Outeiro Secano em Lisboa

Fevereiro 19 2013

 

A LUTA ENTRE O CARNAVAL E A QUARESMA (1559) — Pieter Bruegel (1564-1638) — Kunsthistorisches Museum, Viena

 

Antigamente eram bem diferentes os quarenta dias que medeiam o Carnaval e a Páscoa. Por isso, aquele samba onde o Martinho da Vila canta “ Pra tudo se acabar na quarta-feira” já não faz mais sentido, porque ainda no domingo passado, o primeiro domingo da quaresma, enquanto pelo Skipe conversava com uns primos que vivem no Rio de Janeiro, por sinal próximo do sambódromo, eles diziam que ali ao lado, estava a decorrer o desfile das escolas vencedoras.

Em miúdo recordo-me do sacrifício para não dizer suplício, a que a minha mãe me sujeitava, a mim e aos meus irmãos, obrigando-nos a fazer jejum e abstinência na quarta-feira de cinzas, não nos deixando comer as sobras do cozido do Entrudo, eu que ainda hoje adoro essas iguarias.

O mesmo acontecia depois em todas as sextas-feiras da quaresma, todas elas de jejum e abstinência, apesar de se pagar a bula ao padre. Confesso que muitas das vezes não resistia à tentação da carne, e pecava, mas não era com toucinho do enguião, quando pecava era logo com uma linguiça, roubando-lha quando apanhava a cozinha sozinha.

Porém esses tempos, não se diferenciavam apenas pela abstinência da carne, mas também e sobretudo, pelos hábitos religiosos, como a via-sacra a qual se fazia todos os dias com a igreja cheia. Agora reza-se apenas à sexta-feira à noite, e vão uma dezena de pessoas, ou pouco mais e depois na sexta-feira santa percorrendo o calvário. Mas mesmo essa via-sacra da sexta-feira santa é diferente, já não se enumeram os suplícios aplicados a Cristo, agora leem-se textos, adaptados à modernidade. Os santos dos altares já não são tapados com panos roxos, embora se mantenha o uso de não tocar o sino, na semana santa. O Sr. José do Forno ainda hoje conserva essa mágoa, de não ouvir o toque a finados no funeral da sua mãe, precisamente porque faleceu na sexta-feira santa.

Nos meios rurais mantém-se ainda o hábito de ao meio dia de quinta-feira santa, tocar o sino a finados, simbolizando a morte de Cristo. A partir desse momento, guarda-se dia santo de guarda, prolongando-se até ao meio dia de sexta-feira. O sino só volta a tocar à meia-noite de sábado de aleluia. Porém nas cidades a quinta-feira é dia de trabalho, e faz-se o feriado depois na sexta-feira.

Os sete domingos da quaresma contam-se da seguinte forma: Ana; Magana; Rebeca; Susana; Lázaro; Ramos na Páscoa estamos. O Lázaro apesar do seu simbolismo religioso por representar um milagre de Cristo, era vivido na nossa região com algum paganismo, pois coincidia com a feira anual de Verin, a qual está para os nuestros hermanos, como para nós os Santos, sendo a única altura do ano em que a fronteira era livre.

O dia de Ramos era uma festa que começava logo no sábado à tarde , com a procura dos elementos com que se fazia o ramo, o louro, oliveira, cangorsa e salva e o alecrim. Na missa de domingo quando da sua benção, despicavam-se o ramo mais imponente, uma prática que de certa maneira, ainda hoje se mantém na aldeia, onde o Zé Serra faz questão de apresentar o ramo maior.

O dia de Páscoa de comum com o da minha meninice, tem apenas os folares. Esse dia amanhecia com uma alvorada de foguetes, e após a missa, ouvia-se por toda a aldeia o tilintar da campainha, anunciando aleluia, aleluia e o compasso visitava todas as casas, as quais se arranjavam a primor, com flores e as melhores rendas, para receberem a benção do senhor. Enfim mudam-se os tempos mudam-se as vontades, mas apesar de não ser um saudosista, não deixo de me lembrar com saudade, de algumas coisas desse passado. 
publicado por Nuno Santos às 23:17

A tua memória, fiel e colorida, desperta imagens reais em todos os que vivemos essa cultura que, sem o sabermos, nos ia fazendo celebrantes da vida e das suas tragédias, mortes e renascimentos. Foi um mundo feito de séculos que, em poucos anos, deu lugar a outro, talvez mais livre, menos injusto, certamente mais rápido e seguro, mas que não é a mesma coisa, lá isso não. Sorte a nossa, que pudémos viver o melhor desses dois mundos e, se nos dá tanto gozo recordar os bons sabores antigos, não podemos esquecer a responsabilidade de continuarmos a tentar melhorar o actual, com os ensinamentos que do outro trouxémos e os sonhos que neste admirável mundo novo hão-de continuar a fantasiar-nos o futuro.
E, quanto ao pecado da linguiça em tempo de abstinência, amigo Nuno, quem o não cometeu que atire a primeira pedra...
Foi delicioso ler e voltar a ver as imagens de som, cor, cheiro e movimento que escreveste. Obrigado. HPombo
herculano pombo a 20 de Fevereiro de 2013 às 09:27

Bom dia, Amigo Nuno!

