Outeiro Secano em Lisboa

Janeiro 26 2017

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Embora não fosse um passageiro regular do comboio, este fez sempre parte do meu quotidiano, ainda que em casa dos meus pais houvesse um relógio despertador, marca Reguladora, era o apito do sinal da partida, quem todos os dias às sete da manhã, nos indicava a hora do levantar.

A minha primeira vez como passageiro do comboio, só aconteceria no dia 30 de setembro de 1973 quando pela primeira vez saí de casa, para vir trabalhar para Lisboa.

Passaram-se já quarenta e quatro anos, desde essa minha primeira viagem, embora mantenha muito presente esse momento, porque correspondeu a um novo ciclo da minha vida.

A minha vinda para Lisboa satisfazia uma das minhas expectativas de vida, porque era em Lisboa, onde tudo acontecia, em contraste com a pacatez e o marasmo da aldeia e da cidade de Chaves, no início da década de setenta.

Desse dia recordo-me também, da minha primeira despedida da família. Nessa época sair de Chaves para vir para Lisboa, era como sair de Chaves para França, porquanto, ia-se à terra uma vez no ano. Porém esse ato da despedida teve algo de insólito protagonizado pelo meu pai, de quem tinha uma imagem que, em matéria de sentimentos, era algo frio e distante, quando afinal era bem mais sentimental do que eu imaginava.

Assim e para evitar o constrangimento da despedida, o meu pai saiu de casa bem cedo, para não demonstrar  que, por trás daquele corpo enorme de quase cem quilos de peso, havia um coração mole, o qual não aguentava uma despedida anunciada.

Mais tarde constatei essa fraqueza, vendo-o chorar bastas vezes, de felicidade quando chegávamos, de saudade quando partíamos, das primeiras gracinhas do neto, ou com algumas cenas de episódios mais comoventes na televisão.

Antes da minha vinda para Lisboa, poucas vezes tinha saído do vale de Chaves. Tinha ido umas vezes ao Vidago, às festas de Santa Eugénia, outra ao Complexo Agro Alimentar do Cachão, próximo de Mirandela, numa visita de estudo e algumas vezes aos Pisões com o meu tio Silvestre, onde a extensão da albufeira do Alto Rabagão, projetava-me a dimensão do mar.

Embora pouco viajado durante a adolescência, eu fora sempre um grande leitor. Primeiro na Biblioteca Itinerante da Fundação Kalouste Gulbenkian, depois na Biblioteca da Escola Júlio Martins, graças à empatia criada como o seu responsável, o Sr. Silvino. A leitura ajudou-me a abrir horizontes, assim como a criar uma enorme curiosidade e a ser um bom observador.

Donde, apesar de a viagem ter sido longa, de quase doze horas, a mim não me rendeu, atento que vinha a tudo o que via, pois tudo era novidade para mim. Recordo-me que, quando o comboio descia as Alvações do Tanha, já bem próximo da Régua, ter ficado deslumbrado com os vinhedos, assim como pouco depois, com a paisagem à beira do Douro, desde a Régua até ao Porto.

A maior surpresa da viagem ocorreu em Espinho, quando ali vi o mar, pela primeira vez. Afinal a sua dimensão, era bem diferente da albufeira da barragem dos Pisões. O resto da viagem foi um rememorar das localidades por onde o comboio passava, as quais eu já conhecia de cor e salteado. Conhecia-as, não porque as tivesse visitado, mas dos manuais escolares da quarta classe, de cujo programa, fazia parte a aprendizagem, não só de todas as linhas férreas, mas também dos rios e serras de Portugal.

Durante a viagem, os passageiros do comboio não vinham todos à gargalhada, como no Comboio Descendente do Zeca. Vinham cansados da longa viagem e a maioria vinha em silêncio, outros dormitavam. Os casais com a cabeça encostada nos ombros do parceiro, outros de cabeça encostada à janela, outros ainda, com a cabeça entre as mãos sobre os joelhos.

Ora, foi por isso que ninguém se apercebeu que, um saco de feijões colocado no espaço destinado às bagagens, com o balanço do comboio caiu sobre o pescoço de um passageiro. Com o impacto do peso do saco, a vítima bateu com o nariz num joelho, soltando-se logo o sangue.

Foi um Deus nos acuda na carruagem, a vítima que não era o proprietário da bagagem caída e queria tirar desforço do dono do saco agressor. Valeu a boa intermediação, dos outros passageiros evitando-se assim uma cena violenta da vítima com o pretenso agressor, o qual se achava um presumível inocente.

Os milhares de luzes que se viam das janelas, indiciavam-me a proximidade de Lisboa, onde na estação de Santa Apolónia nos aguardava a mim e ao Manuel Benedito, que fora o meu acompanhante e guia nesta viagem, o Joaquim Ferrador, que fora quem me arranjara o emprego e estadia em Lisboa, por quem tenho uma enorme dívida de gratidão.

Depois dessa minha primeira viagem, viajei outras vezes de comboio, mas nem sempre de Lisboa a Chaves. Nessas viagens vivi outros episódios, alguns também pitorescos e bizarros, os quais contarei noutra ocasião.

Esta minha viagem além de nostálgica e é irrepetível, porque os nossos governantes não apostaram na reconversão do caminho-de-ferro, donde já não é possível viajar de comboio, entre Lisboa/Chaves.

Claro que em todas as opções há sempre e ganhos e perdas, e quanto à supressão da linha do Corgo e de outros ramais, embora  se perdesse em segurança e lazer, ganhou-se tempo, pois a viagem que, antes demorava doze horas, de carro faz-se agora em três horas e meia.

publicado por Nuno Santos às 21:53

recordar é viver e recordar coisas boas é muito bom é salutar é maravilhoso
vasco sobreira garcia a 27 de Janeiro de 2017 às 22:56

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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