Outeiro Secano em Lisboa

Agosto 19 2014

 

A vida do Aurélio Dias um outeiro residente em Lisboa que recentemente comemorou setenta e dois anos, dava um filme. Um filme que tanto podia ser uma comédia como um melodrama, tantas foram já as peripécias por ele vividas, as quais narra sempre com grande pormenor e minúcia, mas sem grande poder de síntese.

Depois de ajudante de escriturário em Chaves, militar no pior cenário de guerra na Guiné, trabalhou em Lisboa na Contatec, um gabinete de contabilidade, por onde passaram vários outeiro Secanos. Regressou a Africa desta vez a Angola para trabalhar na Diamang, e quando regressou, foi durante muitos anos ajudante de despachante alfandegário. Mas quando pensava que tinha o seu emprego para a vida, esta profissão praticamente extinguiu-se quando da criação da CEE - Comunidade Económica Europeia por causa da abolição das fronteiras intracomunitárias.

Ainda novo para se reformar mas já velho para trabalhar, por intermédio de gente amiga ingressou na Nucase, na altura para por em ordem os livros selados, função que conhecia dos tempos da Contatec.

Um dia, perto da hora do almoço, estando o Aurélio sentado na sua secretária instalada na cave da Parede, ouviu uma grande discussão ao cimo das escadas, onde havia um pequeno hall com um maple de napa em cor verde, o qual servia de sala de espera aos clientes enquanto aguardavam o atendimento dos técnicos.

Intrigado com tal situação inusitada, o Aurélio subiu as escadas deparando-se com a sua colega Júlia, engalfinhada com uma senhora que, pensava ser uma cliente.

A Júlia cuja idade rondava os quarenta anos, era mãe solteira e tinha fama de não gostar de dormir sozinha. Tinha até protagonizado um episódio algo insólito  numa excursão de colegas da empresa  ao norte do país, em numa das noites quando se pernoitara em Chaves, na hora de arranjar lugar para dormir, não se importou de partilhar o quarto de uma só cama com o José Pinto, na época ainda solteiro.

Quando o grupo soube da estranha parelha, os colegas mais brejeiros confrontaram a Júlia, mas ela não se desconcertou, dizendo:

- Eh pá! De facto dormiu comigo na cama, mas o gajo nem tirou o pijama.

O episódio deu depois azo a uma quadra, publicada no Boletim do GDN.

“ A história é verdadeira,

Passou-se numa pensão;

Foi há pouco tempo

Quando da excursão.

Mete um homem e uma mulher

Também mete uma cama,

Só que ninguém meteu nada,

Porque ele nem tirou o pijama.”

 

O Aurélio sem saber os pormenores do desacato, meteu-se ao meio das duas mulheres, tentando apaziguar os ânimos. Mas apesar de a Júlia ser um pedaço de mulher, a outra era ainda mais forte.

De modo que foram a Júlia e o Aurélio parar em cima do maple, batendo este com as costas nos braços de madeira do maple.

O Aurélio soube depois que as duas eram irmãs, e que a irmã fora à Nucase, para tirar desforço da Júlia, por esta lhe andar a assediar o marido,  e escolhera aquela hora e aquele local, só para envergonhar a irmã, perante os colegas.

O Aurélio é que andou a passar mal, pois durante alguns dias, não conseguia dormir para o lado em que batera com as costas nos braços do maple.

publicado por Nuno Santos às 07:28

grande aurélio bom praça abraço
vasco sobreira garcia a 20 de Agosto de 2014 às 21:50

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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