Outeiro Secano em Lisboa

Setembro 27 2016

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Eduardo e Flávio.jpg

 

Começou a época das vindimas, sendo a vindima do meu irmão Manuel neste ano, uma das primeiras da aldeia. Mas não fora o facto de se intrometer a festa do São Miguel, esta semana as vindimas ficavam praticamente todas arrabeiradas. Doutro modo, prolongar-se-ão até ao dia 8 de outubro, porque a nossa aldeia, tornou-se uma aldeia de serviços, e se a maioria dos produtores não meterem férias nesta época, especificamente para fazerem a vindima, estas só poderão ser realizadas, aos fins-de-semana.

Ora, se há boas práticas que se transmitem geracionalmente, o trabalho comunitário é uma delas, e o meu irmão Manuel assimilou bem essa prática da casa dos meus pais. Desde sempre que em casa dos meus pais, as grandes tarefas como vindimas, apanha de batatas e outros, mais do que um trabalho eram uma festa.

O trabalho mais penoso sobrava para a minha mãe, porque tinha de cozinhar para cerca de trinta pessoas, tantas quantas se juntavam nesses mesmos trabalhos, como a vindima por exemplo. O trabalho propriamente dito, fazia-se com uma perna às costas, entre chalaças e brincadeiras dos presentes, quer fossem homens ou mulheres.

Para mim foi gratificante observar, que, esse espirito comunitário ainda se preserva, embora eu estivesse presente, apenas para registar o evento.

Quanto às vindimas propriamente ditas, infelizmente este ano, não vai ser um ano muito produtivo. Há enormes quebras face aos anos anteriores, havendo casos em que as vinhas, até já parecem vindimadas, não pelos vindimadores mas pelo míldio, em especial naquelas que os produtores, não acertaram com a data dos tratamentos.

 Mas nem sempre a quantidade é sinónimo de qualidade, por isso esperamos nessa matéria, que o ano de 2016, seja um ano de boa colheita.  

publicado por Nuno Santos às 23:56

Setembro 27 2016

Programa do Sao Miguel.jpg

 

Se o mês de junho é considerado o mês dos santos populares, havendo festas e romarias por toda a parte e  quase todos os dias, em Outeiro Seco o mês das festas é em setembro, celebrando-se a Sra da Azinheira no dia 8, e o São Miguel no dia 29, com a particularidade do São Miguel, ser o nosso padroeiro.

Mas lá diz o ditado, “santos da casa não fazem milagres” de modo que, o São Miguel, embora seja o nosso padroeiro, em matéria de festejos ocupa um lugar subalterno, porque em termos orçamentais, gastam-se apenas as sobras da festa da Sra da Azinheira.

Por isso, as dificuldades na realização desta festa, estão agora mais amenizadas, por causa da retirada das receitas das oferendas do prato, no dia da festa da Sra da Azinheira, à Comissão da Fábrica da Igreja, passando a pertencer à Comissão da Festa.

Tal medida continua a gerar alguma controvérsia, em especial nos sectores mais ligados à igreja, porque assim a Comissão da Fábrica da Igreja, passou a ter menos dinheiro para a realização das obras de conservação da igreja e das capelas, em contrapartida, passou a haver mais dinheiro para celebrar o São Miguel.

Mas em abono da verdade, o facto é que acaba por ser sempre o povo, quem contribui para a requalificação do património religioso da aldeia, como foi no caso das capelas de Sant’Ana, e Sra da Portela, já que a Sra do Rosário foi um caso um pouco especial, mercê de um donativo também ele especial.

No passado existiram anos, em que não houve sobras da festa, ou as que houve, foram insuficientes para se celebrar o São Miguel com a dignidade que merecia. No entanto, guardou-se sempre o feriado na aldeia, assim como a celebração da missa e do sermão.

Nesses anos poderia não haver procissão nem o baile à tarde, mas o povo não deixava de sair, circulando pelo largo do tanque, cortando na casaca dos mordomos desse ano, acusando-os de terem enterrado o São Miguel. Mas mesmo nesses anos e foram poucos, quase nunca deixou de haver arraial.

À noite enquanto se comiam as sobras do almoço, habitualmente frangos ou patos assados no forno, porque o cordeiro fora comido na festa Sra da Azinheira, ainda que alguns guardassem uma espádua para esse dia, ouviam a música que vinha estrada a baixo, tocada por um grupo de músicos entre os oito e os doze, quase sempre de Vila Verde da Raia, a que o povo chamava de gaiteiro ou de um Jazz.

O promotor desse arraial costumava ser o Adelino Figueiras, que, tinha relações especiais com o Nelson, músico de Vila Verde, por serem colegas de profissão. O dinheiro lá aparecia sempre porque durante o baile, as pessoas quotizavam-se para o pagamento do gaiteiro.

O arraial fazia-se no Largo do Zé Merceana e a sua varanda servia de coreto, como por baixo tinha taberna, claro que acabava por ser ele o maior beneficiário, mas também o maior mecenas.

Chamávamos-lhe a festa dos velhos, porque nesse dia toda a gente dançava, não havendo reumatismos nem espondiloses que apoquentasse. Aqueles que não tinham par dançavam com o Toninho Carreira, o tolinho da aldeia que, embora não tivesse outras tendências sexuais, gostava de imitar as práticas femininas, nomeadamente usar malas e dançar, ainda que fosse com homens.

Outra figura bizarra desse tempo era João Cagão, porque dançava por cima da sua ramada, com um garrafão de vinho na cabeça, em precário equilíbrio.

Atualmente passou a existir um outro constrangimento na realização do São Miguel. As escolas que antes abriam em outubro, passaram a abrir em meados de setembro, logo, muitos dos músicos são estudantes, não estando disponíveis para tocar, quando a festa calha num dia de semana, como acontece este ano.

Ora, apesar de agora haver uma Banda na aldeia, este ano a nossa banda não tocará na procissão, e veremos quantos poderão tocar à tarde. Provavelmente teremos uma Banda em versão reduzida como antigamente, para não lhe chamarmos um gaiteiro.

Como sempre o arraial promete, vai haver um conjunto e uma descarga de fogo, esperamos que o São Pedro seja amigo e nos dê uma noite amena.

Desde já os parabéns para as comissões de festas dos casados e dos solteiros, os quais terminam os seus mandatos com grande brilhantismo, contribuindo para a honra e o prestígio da aldeia. Bem hajam pelo esforço e sacrifício pessoal.

publicado por Nuno Santos às 11:35

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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