Outeiro Secano em Lisboa

Março 04 2013

 

O mês de Março é cheio de assimetrias, aliás patente nos muitos provérbios que lhe estão associados, como; “Março marçagão de manhã cara de riso, à tarde cara de cão” ou “Março marçagão de manhã inverno, à tarde verão”.

É neste mês em que entra a primavera e a natureza sai da letargia, a qual se votou no inverno. Mas por causa do aquecimento global diz-se, estes ciclos já não são tão acentuados, de tal forma que quando na minha última visita a Chaves, pelo Carnaval, apesar de ter sido a 12 de Fevereiro, viam-se já na aldeia muitas árvores floridas.

Mas eu confesso que sou céptico perante algumas teorias dos ambientalistas, porque se recuar ao dia 4 de Março do ano de 1966, já lá vão quarenta e sete anos, frequentava eu o ciclo preparatório, e parecia que estávamos no verão, de tal forma que me banhei no rio Tâmega, juntamente com mais três colegas de turma.

Foram eles o Júlio Abrantes Teixeira, sei que é residente em Lisboa, mas nunca mais o vi desde que saiu de Chaves, o Rui da Mota Vargas, que faleceu precocemente, vítima de morte súbita quando tinha apenas uns treze a catorze anos, e o Eurico Ferreira, um outro ex-colega a quem perdi o rasto.

O Eurico morava no Santo Amaro e era filho do Sr. Edmundo Ferreira, condutor do único veículo que os serviços municipalizados possuíam nessa altura. Era um jeep Land Rover de cor verde alface, sinais dos tempos se compararmos com a actual frota. O Eurico era também sobrinho do Sr. Júlio, responsável pela Casa da Água (Centra de Tratamento), situada junto ao rio Tâmega, próximo da Estrada de Outeiro Seco.

Os quatro tomamos banho, tal como viemos ao mundo, nesse dia 4 de Março na margem direita do Tâmega, perto local onde agora se está a construir a Fundação Nadir Afonso, e era antes a Canelha das Hortas.

Bem sei que há quem o faça por tradição no 1.º de Janeiro, nomeadamente aqui em Carcavelos, mas garanto-vos que eu nunca mais tomei banho ao ar livre, antes da época balnear.

Essa ousadia poderia ter-nos saído cara, porque embora a temperatura exterior fosse alta, a temperatura da água ainda não era a ideal para o efeito, mas o certo que nenhum de nós ficou doente, ficamos apenas com pele de galinha, mas por breves instantes.

Em 2001 neste mesmo dia 4 de Março, durante um período de chuvas intensas, o nosso rio Tâmega esteve também ligado a um acontecimento trágico, ainda na memória dos portugueses. Faz precisamente hoje 12 anos que aconteceu a tragédia de Entre-Os-Rios, local onde o nosso rio desagua, fazendo ruir a ponte Hintze Ribeiro e causando a morte de 59 pessoas.

Para lá da tragédia humana associada ao incidente, esse acontecimento ficou na história como o único que, teve repercussões políticas, podendo-se dizer que “a culpa não morreu solteira”. Pois nesse mesmo dia o ministro das Obras Públicas, Eng. Jorge Coelho demitiu-se, tal como todos os seus secretários de estado. Um feito sem exemplo, na vida política portuguesa.

Mas talvez por ser um mês de mudança de estação do ano, este mês costuma dar-me uma maior dinâmica e alegria, a mesma que sinto quando ouço uma das canções da minha vida, precisamente “Aguas de Março” escrita por Tom Jobim e cantada pela saudosa Elis Regina.

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol.

 

 

publicado por Nuno Santos às 18:50

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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