Outeiro Secano em Lisboa

Novembro 02 2016

 

 

Segundo algumas opiniões a origem da Feira dos Santos, em Chaves, remonta ao século XIII, outras dizem que é ainda anterior. Desde que eu me conheço, ainda que com grandes transformações, sobretudo quanto à sua localização, a Feira dos Santos realiza-se todos os anos, entre os dias 30 e 31 de outubro, culminando a dia 1 de novembro.

A razão do certame se chamar feira dos Santos, prende-se precisamente com o facto deste dia, ser dia santo de guarda, consagrado pela Igreja a todos os Santos.

No passado, o dia 30 de outubro era dedicado à feira da lã, porque nesta região havia muitos rebanhos, donde, a lã que não era vendida para as fiações da Covilhã, era aqui transformada e confecionada em peças de vestuário, feitas artesanalmente, desde as mantas tecidas em teares, às meias, cachecóis e camisolas. Esta feira realizava-se nas imediações do Largo do Anjo, embora houvesse vendedoras que percorriam as ruas da cidade, nomeadamente as que vendiam as meias ou carpins.

O dia 31 era o dia da feira do gado, comercializando-se aqui todo o tipo de gado, desde o ovino, bovino, azinino e cavalar.

Os lavradores que criavam gado bovino, se as vacas parissem um vitelo, esse era vendido passados um ou dois meses, para um dos chicheiros da cidade, que depois comercializavam essa carne, nos seus talhos. Mas se a cria fosse uma vitela, então era criada em casa durante mais algum tempo, para ser vendida mais tarde na Feira dos Santos.

No meu tempo de menino e moço, também já havia prémios, mas priviligiavam-se os produtores locais. Na década de sessenta e na categoria de raça torina, os prémios eram quase sempre ganhos pelas vacas do Dr. Félix Alves, criadas numa das suas quintas no São Roque.

Gado.jpg

 

Já os prémios na categoria de touros de cobrição, costumavam ser mais disputados. O senhor Manuel Félix de Outeiro Seco, arrecadou várias prémios com o seu touro, exibindo depois esses troféus na sua taberna em Outeiro Seco, junto ao tanque.

Um ano outro outeiro secano, António Gonçalves Chaves, atualmente meu sogro, arrecadou o segundo prémio nessa categoria, ganhando como troféu, um relógio despertador. Só que passado algum tempo, o mesmo touro que lhe deu esse momento de alegria, quase que o matou na loja. Da refrega saiu com várias costelas partidas, e a decisão de abandonar a prática de criador de touros.

Durante muitos anos a feira do gado repartiu-se entre o Tabolado e o São Roque. No Tabolado fazia-se a feira do gado bovino, ovino e cavalar. No São Roque, no local onde mais tarde funcionou o Parque de Campismo e agora é a Alameda do São Roque, fazia-se a feira dos porcos.

No ano de 1960 unificou-se o Toural, passando para a Estrada de Outeiro Seco, no local onde agora se albergam uma série de infraestruturas, entre as quais; o Centro de Saúde, a Segurança Social, o Pavilhão Municipal, o Mercado Municipal e ainda uma parte da Escola Nadir Afonso.

Da Estrada de Outeiro Seco, o Toural passou para terrenos desta freguesia, ficando próximo da Cocanha. Porém, o certame dos prémios na Feira dos Santos, são atribuídos no fosso do Forte de São Neutel, inviabilizando a possibilidade de estar nos dois lugares. Os prémios  agora  são distribuídos pelas raças autótones da região, como a Raça Barrosã, Raça Maronesa e Raça Mirandesa. Deste modo discrimina-se a raça e não os produtores, donde os vencedores, raramente são produtores do concelho de Chaves, mas criadores que se passeiam de feira em feira, ou seja, de concurso em concurso.

O dia 1 de novembro é que é propriamente, o dia de Santos e a cidade é literalmente inundada pelos “nuestros hermanos” tradição que continua, até porque aqui a língua não é barreira e as fronteiras já não existem, pese embora antigamente neste dia, a fronteira era aberta. O que mudou foram os produtos agora comercializados. Salvo raras excepções, como a criação recente de algumas cozinhas regionais, onde se vendem produtos regionais, os restantes expositores vendem produtos de contrafação, iguais aos que se comercializam noutras feiras, quer seja em Trás os Montes, nas Beiras ou no Algarve.

Claro que se mantém o parque das diversões, também este sempre em bolandas e agora, mesmo ao lado da Escola Júlio Martins para gáudio dos seus alunos. As diversões de agora são mais tecnológicas, já não há “Robertos” nem a “Cabra de cinco patas” que se equilibrava numa garrafa, mesmo os matraquilhos já não têm a mesma graça, pois já não existe o Pavilhão do Romualdo, que tinha os matrecos e as bolas de madeira, e era o mais procurado pelos mais especialistas, agora os matrecos são metálicos e já não têm as jukebox ou seja as máquinas de discos, onde a troco de uma moeda qualquer um de nós podia ser um disco jokey.

Meteorológicamente os Santos deste ano foram atípicos, porque o Verão de São Martinho antecipou-se, assim durante o dia registaram-se temperaturas perto dos trinta graus. Outra particularidade foi a de que os feirantes, tiveram um bónus por causa da proximidade do fim de semana. Assim os dias de sábado dia 29 e domingo dia 30 registaram mais público, do que propriamente nos dias 31 e dia 1.

No dia 31 realizou-se também o certame do polvo à galega. Com efeito havia vários stands onde se podia degustar o polvo, e não exclusivamente na zona delimitada, junto ao Forte São Neutel, pois havia vários stands espalhados pela cidade. Os preços variavam entre os 8 euros para um prato pequeno e os 16 euros para o prato médio. O pão e o vinho eram pagos à parte. Apesar do preço e como a tradição tem muita força, não havia stand que não tivesse fila de espera.

Dizem que a Feira dos Santos de Chaves, é a maior feira do país em espaço aberto. O facto é que nestes dias, a sua população aumentou substancialmente, mas em minha opinião, esta feira do ponto de vista cultural e artístico, merecia um programa bem mais ambicioso do que os Gigantones e o Quim Barreiros.

 

 

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publicado por Nuno Santos às 01:07

como sempre mais uma bela narrativa
hoje aqui dia de finados é feriado e um dia bastante triste pelo menos para mim
mas enquanto lia a minha memória começou a reviver esses tempos parece que vejo na minha frente o antigo mapa desse acontecimento que para nós era o acontecimento gosto muito de ver e ouvir falar da minha terra
vasco sobreira garcia a 2 de Novembro de 2016 às 15:41

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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