Outeiro Secano em Lisboa

Outubro 17 2016

igreja sra da azinheira.jpg

Há tempos li no jornal a Voz de Chaves, um artigo da autoria de Julio Braz, presumo que seja extraído de um livro escrito por este autor, sobre o românico no concelho, o qual não tive ainda o privilégio de ler. Para repor algum rigor histórico escrito na publicação, enviei este artigo para o Diretor do Jornal do qual sou assinante, mas não se dignou publicá-lo, razão pela qual o publico agora no meu blogue.

Embora tenha gostado da referência à Igreja da Nossa Senhora da Azinheira, por se tratar do ex-libris da minha terra, como outeiro secano desgostou-me o facto do autor do artigo, em parte alguma do texto, ter feito qualquer menção a Outeiro Seco, quando a própria Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, hoje com outra nomenclatura, no seu Boletim n.º 112, editado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda no ano de 1964, referencia esta igreja como; Igreja de Nossa da Azinheira de Outeiro Seco – Chaves.

Além da omissão do nome de Outeiro Seco, o artigo contém ainda outras imprecisões. Desde logo, a igreja não está localizada na estrada que conduz a Vila Verde da Raia, pois essa via só começa umas centenas de metros adiante e tem como toponímia, Estrada das Antas, quanto muito a igreja está localizada na estrada que, conduz a Vilela Seca.

Claro que com as novas dinâmicas tudo muda, nomeadamente os nomes das ruas por isso, a igreja situa-se agora na Rua da Senhora da Azinheira, que começa no alto do Cruzeiro e termina no lugar das Alminhas. A partir das Alminhas a via passou a designar-se Avenida do Tâmega, embora o seu estado de conservação, não esteja em conformidade com a designação de avenida, antes o nome dessa via era Estrada de Outeiro Seco, nome que ainda aparece em algumas moradas comerciais.

Outra das imprecisões prende-se com a menção aos seus anos do restauro. Quando o autor escreveu que, no ano de 1963 “foi retirado o alpendre da frontaria, desmontado o campanário, demolido o coro, excluído o altar-mor de talha dourada e fixadas algumas pinturas em paneis móveis” esse restauro ocorreu no ano de 1937, quando a igreja correu sérios riscos de ruir, na sequência de um incêndio na sua cobertura, provocado por um foguete da festa. Foi na sequência desse restauro, realizado no ano de 1937, que, a igreja foi classificada pela Direção Geral dos Monumentos Nacionais, passando a sua administração para a esfera pública.

Na época viviam-se tempos difíceis causados pela 2ª Guerra Mundial e pela guerra civil na vizinha Espanha. Em Portugal apesar de não entrarmos na guerra os recursos eram escassos e vivia-se até em racionamento, daí que as obras na cousa pública, ou eram feitas pelas populações locais, ou eventualmente por algum mecenas, que, tivesse enriquecido no Brasil.

Só que em Outeiro Seco nunca houve mecenas, e as obras de que a igreja carecia, eram de grande monta, razão porque a população andava preocupada, vendo a destruição acelerada da sua igreja. Os fundos angariados localmente eram poucos para a realização da festa, uma tradição tão enraizada na aldeia, não havendo memória, de que em algum ano, a festa não se tenha realizado.

Por essa altura viviam no solar dos Montalvões, o Dr. José Maria Ferreira Montalvão e D. Ana da Conceição Morais Alves. O Dr. Ferreira Montalvão era um grande proprietário, não só em Outeiro Seco, como noutras aldeias vizinhas, dizendo-se até que ele era o maior pagador de “décima” contribuição predial, do distrito de Vila Real. Só que infelizmente o Dr. Montalvão, nunca foi um mecenas, e o povo deve-lhe pouco, o mesmo não se pode dizer da alguns dos seus filhos, os quais doaram alguns bens à aldeia.

A sua mulher conhecida pelo povo como Donana, era amiga de infância de D. Maria do Carmo Ferreira da Silva, uma ilustre flaviense conhecida como Madame Carmona, por ser casada com o Presidente da República da época, o Marechal Óscar Carmona. Esta vinha todos os anos a banhos ao Vidago e a Chaves visitar a família, aproveitando para visitar também sua amiga, no solar de Outeiro Seco. Assim no ano de 1936, numa das suas presenças no solar, uma comitiva de outeiro secanos, chefiada por Miguel Sanches, solicitou uma audiência à Madame Carmona, pedindo-lhe que fizesse algo para recuperar a igreja, antes que esta ruísse totalmente, tal o seu estado de degradação.

O pedido caiu fundo em Madame Carmona, de tal forma que, após o seu regresso à capital, ela moveu influências e o restauro aconteceu. Mas lá diz o ditado “Não se pode agradar a gregos e troianos” por isso, ainda há na aldeia quem conteste as alterações introduzidas na igreja, quando da sua restauração, nomeadamente, da retirada do altar-mor, do cabide e do campanário. Eu não comungo dessa opinião, porquanto, este restauro, restituiu à igreja a sua forma primitiva, ou seja o seu estilo românico. 

Atualmente o seu interior está bastante degradado, nomeadamente os seus frescos, mas quando da governação do Eng.º Sócrates e da adjudicação do Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Elétrico, sobretudo na bacia do Tâmega, a Iberdrola comprometeu-se como contrapartida dessa adjudicação, requalificar todo o património românico a norte do Douro, onde se incluía a Igreja da Senhora da Azinheira.

Por isso aguardamos o cumprimento dessas contrapartidas, esperando que não aconteça, como as contrapartidas da compra dos famigerados submarinos.

 

 

publicado por Nuno Santos às 17:22

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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