Outeiro Secano em Lisboa

Maio 07 2014

Sempre gostei de ouvir e ler contos, um gosto que me advém de criança, quando a nossa aldeia ainda não tinha electricidade, e era costume alguns vizinhos, fazerem serão em nossa casa.

O gosto por esse género literário foi reforçado, quando me iniciei como leitor na biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian, em parte por causa da moral dessas histórias, mas também pelas suas brilhantes ilustrações.

A generalidade desses contos retratavam um ambiente algo parecido com o meu, por isso o meu imaginário, não se afastava muito do meu universo rural.

Só mais tarde me apercebi de que os autores desses contos, eram escritores estrangeiros, e que só alguns desses contos eram criações suas,outros eram recolhas populares, embora com uma roupagem diferente e mais erudita.

Os maiores escritores desse género literário foram o dinamarquês Hans Cristian Andersen e os irmãos Grimm de nacionalidade alemã. Cinquenta anos depoisquando me vi perante as estátuas dessas figuras, fez-me reviver esse imaginário de criança, assim como o desejo de um dia os poder contar aos meus netos, um desejo cada vez mais improvável, por causa das vicissitudes da vida.

Esse sentimento aconteceu-me em Copenhaga perante a estátua de Hans Cristian Andersen e da pequena sereia, repetindo-se em Bremen, perante a estátua dos “Músicos de Bremen”. Para quem já não se recorda desse conto, ele aqui fica.

 

 

"Era uma vez um burro que tinha trabalhado durante muitos anos para o seu dono, acartando sacos de milho. Com o tempo, foi perdendo as forças e acabou por não conseguir trabalhar como antigamente. Então, o dono resolveu cortar-lhe a ração. Vendo que dessa decisão não viria nada de bom para si, o Burro fugiu e pôs-se a caminho da cidade de Bremen.
- Em Bremen posso tornar-me músico – pensava ele enquanto caminhava.
Ainda mal tinha começado a jornada quando encontrou, à beira da estrada, um cão de caça que respirava sem fôlego como se tivesse acabado de correr muito.
- Por que respiras assim com tanta dificuldade? – Perguntou o Burro.
- Ah, sabes lá! Como estou velho e cada dia que passa me sinto mais fraco, já não posso caçar. O meu dono queria matar-me, mas eu fugi a sete pés. Mas, agora, o que vai ser de mim? – Queixou-se o Cão.
- Por que não vens comigo para Bremen? – Perguntou o Burro. - Vou tornar-me músico da cidade e tocar alaúde. Tu podias tocar tambor…
O Cão concordou e meteram-se ambos ao caminho.
Andaram algum tempo até que encontraram um Gato que estava muito, muito triste.
- O que te aconteceu, meu caça-ratos? – Perguntou o Burro.
- Quem é que se pode sentir feliz quando tem a vida em risco? – Queixou-se o Gato –
Como estou velho e prefiro enroscar-me à lareira em vez de caçar ratos como antigamente, a minha dona quis afogar-me e eu fugi. Mas, agora, o que será de mim?
- Vem connosco para Bremen – convidou o Burro. – Podes ser um músico como nós e tocar nos concertos nocturnos.
O Gato concordou e foi com eles.
Pelo caminho passaram por uma quinta e viram um Galo empoleirado na cancela.
Cantava a plenos pulmões.
- Por que te esganiças tanto? – Quis saber o Burro.
- Amanhã é Domingo - explicou o Galo - e a minha dona tem convidados. Mandou a cozinheira cortar-me o pescoço logo à noite e meter-me na panela. Por isso, canto enquanto posso.
- É melhor vires connosco, Galo vaidoso - convidou o Burro - tens uma bela voz e juntos faremos um belo quarteto.
O Galo concordou e partiu com os outros.
Como não podiam chegar a Bremen nesse dia, resolveram passar a noite numa floresta.
O Burro e o Cão deitaram-se debaixo de uma árvore e o Gato e o Galo aninharam-se nos seus ramos. O Galo escolheu um dos ramos do topo da árvore porque aí se sentia mais seguro. Antes de adormecer, olhou em volta e viu ao longe uma luz a brilhar na escuridão. Chamou os colegas e disse-lhes que, naquela direcção, havia com certeza uma casa.
- Vamos até lá – propôs o Burro. – Aqui não estamos lá muito bem instalados.
Todos concordaram e puseram-se a caminho. Acabaram por chegar a uma velha casa de onde saía uma luz muito viva.
Como o Burro era o mais alto, foi ele quem espreitou primeiro.
- O que vês? – Perguntou o Cão.
- Vejo uma mesa repleta de iguarias e quatro salteadores que se estão a banquetear à farta – respondeu o Burro.
- Essa comida é que vinha mesmo a calhar – disse o Galo.
- Ah, se ao menos pudéssemos lá entrar… - acrescentou o Burro, cheio de fome.
Conversaram durante algum tempo e, por fim, os quatro amigos tiveram uma ideia para expulsar os salteadores.
O Burro apoiou as patas dianteiras no parapeito da janela, o Cão saltou para cima dele, o Gato saltou para cima do Cão e o Galo voou para cima do Gato. Depois, começaram a fazer barulho, cada um à sua maneira: o Burro zurrou, o Cão ladrou, o Gato miou e o Galo cantou. Enquanto faziam este concerto, saltaram através da janela, partindo os vidros em mil bocados. Os salteadores pensaram que se tratava de um fantasma horrível
e fugiram a sete pés, rumo à floresta.
Muito satisfeitos, os quatro amigos sentaram-se à mesa e comeram tranquilamente até se fartarem. Depois, apagaram as velas e prepararam-se para dormir. O Burro deitou-se num fardo de palha que havia no pátio, o cão deitou-se atrás da porta das traseiras, o Gato enroscou-se junto das brasas da lareira e o Galo empoleirou-se numa das traves do tecto da casa. Como estavam muito cansados adormeceram num instante.
Por volta da meia-noite os salteadores voltaram. Estava tudo às escuras e não se ouvia barulho nenhum.
- Não nos devíamos ter assustado tanto – disse o chefe.
E mandou um dos seus homens à frente para examinar a casa.
O bandido entrou e dirigiu-se à lareira para acender uma vela. Os olhos do Gato luziam no escuro e o bandido pensou que eram duas brasas. Aproximou um fósforo do focinho do Gato para o acender. O Gato não gostou da brincadeira e saltou-lhe para a cara, arranhando-a muito, enquanto miava e soprava. O bandido ficou aterrorizado! Quis fugir pela porta das traseiras, mas o Cão atirou-se a ele e ferrou-lhe uma valente dentada na perna. Cada vez mais aterrorizado, o homem lançou-se a correr pelo pátio, passando perto do Burro que lhe deu dois valentes coices. Nisto, o Galo acordou em sobressalto e pôs-se a cantar:
- Có-có-ró-có-có! Có-có-ró-có-có!
O bandido fugiu o mais depressa que pode. Quando chegou perto dos outros, gritou apavorado:
- Estamos perdidos! Está uma bruxa horrorosa sentada à lareira. Cuspiu-me e arranhou-me a cara com as suas unhas enormes. Junto à porta está um homem que me esfaqueou a perna. No pátio está um monstro que me bateu com um cacete. Em cima do telhado está o chefe deles todos que gritou: "Corre senão comes! Corre senão comes!" Foi o que fiz, para não apanhar mais.
Os salteadores nunca mais se atreveram a voltar àquela casa.
Quanto aos quatro músicos de Bremen, sentiram-se tão bem por lá que resolveram nunca mais sair… e, quanto a mim, ainda lá devem estar!"

