Outeiro Secano em Lisboa

Março 13 2013

 

(Foto extraída do Livro Memórias do Arco da Velha)

 

Cecília da Costa Afonso mais conhecida por Cilinha Afonso nasceu em Outeiro Seco no ano de 1925, filha de António Emílio Afonso e Mariana da Costa (D. Marianinha). Como a família vivia afastada da aldeia, na quinta das Alminhas, teve uma infância muito reservada, convivendo pouco com as crianças do seu tempo, a não ser no convívio da escola, onde foi uma das primeiras alunas da professora D. Maria Eugénia Dias Ferreira, concluindo a 4ª classe com distinção.

O seu pai António Emílio Afonso foi muito conservador no tocante à educação das filhas, apesar de ser pessoa de posses, um dos maiores proprietários da aldeia e funcionário no Banco Pinto & Sotto Mayor, em Chaves, não investiu na formação das filhas, pelo que ficaram apenas com a instrução primária.

 A recusa do pai em deixá-la continuar os estudos, não a impediu de ela própria fazer a sua autoformação. Adquiriu hábitos de leitura, começando pelos clássicos da literatura portuguesa, tornou-se depois leitora em inglês, fazendo ela própria a aprendizagem da língua.

 De tal forma que quando conseguiu vencer a resistência do pai, e se inscreveu no Instituto Britânico no Porto, esses conhecimentos de inglês, adquiridos de modo próprio, permitiram-lhe entrar directamente para o terceiro nível, no teste de avaliação.

Concluído o curso de inglês no Instituto Britânico, Cecília Afonso fez várias viagens a Inglaterra, para aprimorar o domínio da língua, mas o curso do Instituto Britânico, não era reconhecido pelo ministério da tutela, e por isso não pode concorrer, ao ensino oficial.

Entretanto ainda leccionou durante dois anos, num colégio particular, em Vila Nova de Foz Côa, onde só lhe pagaram o vencimento no primeiro ano. Desapontada com a experiência Cecília Afonso abandonou o ensino, regressando à casa da família, nas Alminhas, onde, com tanto tempo disponível, passou a dedicar-se à escrita.

Mas como o seu pai não apreciava a exposição da filha como escritora, Cecília Afonso utilizou o pseudónimo de Dora Holda. Com este nome escreveu quatro livros, com os títulos; Histórias Tradicionais Recontadas, Face do Mundo, Gato Branco da Neve e Cortina do Diabo.

Os livros foram editados no Porto, cidade onde se deslocava com alguma frequência, fazendo ela própria a ligação com o editor.

Para muitos dos nossos conterrâneos Cecília Afonso foi uma senhora solitária e até pouco sociável, com pouca intervenção na vida social da aldeia. Porém deixou-nos um legado escrito, o qual todos os outeiros secanos deviam conhecer e orgulhar-se.

 

publicado por Nuno Santos às 11:34

Março 11 2013

 

A fotografia exposta num dos post anteriores, era de facto a do auditório do Forte de S. Neutel, reconhecido e bem pelas duas comentaristas. O evento a decorrer era o Auto da Paixão, representado pela população de Santo António de Monforte, uma aldeia onde existe uma basta tradição nesta encenação, mais do que na do Auto de Natal, o Ramo.

A primeira vez de que há registos do Auto da Paixão se representar em Outeiro Seco, foi também encenado por um natural dessa aldeia, na época chamada Curral de Vacas, o Sr. João da Costa, casado na nossa aldeia. Actualmente existe um enorme desejo de um outro natural dessa aldeia, o Arlindo Alves também ele casado em Outeiro Seco, em encenar o Auto da Paixão na nossa aldeia, mas tem-lhe faltado aderentes e apoios à iniciativa.

Nesta encenação o Alves representava o papel de Pilatos, ao que parece a representação deste papel tem sido geracional, pois já o seu avô e o seu pai o tinham representado, em encenações anteriores.  

Porém como escrevi nesse post, devem contar-se pelos dedos das mãos, os eventos realizados neste auditório, pese embora tenha tido um começo auspicioso, um concerto dos Madredeus, ao qual tive o privilégio de assistir.No mais este espaço é utilizado praticamente uma vez por ano, na festa da Sra. das Brotas, cuja capela se situa no seu interior. Esta festa realiza-se no domingo de Pascoela, sempre achei graça ao nome, embora desconheça a sua origem.