É muito bom poder recordar esses tempos, que tão bem nos descreves com as tuas palavras. Subscrevo inteiramente o que diz o Dr. Herculano Pombo no seu comentário, no que ao "pecado" de comer carne diz respeito,sempre ás escondidas dos respectivos progenitores: Quem nunca o tiver feito que atire a primeira pedra.

Um abraço para ti e Celeste.
Albertina Ferrador a 20 de Fevereiro de 2013 às 11:37

Olá amiga Albertina!
Ai mulher... leste o comentário do Nuno?
Já tenho outro motivo, além daquele que nós sabemos, pra ir a Outeiro Seco...
abraço amigo
leonor moreira

Obrigada ao Nuno pela informação.
leonor moreira a 20 de Fevereiro de 2013 às 15:01

Boa tarde amigos!
Ora aqui está um tema mto interessante.
Nestes tempo tudo é diferente....
Agora uma pergunta sobre o toque do sino e fora da Quaresma:
Em Outeiro Seco paga-se para tocarem o sino a finados? É que na minha aldeia natal, pagam-se 100 euros para esse efeito, ouvi deizer, bá... mas vou tirar a limpo.
cmps a todos
leonor moreira
leonor moreira a 20 de Fevereiro de 2013 às 13:47

Olá Leonor,
Apesar de saber que eras leitora deste blog, é com enorme prazer que leio o teu comentário. Quanto à questão do sino, na nossa aldeia desde que o tornaram mecânico, ele toca através de um comando remoto, o qual está em casa da Sra. Alice. Toca a finados assim como ao toque das trindades e para chamar os fiéis para a missa. No entanto, quando há funerais ou outras exéquias na igreja, tais como casamentos e baptizados, é costume os interessados nessas exéquias, pagarem alguma coisa, apesar do nosso padre não ter estipulado um valor para o serviço. De modo que cada um, dá o que quer, ficando para a igreja. Embora para a igreja é como quem diz, pois se assim fosse, a igreja teria o dinheiro suficiente para realizar as obras necessárias, infelizmente vai praticamente todo para o Seminário de Vila Real, o qual nunca contribuiu para formar nenhum outeiro secano, pois o último padre natural da aldeia, formou-se no Seminário de Bragança.
Obrigado pela visita e comentário, para ti e para todos os outros visitantes e comentaristas.
Nuno Santos
Nuno Santos a 20 de Fevereiro de 2013 às 14:40

Bonito e bem escrito este post neste ano, o Ano da Fé proclamado por S.S. o Papa Bento XVI. Para os crentes consiste num modo de reverem e estimularem a mensagem cristã, renovarem o seu compromisso baptismável e vivê-la o mais possível na sua integridade. Para outros, um boa ocasião de conhecerem e despertarem o anseio da verdade e de sentido da religião - da Fé - para a vida.
Quaresma: em jeito de comentário lembro-me, entre outras, de três ocasiões vividas.
Em Alcafozes, Idanha-a-Nova, os sinos não dobravam na semana Santa, apenas as matracas - objetos de percussão em madeira - emitiam sons para chamamento dos fiéis nas horas de celebração da agonia do Senhor.
Em Caminha, as longas procissões iluminadas pelas velas e impressionantes pelo silêncio da sua passagem nas ruas.
Em Sevilha, como noutras cidades espanholas, procissões traduzidas em desfiles ricos, com charretes puxadas por cavalos engalanados e personagens impecavelmente fardados, verdadeiras manifestações de alegria na crença da ressurreição.

Júlio a 20 de Fevereiro de 2013 às 23:18

Olá amigo,
Obrigado pelo teu comentário e por partilhares as tuas experiências de festejos da semana santa, nas tuas muitas viagens pelo país e pelo mundo, nesta quadra festiva.
Um abraço,
Nuno Santos
Nuno Santos a 20 de Fevereiro de 2013 às 23:35

e ainda havia outra não se poder cantar
vasco sobreira garcia a 24 de Fevereiro de 2013 às 18:08

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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