(Irmãos Grimm)



publicado por Nuno Santos às 22:37

Maio 07 2014

 

 

Para quem acompanha desde há muitos anos o fenómeno desportivo, é vulgar associar as cidades que visita aos clubes de futebol. Uns porque já defrontaram clubes portugueses nas provas europeias, noutros casos a própria selecção, e com efeito a selecção da Dinamarca, tem sido uma adversária frequente de Portugal, quer nas fases de apuramento para o Europeu, como para o Mundial.

Os últimos clubes dinamarqueses que mais recentemente defrontaram o Sporting foram, o Midtjylland e o Brondby. Mas os sportinguistas jamais esquecerão um dinamarquês que, no ano de 2000 nos ajudou a quebrar o longo jejum de dezassete anos, quando nos sagramos campeões, tendo como guarda-redes, o grande Peter Schmeichel, que, no seu tempo foi considerado um dos melhores guarda-redes do mundo.

Não tenho ideia de alguma vez termos defrontado o Odense, um dos clubes mais antigos do mundo, fundado no ano de 1887, mas esta cidade já no sudoeste da Dinamarca, é bem mais conhecida pelo seu centro universitário do que pelo seu clube, e também mais importante do ponto de vista social e estruturante para a cidade.

Almoçamos em Odense e fizemos uma visita panorâmica pela cidade, visitando entre outros pontos de interesse, a casa onde nasceu Hans Cristian Andersen.

Embora tenha nascido em Odense, Hans Cristian Andersen viveu a maior parte da sua vida em Copenhaga, celebrizando-se pelos seus escritos nomeadamente contos, sendo os mais conhecidos “O soldadinho de chumbo, o patinho feio e a pequena sereia” cuja estátua é um dos ex-libris de Copenhaga.

Depois de Odense continuamos rumo ao sul e à Alemanha, desta feita fazendo a travessia entre os dois países por via terrestre, através de uma ponte. Entretanto como era terça-feira, um dia normal de trabalho, à passagem por Hamburgo com destino a Bremen, sentimos os efeitos das entradas nos grandes centros industriais, apanhando um gigantesco engarrafamento, chegando quase aos vinte quilómetros. Por via disso chegamos a Bremen quase à hora do jantar.

publicado por Nuno Santos às 07:30

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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