Outeiro Secano em Lisboa

Março 19 2016

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Preocupado com a minha nova fase de vida, a retirada da vida ativa, o meu filho a título de terapia ocupacional, ofereceu-me no último natal um curso de Escrita Criativa, o qual terminou ontem. Em forma de agradecimento dedico-lhe este pequeno conto, escrito durante o curso.

 

O menino que não gostava do por do sol

 

Era uma vez um menino que não gostava do por do sol. Chamava-se Luisinho e vivia numa aldeia situada no sopé de uma serra virada a nascente, onde o sol se punha mais cedo e as brincadeiras com as crianças da sua idade, terminavam, quando se ouviam da torre da igreja as nove badaladas, espaçadas de três em três do toque das trindades.

O toque das trindades para as crianças das aldeias, era como para os militares nos quartéis, o seu toque a recolher, mas para o Luisinho que, tinha medo do escuro, o toque das trindades traziam-lhe angústia e desconforto.

O Luisinho não tinha irmãos, vivia com os pais e os avós numa casa solarenga, construída já no século XVIII, a qual se mantinha na família por herança. Como a aldeia não tinha luz elétrica, os serões passavam-se à lareira com a família e os vizinhos mais próximos.

Ora, ao longo do serão as conversas nem sempre versavam o quotidiano, muitas vezes contavam-se histórias fantásticas que, embora entusiasmassem o Luisinho, durante o sono transformava-se em pesadelos, sendo frequente os pais que dormiam no quarto contíguo, acordarem com o choro aflitivo do Luisinho.

Os pais tentavam tranquiliza-lo, dizendo-lhe que estavam ali ao lado como guardiões, mesmo assim algumas vezes quando acordaram, encontraram-no deitado hirto de frio sobre o tapete do quarto, só para os não acordar.

Os pais andavam muito preocupados com a fobia do filho, e sem saberem o que fazer. Mas um dia o pai teve uma ideia e transmitiu-a ao Luizinho.

- Olha meu filho! Doravante, eu e tu vamos dormir presos por um fio. Assim quando acordares, porque alguém te queira fazer mal, tu não gritas, puxas o fio e eu de imediato estarei junto de ti, para te ajudar.

O Luisinho ficou radiante com a ideia, pois sentia na presença do pai, uma espécie de escudo de segurança.

Logo nessa noite, após rezar a oração que a avó lhe ensinara“ anjo da guarda minha companhia, guardai a minha alma de noite e de dia”, o pai prendeu o fio ao pulso do Luisinho, deu-lhe um beijo de boas noites e recolheu ao seu quarto, esticando o fio.

Estava descoberta a terapia, a partir dessa noite e nas seguintes, o Luisinho passou a dormir tranquilamente, jamais chorando ou chamando pelos pais, desaparecendo assim o medo do escuro.

Anos mais tarde o Luisinho foi estudar para a cidade, ganhando o gosto pela astronomia. Durante as férias na aldeia, adorava olhar o firmamento, onde mesmo a olho nu, se podiam observar as estrelas e as constelações, coisa que a luminosidade da cidade não permitia fazer, com tanta nitidez.

Nessa altura o Luisinho segurando nas mãos o fio, que, estivera na origem da libertação a sua fobia de infância, o de não gostar do por do sol, o qual guardara como uma relíquia, comentava com os seus pais sorrindo.

- Mas Que tolice a minha! Se não houvesse o por do sol, como é que eu poderia ver as estrelas?

    

Nuno Afonso dos Santos

Lisboa 18 de março de 2016

 

publicado por Nuno Santos às 09:19

Muito bom.
Confirma-se que o curso agregou valor ao talento do Autor.
Queremos mais.
Júlio a 19 de Março de 2016 às 10:17

Obrigado pai!

Espero que para alem deste conto, o curso que te ofereci tenha sido como uma semente donde germinem muitos mais contos vindos da tua criatividade ;)
Nuno Pedro a 20 de Março de 2016 às 18:00

lido muito lindo conto
por cá nesta megalópole é muito difícil ver as estrelas
mas quando ia mais para o interior alguma vezer
parecia que estava na minha outeiro seco tal a
nitidez do firmamento
abraço
vasco sobreira garcia a 21 de Março de 2016 às 11:01

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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