Na década de sessenta para aqueles que já estudavam na cidade, A Sra das Brotas era uma festa muito especial. Comemorava-se durante dois dias. No dia de domingo era dedicado às famílias que ali iam comer o último folar da Páscoa, guardado religiosamente para a merenda desse dia. Durante a manhã decorriam as cerimónias litúrgicas, à tarde o baile abrilhantado quase sempre pelas duas Bandas da cidade.

A festa tinha ainda um outro ponto de interesse, pois quase sempre o Desportivo jogava no velhinho municipal, permitindo que se assistisse ao jogo, do cimo da muralha, isto antes de se construir a bancada coberta. Para muita gente em especial as mulheres, era a única vez do ano em que viam jogar o Desportivo.

Na segunda-feira o seu público alvo eram os estudantes. Nesse dia as bandas filarmónicas davam lugar aos conjuntos musicais. De um lado actuavam os Glooks, apoiados pelos estudantes do liceu, do outro os Leaders, com o apoio dos alunos da escola. Assistiam-se a autênticos despiques, semelhantes aos das bandas, embora o reportório dos Glooks fosse já mais ousado do que o dos Leaders, mais baseado em música portuguesa, os Leaders tinham uma base de apoio, maior porquanto a Escola Industria ficava mais próxima e havia também uma maior tolerância dos seus professores nesse dia..

Estes dois grupos tiveram várias formações recordo-me que numa das Brotas os Glooks eram formados pelo Óscar Quintanilha, Agostinho Gomes, Moura, Arnaldo M. Barroso, e A. Barroso. Os Leaders por Carlos Branco, Neves, Zé Carlos e o Marcolino, o baterista era o Sendão, um jovem natural de Lebução.

 Anos mais tarde convivi durante algum tempo com o Marcolino e o Sendão, na Casa de Trás os Montes em Lisboa. O Sendão tinha vindo como retornado das colónias, e era funcionário na Caixa Geral de Depósitos, na antiga sede do Largo do Calhariz.

O bichinho da música ficara-lhe de tal maneira que, bastava trautearmos uma canção, para o Sendão se imaginar com as baquetas na mão, e começava logo a tocar bateria.

O Sendão reformou-se cedo, e como ficara solteiro regressou à sua terra, tendo ao que parece  falecido pouco tempo depois, ainda  bastante novo.

A festa das Brotas tem sofrido algumas intermitências, mas vou seguindo a sua programação no jornal A Voz de Chaves, infelizmente eu é que desde o ano de 1973, nunca mais assisti a nenhuma, assim como ao 3 de Maio em Santa Cruz, as duas festas que iniciavam o roteiro das romarias de verão.

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publicado por Nuno Santos às 12:02

Março 09 2013

A família sportinguista está de luto, pela morte daquele que foi um dos seus presidentes mais carismáticos de sempre, ao qual presidiu durante o periodo de 1973-1985. João Rocha vai hoje a enterrar aos 82 anos, ele que foi um visionário, vivendo um pouco fora do seu tempo, dentro e fora do desporto.

No dirigismo desportivo implementou um modelo altamente moderno e revolucionário, tornando-se ainda hoje uma referência, apesar de se ter retirado há quase trinta anos. Foi ele quem idealizou e fundou a Liga de clubes, cuja missão e valores era; o respeito absoluto pelos princípios e os procedimentos definidos e regulamentados pelas leis em vigor.

Criou a SCP - Sociedade de Construções e Planeamento, a primeira sociedade de clubes, destinada à gestão do património não desportivo. Dinamizou a prática de modalidades desportivas para os associados como a ginástica e a natação. No antigo Estádio José de Alvalade construiu uma pista de atletismo em tartan verde, única no mundo, a bancada nova e sob a mesma, outras infra estruturas desportivas como; ginásios, piscina, pavilhões que, guindaram o Sporting a maior potência do desporto português no seu tempo, atingindo o número de 15.000 atletas, em 22 modalidades.

