Outeiro Secano em Lisboa

Outubro 21 2016

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Há dias encontrei em Montalegre, na casa do meu amigo Zé Augusto Francisco este estojo de injeções, um objeto que me trouxe muitas recordações da infância, porquanto, existiu um estojo igual em nossa casa, o qual tratou da saúde de muitas pessoas da aldeia.

Apesar da curta distância entre a nossa aldeia e a cidade, a menos de uma légua, há muitas décadas atrás, os serviços de saúde eram escassos, contavam-se pelos dedos das duas mãos e sobravam dedos, os médicos existentes em Chaves, de modo que, primeiro o meu avô Eurico, depois os meus tios Adelino e Norberto, foram durante anos o João Semana, o médico rural criado por Júlio Dinis nas Pupilas do Senhor Reitor.

Os seus pacientes nem sempre eram pessoas, muitas vezes era uma vaca ou uma porca que se fizera mal parida, ou outro animal que, contraíra uma moléstia, mas que se não fosse tratado e morresse, afetaria de sobremaneira, a economia doméstica dessa família.

Muitas vezes acompanhei o meu avô nessa tarefa, fazíamo-lo à noite pelas ruas da aldeia pouco iluminadas e enlameadas ou com estrumeiras, quando o meu avô chegava do trabalho na Repartição de Finanças de Chaves. Quando o paciente se podia deslocar, era ele que ia a nossa casa levar a injeção, caso contrário, era o meu avô quem ia a casa do paciente, embora fosse a prestação de um serviço, os honorários que recebia era um obrigado senhor Eurico, e que Deus lhe pague.

Tanto o meu avô como depois os meus tios não tiveram formação tecnica para este serviço, mas faziam-no com mestria e sentido de responsabilidade, não sendo conhecido qualquer constrangimento, na aplicação deste ato, hoje só possível por tecnicos especializados como os enfermeiros.

Ainda me recordo do processo utilizado antes da injeção, à família do paciente era pedido um prato e álcool puro se o tivessem, caso contrário, o meu avô já o levava de reserva. Na tampa do estojo colocava-se a agulha e uma porção de álcool o qual se acendia para esterilizar a agulha.

Curiosamente nessa altura não se conheciam infeções causadas por esse equipamento, atualmente segundo informações divulgadas hoje, morre-se mais por infeções contraídas nos hospitais, do que em acidentes de viação.O meu pai foi vítima dessa situação, porquanto, em resultado de uma cirurgia ortopédica, faleceu no hospital, vítima de uma infeção generalizada.

publicado por Nuno Santos às 18:34

o estojo do teu avô conheci-o bem pois fui muitas vezes picado por ele e ainda me lembro do choro e de o chamar de euricão tal era pavor que eu tinha daquela seringa
vasco sobreira garcia a 24 de Outubro de 2016 às 19:48

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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