Outeiro Secano em Lisboa

Junho 11 2013

No início do século passado o Almeirinho foi palco de uma sublevação popular, travada com grande violência pelos soldados da guarda republicana. Existia ali um grande lameiro e uma terra que eram baldios e o povo, utilizava-os para a pastagem dos seus gados.  Entretanto a Junta de Freguesia da altura, decidiu acabar com esse regime livre, tomando posse dos lameiros e da terra para os arrendar, captando com isso alguma receita para o erário público que, na altura era escasso.

A medida gerou uma grande indignação popular, vendo-se a Junta obrigada a requisitar a força militar, para por cobro ao movimento popular. Como contra a força não há resistência, o povo rendeu-se, mas durante algum tempo a guarda foi obrigada a vigiar o local, multando os infractores mais resistentes, que, acabaram por abandonar essas pastagens.

O lameiro foi depois dividido em duas partes, uma ficou para a Junta de Freguesia, a quem se pagava a renda. A outra passou para património da igreja, sendo o padre quem recebia a renda. O terreno de cultivo junto aos Poços, ficou também a pertencer à Junta de Freguesia e um outro junto ao caminho, tornou-se propriedade de António Sobreira, desconhecendo os contornos da operação.

Na década de sessenta o lameiro da Junta estava arrendado ao meu pai, o da igreja a Manuel André e a terra dos Poços ao João Maria. Esse terreno tinha um poço, onde frequentemente apareciam cágados, uma espécie rara da nossa fauna. O João Maria regava desse poço o seu renovo, um pouco de tudo, desde couves a feijões  milho e outras culturas que, tantos constrangimentos me causaram.

É que o terreno era mesmo junto ao nosso lameiro e  as nossas vacas, pareciam ter uma fixação nesse renovo. À mais pequena distração nossa, cravavam-se  logo no renovo do João Maria, que depois apresentava as queixas ao meu pai.

Mas estória mais bizarra que me aconteceu nesse lameiro, foi um dia já com o sol sob o ocaso na serra de Bustelo, quando fui “botar” as vacas para regressar a casa, deparei-me com uma delas a lamber um vitelo acabado de nascer ali e sem que eu me tivesse dado conta. Corri a casa a chamar o meu pai para transportamos o vitelo, carregamo-lo  dentro de um cesto de vime, em cima de uma burra, com a vaca ainda com a placenta dependurada, mas bem próxima da cria, mugindo de ternura.

 

publicado por Nuno Santos às 23:44

Junho 11 2013

Para a maioria dos naturais de Outeiro Seco, o Almeirinho é mais um lugar no termo da aldeia, composto por terras centeeiras e de lameiros. Geograficamente confronta a sul com o Senhor dos Desamparados, a norte com o Fundo da Lama, a nascente com os Poços e a poente com a estrada municipal e o lugar de Pedrianes.

Nem todos saberão é que o Almeirinho é um lugar com muita história e muitas estórias. O seu caminho era um dos trilhos utilizados na rota do contrabando, quando as treleiras sabiam ou pressentiam de que a Guarda, vigiava o caminho do moinho,  para ludibriarem essa vigilância, atravessavam o rio Tâmega junto ao moinho de cima, subindo ao Alto do Coelho e dali à Bouça apanhando o caminho do Almeirinho, no Vale de Amieiro. Quando passavam junto ao Senhor do Desamparados faziam umas preces, rogando-lhe que as livrasse do encontro com a guarda. Entravam na Mina do Doutor junto a Painhos, passando o rio pequeno nas poldras da Fontainha, seguindo depois pelo caminho do Campo da Veiga até à Cocanha, chegando às suas casas na cidade, com a mercadoria a salvo.

No dia 8 Julho de 1912 também fora esse o percurso que D. João d' Almeida “ Conde do Lavradio” traçara, para se juntar mais cedo à coluna de Paiva Couceiro que, entrara pelo São Caetano e já iniciara o ataque à vila de Chaves. Foi precisamente no Almeirinho que, este militante da causa monárquica foi preso, por dois soldados republicanos, que estavam de atalaia no lugar do Facho, fazendo vigilância a possíveis ataques vindos do norte, fosse pelo caminho do Almeirinho, ou pelo caminho Vale de Travesso, ligado à estrada da Torre, no lugar do Mocho.

Terminou desta forma inglória no Almeirinho, o sonho do D. João de Almeida restaurar a monarquia, repetindo-se a sua derrota um ano antes, por terras de Vinhais, onde fora ele próprio o comandante das tropas monárquicas.

Em matéria de tropas e soldados há muitas mais histórias passadas neste local. Por exemplo os Poços eram utilizados como campo para treinos dos soldados de cavalaria. Para quem não conhece os Poços, trata-se de uns terrenos com grandes baixios, causados pela utilização no tempo dos romanos, do solo barrento do qual se compõe este terreno, para fabricarem a telha e outros artefactos de barro.

São conhecidos nas suas proximidades vários fornos, onde se fazia a cozedura desse barro. Um deles está num terreno logo ali ao lado, pertencente à D. Beatriz, um outro foi descoberto quando da construção da variante da rotunda das chaves às Antas. Este forno foi referenciado pela arqueóloga municipal mas subterrado de imediato, para não atrapalhar a construção.

Um terceiro foi descoberto mais recentemente, na terra do Anselmo em Pedrianes. Consultado o IPAR sobre a preservação destes fornos, disseram que só teriam interesse, se fossem descobertos muitos mais, podendo então pensar-se na criação de um centro museológico. O certo é que também não se fez nenhum esforço nessa procura, mas que os há, lá isso há e os três fornos descobertos, dois deles recentemente, são a prova dessa existência. 

publicado por Nuno Santos às 08:34

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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