianças da sua idade, terminavam, quando se ouviam da torre da igreja as nove badaladas, espaçadas de três em três do toque das trindades.

O toque das trindades para as crianças das aldeias, era como para os militares nos quartéis, o seu toque a recolher, mas para o Luisinho que, tinha medo do escuro, o toque das trindades traziam-lhe angústia e desconforto.

O Luisinho não tinha irmãos, vivia com os pais e os avós numa casa solarenga, construída já no século XVIII, a qual se mantinha na família por herança. Como a aldeia não tinha luz elétrica, os serões passavam-se à lareira com a família e os vizinhos mais próximos.

Ora, ao longo do serão as conversas nem sempre versavam o quotidiano, muitas vezes contavam-se histórias fantásticas que, embora entusiasmassem o Luisinho, durante o sono transformava-se em pesadelos, sendo frequente os pais que dormiam no quarto contíguo, acordarem com o choro aflitivo do Luisinho.

Os pais tentavam tranquiliza-lo, dizendo-lhe que estavam ali ao lado como guardiões, mesmo assim algumas vezes quando acordaram, encontraram-no deitado hirto de frio sobre o tapete do quarto, só para os não acordar.

Os pais andavam muito preocupados com a fobia do filho, e sem saberem o que fazer. Mas um dia o pai teve uma ideia e transmitiu-a ao Luizinho.

- Olha meu filho! Doravante, eu e tu vamos dormir presos por um fio. Assim quando acordares, porque alguém te queira fazer mal, tu não gritas, puxas o fio e eu de imediato estarei junto de ti, para te ajudar.

O Luisinho ficou radiante com a ideia, pois sentia na presença do pai, uma espécie de escudo de segurança.

Logo nessa noite, após rezar a oração que a avó lhe ensinara“ anjo da guarda minha companhia, guardai a minha alma de noite e de dia”, o pai prendeu o fio ao pulso do Luisinho, deu-lhe um beijo de boas noites e recolheu ao seu quarto, esticando o fio.

Estava descoberta a terapia, a partir dessa noite e nas seguintes, o Luisinho passou a dormir tranquilamente, jamais chorando ou chamando pelos pais, desaparecendo assim o medo do escuro.

Anos mais tarde o Luisinho foi estudar para a cidade, ganhando o gosto pela astronomia. Durante as férias na aldeia, adorava olhar o firmamento, onde mesmo a olho nu, se podiam observar as estrelas e as constelações, coisa que a luminosidade da cidade não permitia fazer, com tanta nitidez.

Nessa altura o Luisinho segurando nas mãos o fio, que, estivera na origem da libertação a sua fobia de infância, o de não gostar do por do sol, o qual guardara como uma relíquia, comentava com os seus pais sorrindo.

- Mas Que tolice a minha! Se não houvesse o por do sol, como é que eu poderia ver as estrelas?

    

Nuno Afonso dos Santos

Lisboa 18 de março de 2016

 

publicado por Nuno Santos às 09:19

Março 18 2016

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Afinal está montado no Brasil o cenário que se temia, ou seja, a bipolarização entre os apoiantes de Lula e Dilma e os seus opositores. O pior é que essa contestação, em vez de ser nos meios constitucionais, como na Assembleia, está a ser feita na rua e na imprensa, sabendo-se que a imprensa, nomeadamente a rede Globo, é tendencialmente afeta à direita.

Ontem Dilma dizia que os golpes de estado nascem assim, com efeito, pelo se pode observar por cá, através dos correspondentes locais das televisões, ou pelas redes sociais, o clima está muito complicado e preocupante.

A mim preocupa-me não tanto pelas relações bilaterais entre o Brasil e Portugal, as quais não são relevantes e nem sempre foram muito salutares, vide como o caso da PT, mas sobretudo, por causa das relações pessoais e familiares, porque não haverá quase nenhum português que, não tenha um parente ou amigo, ainda que afastado no Brasil.

Como disse no post anterior, a minha simpatia pelo Lula e pela Dilma, não pretende branquear qualquer eventual situação de corrupção, porque tanto quanto me apercebo, a justiça tem cumprido a sua missão, de salientar que foi durante os seus mandatos que, grandes figuras do regime foram condenadas, são exemplo disso José Dirceu no caso do Mensalão, ele que era o número dois do Partido dos Trabalhadores (PT).

Só que a Justiça tem de ser cega e justa e não pode tomar parte, porém neste caso o juiz que tem este processo, ao domingo grita nas ruas “fora a Dilma” e nos restantes dias investiga o caso “Lava Jato” logo não me pareça que possa estar a ser imparcial, mas esse é o meu ponto de vista.

Para todos os meus familiares e amigos no Brasil, o desejo de que a situação se resolva, sem grandes constrangimentos.  

 

publicado por Nuno Santos às 08:32

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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