Outeiro Secano em Lisboa

Fevereiro 13 2017

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Está a decorrer uma petição para ser levada à Assembleia da República, no sentido de diminuir o peso das mochilas, porque segundo os especialistas da DECO, o peso das mochilas não deve ultrapassar os 10% do peso das crianças, quer isto dizer que, se uma criança pesar 40 kg, o peso da sua mochila não deve ultrapassar os 4 kg.

Embora não tenha nada a opor, esta petição fez-me reportar ao meu tempo de criança, concluindo quão diferente estão as condições de vida em Portugal, quando comparadas com a minha infância e adolescência. Nesse tempo não havia qualquer preocupação com os direitos das crianças, nem sequer havia mochilas, os livros eram transportados em pastas de pano ou de cartão, ou então nas mãos, debaixo do braço.

Só que os livros eram mesmo transportados pelos alunos, porque os pais não deixavam os filhos à porta da escola como agora, e quando não são os pais, são os transportes escolares. No meu tempo eu e todos os outeirosecanos meus contemporâneos fazíamos 5 quilómetros de casa à escola, ou seja 10 quilómetros diariamente. Entrávamos às 8,20 da manhã e embora o inverno em Chaves  seja muito agreste, o vestuário que usávamos na época, não tinha qualquer comparação com o conforto de agora.

Acrescendo a essas dificuldades, muitos de nós quando saíam das aulas, tinha ainda outras tarefas para cumprir, porque como diz o ditado “ trabalho de garoto é pouco, mas quem o não aproveita é louco”, e era necessário apoiar a economia doméstica da família.

O pior era nas chamadas férias de verão, quando ocorriam as principais tarefas agrícolas, porque eram feitas na sua maioria de forma manual, porquanto, as máquinas estavam a ser introduzidas de forma gradual na agricultura. Por essa razão os que vivíamos nas aldeias, considerávamos o início do período escolar, como o início das nossas férias. Nessa altura era vulgar verem-se jovens de catorze ou quinze anos, carregando sacos de centeio ou de batatas às costas, com um peso  bem mais desproporcional do que agora o peso das mochilas.

E aguentávamos? Pois como disse o Fernando Ulrich – Ai aguentávamos! Aguentávamos! porque o trabalho dá saúde diziam-nos os mais velhos, mas claro, era sobretudo porque a necessidade nos obrigava.

Não pretendo defender esse tempo e ainda bem que o país evoluiu, hoje já não existe aquilo a que se chamava exploração infantil, porém, acho que também não devemos cair no oposto, facilitando demasiado as coisas às crianças, ao ponto destas não estarem depois preparadas para as dificuldades da vida.

 

publicado por Nuno Santos às 23:47

Fevereiro 13 2017

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Esta história é muito antiga porque já a minha bisavó a contara á minha avó, que, por sua vez, a recontou á minha mãe e às minhas tias. Também no meu tempo de menino e moço, quando às refeições havia alguma contenda com os meus irmãos, porque algum de nós sentia prejudicado com a repartição do peguilho, a minha mãe dizia-nos.

- Vê-de lá se quereis ir ao macaco juiz.

Ora, a história do macaco juiz reza assim.

Era uma vez dois ratitos que, ludibriando a segurança do bichano lá da casa, o qual gostava mais de ficar enroscado ao borralho da lareira, do que caçar ratos, entraram na despensa da casa e furtaram um queijo. Depois, confrontados com a forma equitativa da partilha do queijo, um deles disse.

- Cá por mim íamos ao macaco juiz, pois segundo ouvi dizer, tem muita sabedoria e um grande sentido de justiça.

O outro rato concordou e lá foram ao macaco, para que este lhes fizesse a partilha do queijo. Exposta a situação, o macaco foi buscar uma balança e partiu o queijo em dois, colocando cada bocado do queijo, nos pratos da balança.

Como o prato esquerdo da balança estivesse mais baixo, o macaco deu-lhe uma valente dentada fazendo com que o desequilíbrio passasse para o lado oposto. Nova dentada na porção do queijo da direita e o desequilíbrio passou de novo para a esquerda.

Os ratitos vendo o queijo a desaparecer, ainda interpelaram o juiz, mas este com ar de muito compenetrado na sua ação, disse-lhes.

- Mas não foi a justiça que procurastes? Então deixai que a justiça se faça.

Continuando com mais uma dentada no bocado da direita, outra dentada no bocado da esquerda, sobraram apenas dois bocaditos de queijo em cada prato da balança. E perante a estupefação dos ratitos, o macaco juiz disse-lhes.

- Bem, como já só há estes dois bocaditos, não vale a pena fazer a partilha, estes ficam como paga do meu serviço.

E dizendo isso, meteu os dois bocados de queijo à boca, ficando os dois ratitos incrédulos com o que lhes tinha acontecido.

Moral da história, nem sempre recorrer à justiça é a melhor solução, por vezes, é melhor o diálogo e a concertação entre as partes.

publicado por Nuno Santos às 09:34

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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