Outeiro Secano em Lisboa

Março 22 2017

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O tema dos refugiados não é recente. Ao longo dos tempos têm sido recorrente as fugas em massa de populações, umas fugindo por razões económicas causadas por secas extremas que, trazem a fome e doenças, outras das guerras, causadas por perseguições políticas e religiosas.

A própria Bíblia fala-nos numa dessas vagas de refugiados, designada por Êxodo, descrevendo a fuga dos Hebreus do Egito para a Terra Prometida, de onde já tinham fugido, por causa de uma seca extrema.

Durante os finais do século XIX e princípios do século XX, Portugal também conheceu de certa maneira este fenómeno, quando, por razões económicas, milhares de portugueses emigraram para as Américas, sobretudo para o Brasil. O fenómeno haveria de repetir-se nas décadas de cinquenta e sessenta, desta vez para a França e Alemanha, para suprirem a falta de mão-de-obra nesses países, devastados pela segunda guerra mundial.

Ora, foi por causa da guerra mundial e em especial pela guerra civil espanhola que, as nossas aldeias transfronteiriças receberam algumas centenas de estrangeiros, sobretudo espanhóis, perseguidos pela guerra civil.

O Pedro Prostes da Fonseca no seu livro “Contra as Ordens de Salazar” ilustra bem este fenómeno, dando particular ênfase à ação do flaviense António Augusto Seixas, que, na qualidade de tenente da Guarda Fiscal na região de Barrancos, permitiu a fuga de 405 espanhóis, evitando assim que fossem mortos pelas milícias de Franco, ainda que essa ação lhe causasse a passagem à reforma compulsiva.

Embora o seu corpo esteja enterrado no cemitério flaviense, o facto não foi muito valorizado em Chaves, nem sequer em termos toponímicos. Porém António Augusto Seixas tem dois memoriais em sua honra, um em Barrancos e outro em Oliva de la Frontera na província de Badajoz.

Na região de Chaves também houve vários casos de refugiados políticos, sendo o mais mediatizado o ocorrido na aldeia de Cambedo, onde um grupo espanhol composto por Juan Salgado Ribera, Bernardino García e Demétrio García Alvarez se refugiaram, em casa de uma irmã do Demétrio.

Em Outeiro Seco, os casos mais conhecidos foram o de uma família espanhola, a quem o senhor João Alferes deu asilo. Pouco se sabia do míster desta família, dizia-se pedreiro mas claro que, era para esconder a sua verdadeira identidade. Todos os dias a sua mulher ia a casa do meu avô Eurico, pedir-lhe o jornal o Comércio do Porto que, o meu avô comprava diariamente e lera na véspera. O espanhol lia depois com sofreguidão, os acontecimentos da guerra civil espanhola descritos no jornal.

Por essa altura Outeiro Seco recebeu um outro casal de refugiados, estes vindos da Bélgica. O marido era português e chamava-se Arnaldo, a mulher era estrangeira e respondia por Marta, nunca se soube porque fugiam, mas o mais provável era que Marta fosse de origem judia. Estavam exilados em casa do senhor Francisco Bouças, mas tomavam diariamente o café em casa dos meus avós, sempre sem açúcar, relembra a minha mãe.

A senhora tinha grande dificuldade em fazer-se entender pelos os vizinhos, todos eles com grande iliteracia, pois nessa época, ainda não se dera a vaga emigratória para França. Por isso um dia em conversa com a Fernanda André, a senhora após lhe dizer algo e vendo que, esta não a entendia, perguntou-lhe.

- Tu compri? Compri?

- Nom compri disse-lhe a Fernanda.

Então a senhora bastante irritada disse-lhe.

Merde! Merde! Compri! Compri!  

A Fernanda só disse.

- Agora compri.

O episódio tornou-se pitoresco e a minha mãe, passados mais de setenta anos, ainda o recorda com graça.