Durante os seus mandatos o Sporting conquistou 1210 títulos nacionais e internacionais, e triplicou o número de associados, atingindo o número mítico de 100.000 sócios. Foi durante os seus mandatos que serviram o clube nomes como; Damas, Yazalde, Carlos Lopes, Fernando Mamede, Joaquim Agostinho, Bessone Bastos, Chana, Livramento e tantos outros.

João Rocha teve de lutar contra imensas forças de bloqueio, vindas de todo o lado. A área de implantação do clube no Campo Grande, em terrenos cedidos pela família do Visconde de Alvalade, foi sempre uma área cobiçada para infraestruturas da cidade, originando a destruição de infraestruturas desportivas como, o pavilhão polivalente e os campos de treino, para dar lugar à estação do metropolitano e ao interface de transportes.  João Rocha abandonou o dirigismo em 1985, em rutura com os meios e processos utilizados por outros dirigentes que, estavam a emergir no desporto nacional, da qual o “roubo” de Futre foi um exemplo paradigmático, levando-o a dizer após a sua saída.

 – “A razão de abandonar a presidência do Sporting, foi não saber gerir o clube, por processos poucos ortodoxos”. Para o eterno presidente, a saudade e um grande obrigado de todos os sportinguistas.

 

 
publicado por Nuno Santos às 09:35

Março 08 2013

 

 

  

 

Membros da mulheres socialistas

 

PORQUÊ O DIA 8 DE MARÇO

 

Há muita controvérsia quanto à origem desta data, para a comemoração do dia Internacional da mulher. Uns defendem que a data homenageia as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque que entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que, nas suas 16 horas, recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio, e cerca de 130 mulheres morreram queimadas. Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher.

Esta foi a história que ficou, pese embora não haja nos Estados Unidos, nenhum jornal da época que relate este facto, e um estudo efectuado por duas americanas em 1982, também não dão o caso como verídico.

 O estudo destas investigadoras atribuem a data, a um encontro de mulheres socialistas realizado em 1909, para lutar pelos direitos cívicos das mulheres, onde decidiram criar um dia especial que, seria no último domingo de Fevereiro mas nem sempre foi cumprido.

A fixação do dia 8 de Março ocorreu depois da 3ª Internacional Comunista, com a manifestação das mulheres de São Petersburgo, para reclamarem pão e o regresso dos soldados. 

Só apartir do ano de 1975 a ONU decidiu consagrar oficialmente este dia, como Dia Internacional da Mulher.

Apesar de todos estes anos de luta, ainda está longe a paridade entre homens e mulheres. Em Portugal, apesar de não ser dos países onde há maior diferenciação, os rendimentos da mulher são 18% inferiores aos do homem, e os lugares de chefia continuam a ser ocupados maioritariamente por homens. Alguns partidos políticos implementaram na ocupação de cargos, um sistema de quotas, outros defendem que as mulheres devem impor-se, não pelas quotas, mas pelo seu valor intrínseco, o problema é terem a oportunidade para disputarem esses lugares.

Mas diz-se que por trás de um grande homem, está sempre uma grande mulher, dediquemos então este e os outros dias às nossas mulheres.

publicado por Nuno Santos às 13:24

Março 07 2013
 

Chama-se uma obra de fachada, aquela cujo investimento efectuado, não acresce mais-valias aos seus utentes, sejam eles particulares ou comunidades.

Em Chaves como em outras localidades, existem variadíssimos exemplos dessas obras de fachada, as quais muitas delas, serviram apenas para o esbanjamento de dinheiros públicos. A obra que apresento neste post, é em minha opinião uma obra de fachada, porque a utilidade da sua realização, não é muito adequada à cidade de Chaves, por causa do seu clima pouco propício a actividades ao ar livre, e nesse particular, a cidade tem felizmente vários locais e com uma maior centralidade.

Talvez por via disso, devem contar-se pelos dedos de uma só mão, as vezes em que este espaço público, embora desconhecido para muitos flavienses, terá sido utilizado.

