Outeiro Secano em Lisboa

Julho 15 2014

 

No ano de 2013 a Nucase, empresa onde eu ganho o pão de cada dia, comemorou trinta e cinco anos de vida, tantos quantos eu de casamento. O presidente da administração da empresa o Sr. António Nunes que, além de meu patrão é meu amigo, lançou-me um desafio para  escrever a história da Nucase. Embora não estando ligado ao seu começo, conhecia a sua história assim como os principais interlocutores, tendo saído este livro, o qual foi lançado por altura da festa de Natal, encerrando as comemorações dos seus 35 anos.

O livro está segmentado em três partes, a primeira é uma a biografia cronológica da empresa, com os diversos ciclos: criação, expansão, desenvolvimento e sustentabilidade. A segunda é sobre a actividade social da mesma, na terceira parte contam-se alguns episódios bizarros que, ao longo destes trinta e cinco anos, aconteceram na empresa.

Semanalmente irei publicar um desses episódios,  que, para quem não conhece a Nucase, saiba que apesar de existirmos desde 1978 a optimizar números,  de vez em quando ocorrem outros episódios, não tão maçadores quanto o tratamento da contabilidade.

 

I

A origem do património

 

A economia paralela designa-se por um conjunto de actividades ou actos isolados que, por fragilidade do sistema, faz reverter a seu favor uma determinada verba que deveria ser receita fiscal.

Em Portugal a economia paralela equivale a cerca de 20% do PIB. Contudo este indicador segundo estudos internacionais está em linha com a prática dos outros países europeus, sobretudo dos países do sul da Europa.

O José Sobrinho Pereira era um empresário em nome individual ligado ao ramo da carpintaria que, apesar do negócio não lhe correr mal, apresentava todos os anos resultados contabilísticos e fiscais baixos, porque os seus clientes para não pagarem o IVA, não lhe exigiam a factura.

Essa prática fazia com que os proveitos declarados fossem inferiores aos reais, embora os meios financeiros recebidos dos seus clientes fossem investidos no negócio, quer na ampliação das instalações, como no investimento em novas maquinarias.

Um dia recebeu uma notificação das Finanças, informando-o de que iria ser alvo de uma acção inspectiva, o que nós designamos por uma fiscalização. De imediato José Sobrinho Pereira contactou o seu técnico de contas, informando-o da notificação.

Oficialmente a centralização da escrita deve estar na sede da empresa, mas quando acontecem as fiscalizações, os clientes apressam-se a dizer que a contabilidade está no contabilista, passando para estes o desconforto de os atender.

Quando o funcionário das finanças chegou, foram-lhe apresentados todos os elementos contabilísticos assim como os respectivos livros selados. Após a sua detalhada análise o inspector fez questão de, falar pessoalmente com o contribuinte, não restando outra alternativa ao técnico, senão chamar o senhor José Sobrinho Pereira, inclusive para assinar a nota de visita.

Quando este chegou, o técnico das finanças foi muito franco e directo, dizendo-lhe:

- Estive a analisar as suas contas e de facto, não encontro nenhuma inconformidade legal. Mas em face dos rendimentos declarados, como justifica a origem do seu património?

O senhor José Sobrinho Pereira não se desconcertou e com a maior das calmas respondeu-lhe:

- Sabe! Apesar de não ser politicamente correcto, eu tenho uma amante. É uma velha muito rica que me dá tudo quanto eu quero! Existe alguma coisa na lei que me proíba, de ter uma amante rica?

O técnico das finanças ficou sem palavras e sem mais perguntas. Elaborou a nota de visita deu-a a assinar ao contribuinte e saiu. Se convencido ou não, o certo é que a matéria colectável não foi alterada.

  

  

publicado por Nuno Santos às 20:27

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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