Outeiro Secano em Lisboa

Junho 29 2017

Sra da Azinheira.jpg

O mês de junho é o mês dos santos populares, razão pela qual assistimos um pouco por todo o lado, às suas comemorações, misturando-se a parte religiosa do tributo aos santos pelas graças concedidas, com a festa pagã, mais virada para a folia e diversão.

O primeiro é o Santo António, cujos festejos atingem o seu expoente máximo em Lisboa, seguindo-se depois o São João e o São Pedro. Claro que o São João do Porto, é aquele que, concita uma maior atenção mediática, ainda que rivalizando um pouco com o de Braga, mas há muitos outros festejos do São João espalhados pelo país, como o de Almada e de outras localidades.

Com o São Pedro é precisamente o mesmo e quem ontem viu televisão, soube da devoção e tradição que este santo tem na Póvoa de Varzim, mas também no Montijo e em Sintra.

Curiosamente estes festejos têm todos um denominador comum, o forte envolvimento das respetivas autarquias no tocante à parte económica, suportando estas, uma boa parte da despesa, nomeadamente a do fogo-de-artifício. A propósito o fogo-de-artifício do São João no Porto neste ano, foi espetacular.

Mas independente do envolvimento das autarquias, assistimos também um grande envolvimento das populações, esforçando-se por manter vivas as tradições, honrando desse modo, a memória dos seus antepassados. No Porto, alguém faz a cascata do São João, porque herdou as figuras do seu avô e quer preservar a sua memória e a tradição. O mesmo se passa com os tronos de São Pedro na Póvoa de Varzim, nos desfiles etnográficos de Braga ou nas marchas de Lisboa.

Em Outeiro Seco também existia uma tradição no São Pedro. Armava-se uma espécie de trono no largo do tanque, feito com os vasos das flores roubados às donas de casa durante a noite, mas também com artefactos usados pelos lavradores que, descuidadamente os deixavam na rua nessa noite.

 Mas, a maior tradição da aldeia é sem dúvida em setembro, com a comemoração das festas da Senhora da Azinheira e do São Miguel, sobretudo o arraial da Senhora da Azinheira. Aqui manda a tradição que, a comissão nomeada para a organização da festa seja rotativa, tocando assim a todos os bairros, sendo que, neste ano, a comissão nomeada pertença ao bairro do Eiró.

Embora ainda falte algum tempo, para a data da festa, parece haver um silêncio ensurdecedor, levando em crer que, a comissão nomeada, vá resignar à organização da mesma, quebrando-se assim uma tradição à qual o bairro do Eiró esteve sempre associado, nomeadamente pela vitória conquistada no despique entre os bairros, realizado no ano de 1945.

Bem sei que vivemos outros tempos, e a proximidade de Outeiro Seco com a cidade, ajudou na descaracterização desse bairrismo. Mas por outro lado a cidade, tem sido nos últimos anos, a maior fonte de financiamento da festa.

Se calhar chegou o tempo de se encontrar um outro modelo para a organização da festa, assim em vez de se nomear uma comissão que, nunca se sabe se aceita a nobre missão de organizar a festa, passar a ser a própria Junta de Freguesia que, juntamente com os restantes elementos da Assembleia de Freguesia e a Comissão da Igreja, organizem em conjunto, as festas da Senhora da Azinheira e o São Miguel.

Embora não residente e cada vez com menor ligação funcional que não sentimental à aldeia, é com tristeza que vejo o desaparecimento dessas tradições do passado, porque uma terra sem passado não tem futuro. Ora todos nós conhecemos o brilhante passado da nossa terra, mas para o preservar, há que viver o presente e esse, é agora.

 

  

 

  

 

publicado por Nuno Santos às 08:51

Junho 19 2017

Fogo.jpg

 Foto do Público

 

O terrível incêndio de Pedrógão Grande, considerado desde já o maior de sempre em Portugal, por causa do número de vítimas causadas, trouxe à discussão temas recorrentes, como o ordenamento do território, a prevenção e o combate aos incêndios, além de outros temas como a cobertura televisiva.

Embora atento ao acontecimento, tenho evitado assistir às reportagens televisivas, sobretudo à sistemática repetição das imagens telivisivas, assim como às explicações de técnicos de gabinete, a maioria dos quais, nunca se viu confrontado com um incêndio.

Claro que o tema é muito controverso, digo isso porque já me vi confrontado de perto com este fenómeno, por mais de uma vez. Há poucos anos em Vilela Seca, concelho de Chaves, ajudei a estender as mangueiras aos bombeiros de Vidago, quando o fogo estava a cerca de três ou quatro quilómetros de distância. Ainda não tínhamos acabado de estender as mangueiras e tivemos de fugir, levando o carro as mangueiras de rasto, porque o fogo, já estava em cima de nós. Valeu-nos a circunstância de estarmos numa estrada asfaltada e ter sido fácil a escapatória.