Por isso deixo aqui um desafio aos visitantes deste blog. A que obra me refiro? E ainda, a que espectáculo este público está a assistir?

publicado por Nuno Santos às 12:40

Março 06 2013
 

Todos os grandes líderes são idolatrados por uns e odiados por outros, e Hugo Chávez o ex-presidente da Venezuela falecido ontem ao início da noite, com apenas 58 anos de idade, vítima de cancro, não é excepção. Idolatrado pela maioria dos venezuelanos da classe baixa e odiado pela classe média alta. Era  também uma figura  controversa no panorama internacional, ficando célebre o episódio com o rei de Espanha “Porqué non te calas”

Os países da América do Sul vivem na sua maioria com grandes assimetrias, quanto à distribuição da sua riqueza produzida. Ora foi o combate a essas assimetrias, com uma boa dose de populismo à mistura que, fez ganhar a Hugo Chávez, uma grande base de apoio popular, proporcionando-lhe obter várias vitórias, em actos eleitorais.

Entre os países da América do Sul a Venezuela, é daqueles que tem uma maior prática democrática, mais baseada em eleições do que em golpes de Estado, apesar de ter sido por essa via que, Chávez tentou chegar ao poder. Não o tendo conseguido porque o golpe fracassou, fundou o MVR Movimento V República e foi por via da eleição que chegou ao poder.

Porém esse mesmo povo que o idolatrava, não deixou porém de lhe infligir uma derrota nas urnas, quando “el comandante” através de um referendo, se propunha aprovar a “lei Habilitante”, a qual lhe permiti-a implementar leis, sem aprovação do senado.

Durante a sua governação aprovou várias medidas que favoreceram sobretudo, as populações mais carentes, em desabono de outras mais favorecidas, razão pela qual o estado social na Venezuela se tornou muito bipolarizado, a ver vamos como vai ficar esse clima social, após o seu desaparecimento.

Entre outras medidas, Chávez tornou a educação gratuita até aos 15 anos. A saúde caminhava para um serviço de saúde nacional, universal e gratuito, tendo actualmente uma das taxas mais baixas de mortalidade infantil de toda América do Sul, graças à boa cooperação que mantinha nessa área com Cuba, donde tinha importado vinte e cinco mil médicos. Ainda em matéria da saúde criou vários programas como o programa Bárrio Adentro, uma espécie dos nossos CATUS, levando a saúde aos bairros pobres.

Em matéria de economia, a Venezuela vivia em grande parte, da exploração e exportação do petróleo. Era membro da OPEP e recentemente fez-se membro do Mercosul. Existem indicadores referentes a 2011, que consideram a Venezuela, como o país menos desigual de toda a América do Sul.

Hugo Chávez tinha uma boa relação com Portugal, de tal forma que Paulo Portas nosso ministro dos Negócios Estrangeiros, tenha dito hoje que morreu um amigo de Portugal. Mas essa coperação foi  mais notória durante a governação de José Sócrates, importando o nosso “Magalhães” e chegou a encetar negociações, para viabilizar os estaleiros de Viana do Castelo.

Esse plano acabou por ficar num impasse, desconhecendo-se as razões, embora há quem defenda que as razões para não se avançar com a reestruturação do estaleiro, resulte da aposta do nosso governo no seu encerramento, por se considerar não haver as condições para combater os preços baixos dos estaleiros asiáticos.

O mundo está agora expectante, quanto à evolução futura da Venezuela e Portugal em particular, pois existem mais de seiscentos mil portugueses residentes na Venezuela, onde uns choram a morte do El Comandante e outros se regozijam com a morte do ditador.  
publicado por Nuno Santos às 12:35

Março 05 2013
Grupo Nucase
 

A Auditoria é um exame cuidadoso e sistemático das actividades desenvolvidas em determinada empresa ou sector, cujo objectivo é averiguar se os processos estão de acordo com as disposições planeados ou estabelecidos previamente, se foram implementados com eficácia e se estão adequados à consecução dos objectivos.

A NUCASE empresa onde eu trabalho é uma empresa especializada em soluções contabilístico-fiscais, gestão administrativa de recursos humanos e de apoio à gestão empresarial, de acordo com as necessidades dos clientes em nome individual e das empresas, procurando continuamente:

Aumentar o valor acrescentado da relação com os nossos Clientes, Fornecedores, Administração Fiscal, Parceiros e outras Entidades, assegurando o cumprimento dos seus requisitos específicos.

