Outeiro Secano em Lisboa

Março 22 2016

 

 

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                                                                                         Foto retirada da internet

 

 

Parte I

Bateram à porta e quando a abri, deparei com uma jovem de porte excessivo quase obeso. Embora as feições do seu rosto aparentasse ser o de uma jovem, o seu conjunto físico dava-lhe um aspeto mais velho. Apresentou-se como Lila dizendo que, vinha por causa do anúncio, sendo uma das candidatas ao cargo de rececionista.

Mostrei alguma estranheza pela situação, mas disse-lhe que estávamos perante um equívoco, porquanto, não tínhamos colocado qualquer anúncio, nem tínhamos de momento qualquer vacatura de emprego.

Notei o desalento que a minha resposta lhe causara, desculpando-se agradeceu e saiu entristecida por certo.

Por instantes dei por mim a refletir nas causas que levaram aquela jovem, áquele estado de obesidade, uma situação cada vez mais recorrente. Seriam complicações hormonais, ou a prática continuada de maus hábitos alimentares!

Sem qualquer sentimento discriminatório, pensei ainda, nas dificuldades da jovem encontrar emprego como rececionista, porquanto, a função de rececionista é o cartão-de-visita de uma empresa, para quem a procura.

 

Parte II

Como habitualmente cheguei à estação do Cais do Sodré por volta das 19,00 horas, para apanhar o comboio que diariamente me leva a casa, saindo da estação pelas 19,05h. Enquanto esperava que o comboio formasse na linha, avistei uma jovem que devido ao seu aspeto um pouco excessivo,  deu-me a sensação de já a ter visto noutra ocasião.

Veio-me então à memória a jovem que, há dias batera à porta do escritório, por causa de um pretenso anúncio de emprego, lembrando-me inclusive do seu nome, pois apresentara-se como Lila, ao mesmo tempo apercebi-me de que a Lila, estava um pouco perdida, por isso dirigi-me a ela, perguntando-lhe se a podia ajudar. Ao que parece também ela me terá reconhecido, porque foi notória a sensação de alívio, da minha oferta.  

Disse-me que queria apanhar o comboio para Carcavelos, mas não sabia qual era a linha onde formava. Perguntei-lhe se já tinha adquirido o bilhete fazendo-me um sinal afirmativo, mas quando o procurava na mala, uma mala preta em imitação de pele, talvez comprada na feira de Carcavelos, ou na Parfois, a mala abriu-se deixando cair vários objectos pessoais, a carteira, o estojo de maquilhagem o isqueiro e os cigarros, mas o que me intrigou, foi um pequeno livro de bolso da obra de Fernando Pessoa, editado pelo Jornal Expresso.

Ajudei-a a apanhar os objectos caídos e disse-lhe que estava com sorte, pois também eu ia para Carcavelos, assim iríamos ser companheiros de viagem. Como os outros passageiros já subiam para o comboio, apesar do seu porte físico excessivo, Lila correu atrás de mim, subindo o estribo da carruagem com desenvoltura.

Foi durante a viagem que a Lila me contou a história da sua vida. Disse-me que nasceu nos Estados Unidos, filha de pais portugueses agora separados. Mas porque gostava muito de Portugal, onde em pequena passava as férias com os pais, a Lila decidira refazer no nosso país a sua vida, vivendo aqui com os avós.

Entretanto já constatara, quão diferente é o estilo de vida entre os Estados Unidos e Portugal, por isso estava a alterar radicalmente o seu estilo de vida, a fim de se  adaptar o mais rapidamente à vida no nosso país, que segundo ela adorava. Estava descoberta a razão do livro de Fernando Pessoa na sua carteira, pois também o poeta escrevera:

“Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida”.

Disse-me  que começara por alterar os seus hábitos alimentares e até já se inscrevera num ginásio. Agora procurava um emprego para se tornar independente e sair da tutela dos pais e dos avôs. Embora tivesse um bom currículo, e o domínio das duas línguas fosse uma vantagem, como a conjuntura do emprego estava difícil, ela não era muito selectiva, respondia a todas as propostas que lhe surgiam, razão de nos termos conhecido naquela situação.

O comboio abrandou mais uma vez a sua marcha chegaramos  à estação de Carcavelos, por isso despedimo-nos com votos de felicidades futuras.

 

 

Parte III

 

Durante a viagem e enquanto a Lila contava a sua história de vida, já na estação de Belém entrou um casal, ocupando os lugares vagos à nossa frente. Pelo estilo informal como vestiam, apercebi-me de que eram turistas. Vestiam ambos calça de ganga e t-shirt e às costas traziam umas pequenas mochilas, embora a dele fosse ligeiramente maior.

Ele trazia ao pescoço presa por uma alça azul, uma máquina fotográfica Canon digital, modelo EOS 760, adequada para fotógrafos amadores, pese embora tire boas fotografias.

Conversavam entre si, mas pelo idioma percebi que eram espanhóis. Estranhamente eram muito reservados, pois os espanhóis costumam ser mais expansivos. Falavam sobre os monumentos que visitaram na zona de Belém, admirados por haver tantos monumentos para visitar, em tão curto espaço.

Quando o comboio passava por Caxias, o nosso companheiro de viagem interpolou-nos, dizendo.

- Por favor, ¿qué es eso en el medio del mar?

Respondi-lhe no meu portunhol, aprendido num pequeno curso de três meses.

 Es el fuerte de Bugio, que há sido construido por un rey español, en el período en que Portugal estaba bajo dominio español.

Gracias - disse-me ele, retomando a conversa com a sua companheira.

A Lili retomou também a sua história de vida, até que chegamos à estação de Carcavelos. 

O casal continuou a viagem, provavelmente iriam até Cascais. À saída e já de pé no corredor, ainda soltei.

- Hasta la vista y buenas fiestas.

- Hasta la vista, Gracias, retorquiu o espanhol.

 

 

  

publicado por Nuno Santos às 08:29

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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