 

publicado por Nuno Santos às 09:59

Bom dia caro amigo, apenas corrigir o seguinte Qunto ao Tenente Seixas, é natural de Montalegre, fez o serviço militar no Regimento de Infataria 19 em Chaves, esteve na defesa de Chaves no 8 de julho de 1912, foi um defensor do valores Republicanos.Quanto aos refugiados foram vários durante a Guerra Civil em O. seco estiveram vários, até o Felecindo pernoitou em varias casas de O. Seco, e por isso tinha uma grande simpatia por O. Seco. Em casa do meu avô materno esteve um de criado de nome Juan. Quanto á familia que falas de Pedreiros, não esteve em casa do Sr. João Alferes (velho), mas si m numa casa ao lado onde viveu a Tia Carlota e que pertencia ao Luciano Chaves, tinha 7 filhos e era conhecido este pedreiro pelo Portas, não duvido do que dizes ler o jornal, mas que era uma pessoa com um nivel cultural muito grande. Este pedreiro em 25 de Janeiro de 1938 AURORA BOREAL, estava a fazer o lagar ao Miguel Sanches, com a pedra do lagar do azeite da que existiu na rua de Santa Rita. E ele disse no dia do vermelhão no ceu, sinais de guerra. Constava-se que ele lia o celebre jornal o Diabo, então o Luciano Chaves mais o presidente da Junta que era o Francisco Julio denuciaram-no ao Administrador do Concelho que era o responsavel pela PVD, o Tenente Luis Borges Junior, vindo a ser preso. Este Borges Junior era conhecido pelo carrasco dos refugiados espanhois, há muitos casos de presos entregues por ele ao Falangistas. Foi denunciado porque o Luciano Chaves, queria po-los fora da casa, e não via meios para resolver. E partir da sua prisão desapareceu toda a familia, e nunca mais se soube nada. Joaojacinto
Anónimo a 23 de Março de 2017 às 10:12

Caro João Jacinto,
Antes de mais obrigado por continuares a ser leitor deste blog. Quanto ao Tenente Seixas, claro que eu sabia que nasceu em Montalegre, pese embora se tenha mudado ainda jovem com os pais, para Chaves, morando no Largo do Anjo, senão no prédio onde é a sede do PCP, ali muito próximo.
Mesmo depois de ter sido transferido para Safara, no Alentejo e reformado compulsivamente da Guarda Fiscal, radicando-se em Sines, o Tenente Seixas manteve sua ligação sentimental a Chaves, estando aí enterrado. Eu reforcei a sua condição de flaviense, no sentido de fazer um reforço positivo para que a autarquia, reconheça os seus valores democráticos, homenageando-o ao menos com o nome de uma rua.
Quanto ao exilado espanhol em Outeiro Seco, aí as nossas fontes divergem. O Sr. António Bernardo ainda vivo e que, o seja por muitos mais anos, no depoimento que fez ao Pedro Prostes da Fonseca para o livro “Contra as Ordens de Salazar!” diz que fora o Sr. João Alferes pai, quem lhe dera asilo.
Porém a minha mãe disse-me que, esse senhor vivia com a mulher no Papeiro, na casa onde viveu o senhor Silvano. O seu nome seria Francisco “Gonzalez” mas já não se recorda bem se era bem este o apelido, embora terminasse em “ez”.
Os Portas, era a nomeada dada aos pedreiros vindos do Minho, onde se incluíu o Bacelar, os quais construíram entre outras coisas, o muro do adro da igreja e a casa do Adriano Lara no Campo da Veiga.
Na casa da Carlota é que não viveram pois nessa casa vivia o Feijó e a mulher a tia Ginja. Só após a morte desta o Feijó levou a Carlota para o Papeiro onde acabou por falecer em situação trágica, antes vivia na casa onde agora está a Casa de Cultura.
Quero dizer-te que fico grato se quiseres contribuir para o enriquecimento da história de Outeiro Seco através deste espaço, ou de outro qualquer, com a certeza porém de que serei um leitor atento.
Um abraço,
Nuno Santos
Nuno Santos a 23 de Março de 2017 às 14:41

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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