Para melhor regular a nossa actividade e introduzir uma uniformidade dos processos de trabalho a toda a empresa, porque está descentralizada por diversos escritórios, mas também, colocarmo-nos num patamar superior aos nossos concorrentes, implementamos um sistema integrado de gestão, o SIG, certificado em 2003, pela norma: ISO 9001:2000.

Desde então passamos a ser auditados anualmente, por auditores internos e externos, ainda que se releve uma maior importância para a auditoria efectuada pelos auditores externos, até porque depende da sua avaliação, a manutenção ou a renovação, da nossa certificação de qualidade.

Está a decorrer precisamente entre os dias 4,5 e 6 deste mês, a auditoria externa efectuada pela empresa SGS, com o fim de renovar a nossa certificação. Apesar de não deixar de ocasionar alguma ansiedade aos nossos colaboradores, este processo está mais que interiorizado por todos os colaboradores, assim como a importância que tem para empresa.    

À semelhança dos anos anteriores, esperamos que os resultados desta auditoria sejam positivos e sem qualquer inconformidade, ainda que estejamos abertos a observações, que, sejam meras sugestões de melhoria.

publicado por Nuno Santos às 14:33

Março 04 2013

 

O mês de Março é cheio de assimetrias, aliás patente nos muitos provérbios que lhe estão associados, como; “Março marçagão de manhã cara de riso, à tarde cara de cão” ou “Março marçagão de manhã inverno, à tarde verão”.

É neste mês em que entra a primavera e a natureza sai da letargia, a qual se votou no inverno. Mas por causa do aquecimento global diz-se, estes ciclos já não são tão acentuados, de tal forma que quando na minha última visita a Chaves, pelo Carnaval, apesar de ter sido a 12 de Fevereiro, viam-se já na aldeia muitas árvores floridas.

Mas eu confesso que sou céptico perante algumas teorias dos ambientalistas, porque se recuar ao dia 4 de Março do ano de 1966, já lá vão quarenta e sete anos, frequentava eu o ciclo preparatório, e parecia que estávamos no verão, de tal forma que me banhei no rio Tâmega, juntamente com mais três colegas de turma.

Foram eles o Júlio Abrantes Teixeira, sei que é residente em Lisboa, mas nunca mais o vi desde que saiu de Chaves, o Rui da Mota Vargas, que faleceu precocemente, vítima de morte súbita quando tinha apenas uns treze a catorze anos, e o Eurico Ferreira, um outro ex-colega a quem perdi o rasto.

O Eurico morava no Santo Amaro e era filho do Sr. Edmundo Ferreira, condutor do único veículo que os serviços municipalizados possuíam nessa altura. Era um jeep Land Rover de cor verde alface, sinais dos tempos se compararmos com a actual frota. O Eurico era também sobrinho do Sr. Júlio, responsável pela Casa da Água (Centra de Tratamento), situada junto ao rio Tâmega, próximo da Estrada de Outeiro Seco.

Os quatro tomamos banho, tal como viemos ao mundo, nesse dia 4 de Março na margem direita do Tâmega, perto local onde agora se está a construir a Fundação Nadir Afonso, e era antes a Canelha das Hortas.

Bem sei que há quem o faça por tradição no 1.º de Janeiro, nomeadamente aqui em Carcavelos, mas garanto-vos que eu nunca mais tomei banho ao ar livre, antes da época balnear.

Essa ousadia poderia ter-nos saído cara, porque embora a temperatura exterior fosse alta, a temperatura da água ainda não era a ideal para o efeito, mas o certo que nenhum de nós ficou doente, ficamos apenas com pele de galinha, mas por breves instantes.

Em 2001 neste mesmo dia 4 de Março, durante um período de chuvas intensas, o nosso rio Tâmega esteve também ligado a um acontecimento trágico, ainda na memória dos portugueses. Faz precisamente hoje 12 anos que aconteceu a tragédia de Entre-Os-Rios, local onde o nosso rio desagua, fazendo ruir a ponte Hintze Ribeiro e causando a morte de 59 pessoas.

Para lá da tragédia humana associada ao incidente, esse acontecimento ficou na história como o único que, teve repercussões políticas, podendo-se dizer que “a culpa não morreu solteira”. Pois nesse mesmo dia o ministro das Obras Públicas, Eng. Jorge Coelho demitiu-se, tal como todos os seus secretários de estado. Um feito sem exemplo, na vida política portuguesa.