Sobre este incêndio não deixa de ser paradoxal que, quando o mesmo ainda não se extinguiu, assim como não se tenham identificado todas as vítimas nem feito os funerais, já se procurem culpados desta catástrofe, mas em meu entender as suas causas estão muito a montante, desde logo no ordenamento do território.    

Ora, quando nas cidades do interior se fecham escolas, maternidades e outros serviços hospitalares, e as empresas e os serviços são deslocalizados para o litoral, contribuindo para a sua desertificação destas regiões, claro que se está a potenciar os incêndios.

Eu estive apenas por duas vezes nesta região, tendo almoçado numa delas em Figueiró dos Vinhos. Uma das coisas que me chamou a atenção foi a quantidade de casas solarengas ali existentes, muitas delas em estado de abandono, sinais dessa mesma desertificação.

A imagem publicada hoje na capa do Público é ilustrativa dessa realidade, atente-se na densidade deste pinhal, além de contribuir para uma maior propagação dos incêndios, contribui também uma menor rentabilidade económica do mesmo. Ora estando este pinhal à beira de uma estrada, quem é o responsável pelo seu estado? Claro que em primeiro será o proprietário, mas tratando-se de um depósito de combustão não existe uma fiscalização que obrigue à sua limpeza?

publicado por Nuno Santos às 20:37

Junho 11 2017

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                                                                  Foto Humberto Ferreira

 

Embora os censos indiquem que sejamos cerca de dez milhões de portugueses, há outros indicadores que dizem que seremos cerca de quinze milhões, espalhados pela diáspora, isto é pelos cinco continentes.

A prova disso é que no espaço de pouco mais de uma semana, os sinos da nossa igreja tocaram três vezes, anunciando a morte de outros tantos outeiro secanos, tendo em comum, o facto de terem nascido e vivido na nossa aldeia parte das suas vidas, mas por razões circunstanciais, tiveram de fazer as suas vidas noutros paradeiros, sem contudo perderem as suas raízes.

por via disso os seus familiares, fizeram questão que, o sino da nossa igreja que, quando dos seus batismos anunciou ao povo o seu nascimento, agora nas suas mortes anunciasse também a sua despedida.

A primeira vez foi a Aninhas Florista, lamento já não me lembrar do apelido verdadeiro, ainda que tivesse nascido em Guimarães, tal como o seu irmão, o Zé Sapateiro, foi em Outeiro Seco que cresceu e se fez mulher aqui casando e criado os seus filhos.

Mais tarde emigrou para os Estados Unidos, donde regressou para viver os seus últimos dias. Só que a vida dá muitas voltas e afinal, quem veio para ficar foi o seu marido, João Floristo, este sim nascido e criado na aldeia. Viúva e com a família toda nos Estados Unidos, a Aninhas acabou por regressar para junto dos seus, dos quais se separou em definitivo, na passada semana.

A segunda vez que o sino tocou foi pelo José Lopes, mais conhecido na aldeia como o Zé Chibinha. O Zé era o mais novo de quatro irmãos, dois rapazes e duas raparigas todos eles ainda vivos. Ao que parece, a vida terá sido um pouco madrasta para o Zé, lá por terras de França, razão pela qual poucas vezes nos visitava no verão, ao contrário da maioria dos emigrantes que regressam quase todos os anos por altura das férias.

Quem também nos visitava frequentemente, em especila por altura da festa da Sra da Azinheira, era a Maria do Céu Pinho, mais conhecida por Céu Vigária. A partir de hoje jamais o fará, porquanto, faleceu em Lisboa. O sino que tantas vezes tocou para as orações rezadas pela sua avó, a senhora Maria dos Anjos, toca hoje a finados pela sua neta Céu.

Convivi com todos eles ainda embora mais com a Céu, porque durante anos fomos vizinhos no Bairro Alto em Lisboa. Por isso deixo aqui os sentidos pêsames a todas as famílias enlutadas, em especial à Fernanda e ao Mári,o pois, pelo facto de ter vindo justamente neste fim de semana a Chaves, não poderei estar presente nas cerimónias fúnebres. Paz às suas almas.

Nota - Por ironia ontem o sino tocou duas vezes a finados, a primeira vez pela Céu Pinho falecida em Lisboa e ali enterrada, fazendo companhia ao seu marido Ângelo.

