Outeiro Secano em Lisboa

Julho 01 2014

Apesar da notícia da abertura do museu dos descobrimentos no Porto ter passado na televisão, o facto passou-me completamente ao lado. Tive conhecimento através de um amigo que, por coincidência, estava de fim-de-semana no Porto, e ia visitá-lo.

Nesse dia acabamos por passar em frente do museu, ficando a saber a sua localização. Mas para ser sincero, não fiquei muito entusiasmado com a ideia, porquanto não estava a ver um museu dos descobrimentos no Porto! Porquanto os descobrimentos estão mais associados a Lisboa, quer seja pela Torre de Belém pelos Jerónimos ou ainda pelo Padrão dos Descobrimentos.

Só quando tive conhecimento de que o museu era um projecto privado do empresário Mário Ferreira, aproveitando bem, o facto do Infante D. Henrique mentor dos descobrimentos, ter nascido no Porto, fiquei com alguma curiosidade, porquanto é bem conhecida a dinâmica e o sucesso deste empresário.

Assim no domingo de manhã sem outros planos, acabamos por ir visitar o museu, designado por Worlds Discovers, o qual fica situado próximo do edifício da Alfândega, onde outrora funcionou um antigo estaleiro naval. Quem vê o edifício por fora, não imagina o que lá está dentro.

Logo à entrada, os funcionários que fazem a recepção dos visitantes, aparecem trajados à época dos descobrimentos, da mesma forma que os restantes que vão aparecendo pelas seguintes salas do museu. Parecem todos bem identificados com a temática, e ajudam a fazer um enquadramento histórico e interactivo dos objectos com os descobrimentos.

As primeiras salas têm de facto um caracter museológico, com vários objectos expostos, como os instrumentos de navegação, a evolução dos barcos desde as pequenas caravelas aos galeões, tudo isso acompanhado de conteúdos de multimédia, mostrando as diversas rotas de Diogo Cão, Pero da Covilhã, Bartolomeu Dias ou a mais extraordinária de todas, a viagem de circunavegação de Fernão de Magalhães.

Ao longo da visita vamo-nos identificando com a forma como os marinheiros viviam nos barcos durante essas viagens, as tarefas que faziam, os constrangimentos que sofriam, o que transportavam tanto na ida como no regresso, aqueles que regressavam, porque muitos fizeram a viagem sem retorno, por isso Pessoa escreveu “ Oh mar salgado, quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal”.

O museu conta ainda com animação, e se as figuras nos parecem de carne e osso, algumas são-no de verdade, como o velho do Restelo que inesperadamente nos clama.

"A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos, e de minas
D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?

 

Mas também Camões faz a sua aparição na ilha dos amores, retratando as ninfas que não eram senão nativas que despreocupadamente se banhavam nuas nas praias e fugiam ao ver aproximarem-se as naus.

 

 

Nesta frescura tal desembarcaram
Já das naus os segundos argonautas,
Onde pela floresta se deixavam
Andar as belas deusas, como incautas
Algüas doces cítaras tocavam,
Algüas harpas e sonoras flautas;
Outras, cos arcos de ouro, se fingiam
Seguir os animais que não seguiam



Depois desse percurso pedonal pelo museu, a visita torna-se temática e os visitantes entram nuns pequenos barcos que, depois de passarem pelo Adamastor, revisitam os locais por onde passaram os nossos marinheiros atravessando paisagens tropicais, ouvindo os sons da selva, paisagens essas que vão da África à Ásia e à Oceânia, com passagem pelas Américas.

Confesso que gostei do que vi e espero que, este projecto seja amplamente divulgado, e de que as expectativas dos promotores, de terem cerca de 300.000 visitantes por ano seja amplamente ultrapassado.



publicado por Nuno Santos às 07:36

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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