Mas talvez por ser um mês de mudança de estação do ano, este mês costuma dar-me uma maior dinâmica e alegria, a mesma que sinto quando ouço uma das canções da minha vida, precisamente “Aguas de Março” escrita por Tom Jobim e cantada pela saudosa Elis Regina.

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol.

 

 

publicado por Nuno Santos às 18:50

Março 03 2013

 

Ontem o povo voltou à rua em Lisboa e noutras cidades do país, já não para mostrar a sua indignação, como o fizera na manifestação do passado dia 15 de Setembro, mas, apesar de a manifestação ter sido pacífica, a escolha da Grândola Vila Morena como tema de fundo, simboliza o espírito de revolta já instalado na maioria da nossa população.

O mais grave é que esta revolta, projeta-se contra todo o sistema político, e como acontecera na manifestação do 15 de Setembro, também esta não foi promovida por nenhuma força partidária ou central sindical, mas por movimentos da sociedade civil, como o movimento “Que se lixe a Troika”, descontentes com o rumo do nosso país, quer seja na economia, na saúde, no ensino, mas sobretudo no mundo do trabalho.

Vimos desfilar famílias inteiras, as quais muitas delas já não estão infelizmente completas, porque o marido ou o filho tiveram de emigrar, alguns sabe Deus com que sacrifício, buscando lá fora aquilo que não conseguem obter no seu país, país onde fizeram a sua formação e que agora os desaproveita. O paradoxo desta revolta é que já não é só contra o governo, mas também contra a oposição, porque infelizmente não se vislumbram alternativas, para inverter a situação.

Com o actual estado das coisas, corremos o risco de também nós cairmos numa situação idêntica à de Itália, onde um movimento liderado por um palhaço (Beppe Grillo) obteve 19% dos votos, já para não falar do outro, Bruno Berlusconi com 30%, tornando a Itália ingovernável, face à actual a correlação das forças partidárias eleitas, de tal forma que, fala-se já na necessidade de se fazerem novas eleições.

À noite a revolta mudou-se para Alvalade, não tanto pelo resultado que, face à actual conjuntura do meu clube, acabando o jogo com quatro juniores, o empate até nem foi mau.  A revolta esteve latente nas reações do Prof. Jesualdo Ferreira, que juntamente com Oceano o seu técnico-adjunto, foram ambos expulsos, tal como já acontecera ao seu jogador Rojo, quando situações análogas como a de Otamendi jogador do Porto, o árbitro não teve o mesmo tratamento.

Enfim já estamos habituados, mas como estamos na quaresma, resta-nos levar a nossa cruz com resignação, e esperar que venham dias melhores, tanto mais que a primavera já está próxima. Um bom fim de semana para todos.         

publicado por Nuno Santos às 09:31

Março 02 2013

 

Mosteiro de S. Dinis em Odivelas

 

No seguimento do post anterior sobre Odivelas, aqui ficam mais alguns registos da cidade onde resido desde 1982. Odivelas só passou a cidade em 10 de agosto de 1990, até essa data, era apenas vila embora fosse considerada a maior freguesia da Europa.  No ano de 1991 foi desmembrada em cinco novas freguesias; Odivelas, Famões Pontinha, Ramada, Caneças e quando no ano de 1998 passou a concelho, passou a agregar as freguesias de Olival Basto e Póvoa de Santo Adrião. Não se pense que redistribuição do mapa autárquico é uma coisa recente, criada pelo ministro Relvas. Odivelas até ao ano de 1852, fez parte do termo de Lisboa, depois passou para o concelho de Belém em 1885, com a extinção deste concelho, Odivelas passou para o concelho dos Olivais, ao qual pertenceu apenas um ano, porque em 1886 após a criação do novo concelho de Loures, Odivelas foi integrada neste novo concelho, onde permaneceu até ao ano de 1998, quando foi elevada a concelho. Vejamos sua evolução demográfica em termos de freguesia :