Em seguida, tocou pelo António Pereira do Rio Costa mais conhecido como o António "Caneco". O António nasceu em 03-09-1933 falecendo ontem dia 11 de junho de 2017 vítima de doença prolongada. O seu corpo está em câmara ardente na capela mortuária de Outeiro Seco e o seu funeral será hoje segunda-feira às 17 horas. À Lula sua esposa e restante família, apresentamos os sentidos pêsames.

 

 

 

publicado por Nuno Santos às 11:38

Junho 03 2017

Quem tem medo de V W.jpg

Depois de Plaza Suite no Teatro Tivoli a dupla Diogo Infante e Alexandra Lencastre regressou ao palco, desta vez no Teatro da Trindade, para interpretarem o clássico “Quem tem medo de Virgínia Woolf.

Porque morei alguns anos no Largo de Camões, tornei-me num frequente espetador do Teatro da Trindade, tendo ali assistido à exibição de grandes peças de teatro, mas também de outros espetáculos, recordando-me de uma atuação da flaviense Teresa Ventura, cuja carreira deixei de seguir, por ignorância minha ou se por abandono seu!

Quanto ao Teatro da Trindade e por causa dessa proximidade, também fui assistindo à sua degradação, ao ponto de se tornar penoso assistir ali a um espetáculo, por causa da incomodidade das cadeiras.

Felizmente este teatro um dos mais belos de Lisboa, foi requalificado, ganhando de novo comodidade e dada a sua capacidade, torna assim possível que, mais público possa usufruir da sua programação.

Claro que a cidade de Lisboa beneficia muito da proximidade dos grandes artistas, pois mesmo entre as gravações de novelas ou de outras séries televisivas, podem representar peças de teatro. Alguns fazem-no por necessidade artística pois o Teatro é a sua essência como artistas, enquanto as novelas e outras representações, são a sua sobrevivência.

A peça em cena embora não escrita por Virgínia Woolf, tem como referência os jogos psicológicos entre os casais, sendo que nestas circunstâncias nem sempre tenham finais felizes. A representação destes dois monstros do teatro nacional é que é sempre brilhante.

 

publicado por Nuno Santos às 09:54

Junho 01 2017

Pessoas já desaparecidas.jpg

Já não sei qual o evento que decorria no Largo do Tanque, o nosso salão de festas, mas presumo que seria uma Corrida da Páscoa. Dos assistentes nesta fotografia, apenas o meu sogro está entre nós, embora já não fosse o mais novo dos retratados.

Com o desaparecimento destas pessoas, desapareceu também muita da nossa história. Embora na nossa terra se tenha feito muita recolha, refletida em muita obra publicada, eu penitencio-me por não recolhido do meu pai ou do meu tio Augusto, como o filho mais velho, os testemunhos do meu avô Manuel dos Santos, um ex-combatente da I Grande Guerra, as suas vivências nesse terrível acontecimento que, assolou o mundo, no início do século passado.

Os personagens desta foto teriam também muitas histórias para contar, umas de caráter pessoal, outras com repercussões  na vida social da aldeia. Entre os retratados está o Zé Regalia, cuja bonomia era reconhecida sendo o autor de muitas histórias pitorescas.

Recordo-me duma que me contou, a do roubo da boina ao Carloto na Bagoeira, pensando este que fora o diabo que lhe aparecera, no cruzamento das Japoneiras.

Isso aconteceu numa noite de breu quando o Carloto e a sua mulher seroavam em casa da sua mãe, vizinha do Zé Regalia. Ora quando o Carloto estava para sair, o Zé escondeu-se na sua eira, entre as ramagens da figueira.

Nessa época durante o inverno, a Bagoeira era um lamaçal e os transeuntes tinham de passar por um tombarão, uma espécie de passadiço, mesmo rente ao muro da eira do Zé.

À frente vinha a tia Júlia e logo atrás o Carloto, assim quando o Carloto passou, o Zé aproveitando-se do escuro e da noite e as ramagens da figueira, sacou-lhe a boina da cabeça.

Este talvez sugestionado por aquilo que se dizia deste lugar, saltou para o meio da lama correndo o mais rápido que pode do lugar. A mulher surpreendida perguntou.

- Que foi Manel! Parece que viste o diabo?

- Foi o diabo negro, que me roubou a boina da cabeça.

O caso ficou apenas dentro do casal, reforçando a ideia que o cruzamento das Japoneiras, era um lugar assombrado. Passado alguns dias e como o Carloto continuava a andar com a cabeça em couca, o Zé com o seu espírito galhofeiro disse para os outros.

- Perguntai ao Carloto pela boina?

Foi quando o Carloto descobriu que, o diabo se chamava Zé.

 

publicado por Nuno Santos às 16:07

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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