Outeiro Secano em Lisboa

Março 15 2013
 

 

Foto Blog do Altino

 

Os ex-donos do Solar

 

No verão passado decorreu mais um momento cultural na nossa aldeia, com o lançamento do livro “Memórias do Arco-da-velha”. Durante a cerimónia ocorreram várias representações, sendo uma delas efectuada pelos apresentadores, eu próprio e a Albertina Ferrador.

Este texto da minha autoria, recria um diálogo entre os últimos habitantes do solar, precisamente o Doutor José Maria Montalvão e sua mulher, conhecida na aldeia por Don’ Ana. Para quem não assistiu à cerimónia, eis o texto do diálogo.

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Doutor - Mas o que é que se está passar no solar! Don ’Ana?

Don ’Ana - José meu amado esposo, parece que vai haver uma festa!

Doutor - Uma festa no solar? A que propósito! Enquanto aqui vivemos, nunca houve festas para o povo, eles só vinham cá mas de chapéu na mão, para me pedir algo. Que lhes emprestasse dinheiro a juros, que lhes arrendasse uma terra, ou lhes perdoasse o arrendo, porque a geada não lhes deixara palha nem grão, uns pedinchões, era o que eles eram.

Don ‘Ana – Coitados! eram tempos muito difíceis José, sobretudo para aqueles, que viviam só do que a terra dava.

Doutor – Sim! Sim! As festas nesta casa eram só no verão e no Natal, quando os nossos filhos e netos vinham de Lisboa, e nós reuníamos aqui, toda a família.

Don ‘Ana - Pois lembro-me de uma festa que demos no pátio grande, onde esteve o povo todo, e até tocou o gaiteiro!

Doutor - Oh! Oh! Oh! Oh! Uma festa para a populaça, aqui no solar! E com o gaiteiro!

Don ‘Ana – Sim, sim José! Não te recordas? Foi quando a minha amiga, Maria de Lurdes Fragoso Carmona, e o seu marido, o Marechal Óscar Carmona que, era o Presidente da República, vieram à nossa casa!

Doutor - Ah pois foi, o gaiteiro até tocou o hino nacional ao Carmona! Nem sei como o encarrilharam. Eu e o senhor meu pai é que nunca morremos de amores pela República! por isso não me lembrava. Mas acabou cedo a festa, recordo-me que durante o baile, alguém apalpou o traseiro a uma moçoila, que dançava com o pai, gerou-se tal reboliço, que mandei por todo o mundo fora. Aliás, é o que vou fazer agora. Vou dar ordens ao Zé Mouco, para expulsar toda a populaça.

Don ’Ana  - Deixa lá José! Olha que estão aqui pessoas importantes, o senhor Presidente da Câmara e outras pessoas ilustres, vai haver aqui o lançamento de um livro, e tu sempre gostastes de livros, lembras-te da tua famosa biblioteca?

Doutor - Oh! Se me lembro, espero que esteja em boas mãos. Os livros são uma óptima companhia, porque estimulam a nossa capacidade imaginária.

Don ‘Ana - Pois parece-me que, o tema do livro que vai ser apresentado, é precisamente sobre o Fantástico e o Imaginário, de coisas passadas nesta terra. Além disso, vão acontecer aqui outros motivos de interesse.

Doutor – Motivos de Interesse! Não me faças rir, mas que motivo de interesse pode ter esta gente?

Don ‘Ana – Vão ser ditos discursos, espero que não sejam tão longos, como os sermões do senhor teu pai, o Dr. Liberal.  Canto lírico, uma coisa que já havia no nosso tempo, ao qual José, tu nunca me levaste a ouvir. E ainda, a representação do 2.º Acto do Ramo, a esse creio que assistimos uma vez, no largo do tanque.

Doutor – Cantorias, homessa! Não bastava ouvires a cantoria das criadas, durante a lide da casa, e olha que algumas, até cantavam bem, oh se cantavam. E tinham até outros atributos, bem melhores.

Don ’Ana – Sim desses atributos das criadas, é melhor nem falarmos. Mas no fim da festa vai haver uma coisa que, foi sempre a tua perdição, aguardente e esta é especial, porque vai ser esconjurada, assim como umas coisas doces, feitas por mãos de fada.

Doutor - Ah bom! Se vai haver aguardente e doçaria, então, que se faça a festa, porque nós cá voltaremos para a sua degustação. Ainda quero ver se essa aguardente, é tão boa como aquela que eu fazia.

 

publicado por Nuno Santos às 18:20

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Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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