                                                     1862 - 1864 - 1890 - 1900 - 1911 - 1920 - 1930 - 1991   - 2001   -   2011

                                                     1362 - 1562 - 1577 - 1924 - 2486 - 2647 - 3101 - 52823  53448   -  59559

Não sendo uma cidade com grandes referências históricas, pese embora aqui tenha túmulo de D. Dinis, diz-se que também terá aqui morrido a rainha D. Filipa de Lencastre vítima de peste. De salientar que esta localidade era muito frequentada pela nobreza, por causa das quintas que aqui possuíam. Outra das referências são as “Meninas de Odivelas”,às quais estão associadas duas versões. A primeira resulta do tempo em que o mosteiro, era habitado pelas freiras da Madre Paula. Existem canções alusivas a essa situação, cantadas em todos os autocarros de excursão, como esta:

As meninas de Odivelas,

 São umas pu… tiro, liro, liro

 São umas pu… tiro, liro, liro

 São umas puuras, donzelas

 Os papás dessas meninas

 Deram o cu… tiro, liro, liro

 Deram o cu… tiro, liro, liro

 Deram o cuoração, por elas.

 

Mas as actuais meninas de Odivelas, são as actuais alunas do Instituto de Odivelas, criado em 1900 pelo príncipe D. Afonso, irmão do rei D. Carlos, agora sob a jurisdição do Estado-maior do Exército.  O Instituto de Odivelas tem por missão fomentar educação moral e cívica que vise desenvolver nas alunas o sentido do dever e da honra e os atributos de carácter, em especial a integridade moral, espírito de disciplina e noção de responsabilidade. Funcionando em regime de internato, embora actualmente também de externato, o instituto ministrava e ministra ainda o ensino, desde o 2.º ciclo até ao 12.º ano servindo sobretudo para acolher as filhas dos militares que, no cumprimento das suas missões, têm de fazer uma vida itinerante.

O dia 26 de Novembro de 1967 ficou na história de Odivelas, mas pelas piores razões. Foi o dia das grandes cheias que assolaram a região de Lisboa e em Odivelas terão morrido centenas de pessoas, que viviam junto à zona da ribeira.

Actualmente essa zona está requalificada em zona de lazer, a juntar a outras que foram construídas pela cidade. Aliás, foi em matéria de ordenamento e jardinagem que Odivelas mais progrediu, para além da chegada da linha amarela do metropolitano, melhorando substancialmente as entradas e saídas de Odivelas em hora de ponta, porque a proximidade de Lisboa, torna-a numa cidade dormitório.

Em termos de monumentos Odivelas não tem muito que mostrar. Além do Mosteiro, tem o memorial diz-se que construído no XIV, para comemorar a chegada dos restos mortais do rei D. Dinis, e o padrão ao Senhor Roubado.

Ao Senhor Roubado estão associadas várias lendas, uma delas está contada no próprio local, em azulejos pintados. O padrão foi construído no século XVII, numa altura de grande fervor religioso. Vivia-se em pleno período da inquisição, do qual foi inquisidor mor, D. José de Bragança “menino de Palhavã” precisamente, um dos filhos da Madre Paula e do rei D. João V que, honra lhe seja feita, protegeu todos os seus filhos bastardos.

Os seus filhos bastardos ficaram conhecidos por “meninos de Palhavã” porque foram criados no palácio de Palhavã, onde actualmente funciona a Praça de Espanha. Mas regressando à lenda do Senhor Roubado, um dia constatou-se que a igreja tinha sido assaltada, donde tinham sido roubados entre outras coisas, os vasos sagrados onde se guardavam as hóstias.

Dado o alarme o povo juntou-se no adro da igreja, clamando justiça contra tal blasfémia. De entre os presentes sobressaía um homem  que, gritando em alta voz dizia que deveriam cortar as mãos ao autor, de tal sacrilégio. Passado algum tempo, foi encontrada uma das peças furtadas na igreja, que estava à venda num antiquário de Lisboa. Ora rápido se chegou ao seu autor que coisa inaudita, fora precisamente aquele que naquele dia, mais clamava por justiça.

Depois de preso confessou então que escondera o sagrado cálice sagrado num silvado, onde mais tarde se ergueu este padrão. Ao autor do furto foi aplicada a pena que, ele próprio tinha decretado.  

publicado por Nuno Santos às 12:24

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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