Outeiro Secano em Lisboa

Julho 25 2017

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Bai te por essa calle abajo, ter al forno do concelho” quem diz isto é o  Caldeireiro ao seu ajudante, numa das quadras do Auto de Natal, o Ramo, infelizmente representado com bastante intermitência em Outeiro Seco, embora tal como o Acto da Paixão,  façam parte do património imaterial de todos os outeiro secanos.

O pão e a batata sempre foram a base da alimentação das populações rurais, mas para se cozer o pão, são necessários fornos, que, nas aldeias serviam ainda também de estalagem aos pedintes, uma espécie de sem abrigo dos tempos modernos, que deambulavam de terra em terra, pedindo uma esmola, em nome de Deus ou pelas almas de quem as lá tinha.

Em Outeiro Seco, não há memória da existência de um forno do povo. O pão cozia-se em fornos privados, espalhados pelos bairros da aldeia. Alguns desses forneiros viviam praticamente dessa atividade. Aqueciam o forno, indo buscar a lenha a casa das donas da fornada, que apenas amassavam a farinha e tendian o pão.

No bairro do Eiró coexistiam os fornos do Joaquim Félix e da Delfina Carreira. No bairro do Penedo, o da Antónia Sanches, um dos mais procurados, estando até na origem da alcunha do seu filho José Ferreira, ficando conhecido como o Zé do Forno. No bairro do Papeiro não havia fornos, donde os seus moradores, tinham de  recorrer aos fornos dos outros bairros.

O bairro do Pontão onde se concentrava o maior núcleo populacional da aldeia, havia ali vários fornos. Os mais conhecidos eram o forno dos Canelhas ou da Tenreira, porque a forneira chamava-se Maria Tenreira, originária de Vilarelho da Raia e o Forno do Có, assim conhecido, por causa de uma tragédia que ali ocorreu.

Este forno fora propriedade de Teresa Merceana, mas devido à sua morte precoce, e porque era solteira, passou por herança para a sua irmã Rita Merceana, casada com Adriano Lara. Durante muitos anos o forno foi explorado em regime de concessão, primeiro pela família Agrela, depois por Maria Mafalda, minha avó paterna.

O forno porque estava situado junto ao largo do tanque, bem no centro da aldeia, era muito procurado não só para cozer o pão, mas também como albergue dos pedintes que, apareciam com alguma regularidade na aldeia.

Nas frias noites de inverno, por condescendência da forneira esses pedintes aqueciam o corpo, e muitas vezes aconchegavam o estômago, quando por misericórdia, ou pela alma de quem lá tinham, a dona da fornada lhes dava uma pequena bola quente, ou uma parte dela.

Uns dos muitos mendigos que aparecia com regularidade na aldeia, dizia-se dos lados do Barroso, embora não fosse esse o seu nome de batismo, era conhecido pelo Có, epíteto para alguém que é pouco expedito, e talvez por isso o Có  em vez de ser um homem de trabalho ativo, era um mendigo nómada.

Quando pernoitava na aldeia depois da última fornada, o Có tinha por hábito meter-se dentro do forno, abrigando-se assim do frio, sem precisão de cobertores. Só que um dia um grupo de rapazes decidiu pregar-lhe uma partida.

Sem medirem as consequências do acto, enquanto o homem dormia, taparam-lhe a entrada do forno com a porta. Por via disso, o pobre homem morreu asfixiado por falta de oxigénio.

Na manhã seguinte, quando a forneira, a minha avó, se preparava para acender ao forno, deparou-se com o corpo do mendigo já cadáver. Embora reportasse de imediato o caso ao regedor, o certo é que ninguém reclamou na justiça, a morte do infeliz, por isso a morte do Có ficou impune, só que doravante, esse forno passou a ser designado pelo forno do Có.

 

publicado por Nuno Santos às 00:42

Bom dia , caro amigo gostei de mais uma vez ler o texto. Não vou entrar em contradições contigo. Mas pelo pouco que sei, esse individuo seria ali dos lados de Sanjurge????. Tambem era muito comun na aldeia dizer a esse tal individuo o seguinte;
Có qui, qui mão já cagas-te, ao qual ele respondia de imediato ainda não". Relativamento ao bairro de Penedo penso que havia mais um forno o dos Floristos, da Tia Isabel. E ao lado do forno da Teresa Marceana, havia o da tia Irene que ficava na cozinha e tinha de se subir as escadas, era a forneira a tia Irene e o Tio Filipe muitas das vezes, as vezes eran 10 da noite tava a sair a ultima fornada, sendo já dos seus antepassados pais do Filipe e da irmã Julia. Peço desculpa, mas é apenas um pequeno esclarecimento.joaojacinto
Anónimo a 25 de Julho de 2017 às 10:01

Obrigado João Jacinto pela visita ao blogue e pelo enriquecimento na informação. Não citei o forno dos Floristos onde a minha mãe cozeu tantas vezes, assim como o da tia Irene por serem mais recentes.
Cumprimentos,

Amigo Nuno ainda me recorda de ver um filho da Tia Isabel, que acho que casou em Vila Verde, levar os tabuleiros á cabeça e caixas de sardinhas, havia outro forno dos Moreiras , ai coziam pão para venda na cidade, a mãe do falecido Doutor Costa vendia pão centeio em Chaves. Além disso quando se cozia o centeio, fazia-se um prato tipo da aldeia que se comia a noite, porque naquela altura não havia jantar era CEIA. escolhiam-se batatas pequenas, eram lavadas com agua, eram colocadas na entrada do forno, depois de assadas embrulhavam-se em um pano para não esfriar, já em casa abriam-se ao meio e eram colocadas numa travessa de esmalte, a mãe retirava do pote do caldo (HOJE CHAMADA DE SOPA) para uma malga (hoje Chamada tigela), uma pequena porção de água á qual juntava um fio de azeite, e um bocado de sal e um alho muito miudinho, batia tudo com uma colher, depois de tudo misturado eram regadas com essa mistura as batatas. Quando a familia chegava todos sentados á mesa comia-se esse manjar, juntamente com uma tijela de sopa era a seia dos outeirosecanas, a maior parte das vezes que se cozia. Apenas um promenor eram comidas com a pele (casca).joaojacinto
Anónimo a 25 de Julho de 2017 às 11:45

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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