Outeiro Secano em Lisboa

Março 21 2014

 

O dia 21 de março é dos dias mais consagrados do nosso calendário. Ele está associado à entrada da Primavera, mas também é considerado o Dia Mundial da floresta, o Dia Internacional do síndroma de Down ou trissomia 21, o Dia Internacional Contra a Discriminação Racial mas ainda o Dia Mundial da Poesia.

A esse propósito, vão decorrer um pouco por todo o lado eventos, para assinalar este dia. Em Chaves o TEF leva a efeito uma sessão de poesia no seu espaço Bento Martins, em Lisboa, irá decorrer amanhã no Largo de S. Carlos, em frente da casa onde nasceu Fernando Pessoa, uma sessão de poesia que, depois se prolongará no Teatro da Trindade, ali perto.

Eu não podia deixar passar este dia em claro e por isso, escolhi um poema de um poeta, cujos poemas me comovem até às lágrimas, trata-se de António Nobre cujo livro “Só” recomendo.

   

 

Elegia

 

Vai em seis meses que deixei a minha terra
E tu ficaste lá, metida n'uma serra,
Boa velhinha! que eras mais uma criança...
Mas, tão longe de ti, n'este País de França,
Onde mal viste, então, que eu viesse parar,
Vejo-te, quanta vez! Por esta sala a andar...
Bates. Entreabres de mansinho a minha porta.
Virás tratar de mim, ainda depois de morta?
Vens de tão longe! E fazes, só, essa jornada!
Ajuda-te o bordão que te empresta uma fada.
Altas horas, enquanto o bom coveiro dorme,
Escapas-teada cova e vens, Bondade enorme!
Através do Marão que a lua-cheia banha,
Atravessas, sorrindo, a misteriosa Espanha,
Perguntas ao pastor que anda guardando o gado,
(E as fontes cantam e o céu é todo estrelado...)
Para que banda fica a França, e ele, a apontar,
Diz: «Vá seguindo sempre a minha estrela, no Ar!»
E há-de ficar cismando, ao ver-te assim, velhinha,
Que és tu a Virgem disfarçada em pobrezinha...
Mas tu, sorrindo sempre, olhando sempre os céus,
Deixando atrás de ti, os negros Perineus,
Sob os quais rola a humanidade, nos Expressos,
Em certo dia ao fim de tantos (conto-os, meço-os!)
Vindo de vila em vila, e mais de serra em serra,
Chegas!
    E cai e cai no soalho alguma terra:
Tua cova que vem pegada aos teus vestidos!

Ó lua do ceguinho! Amparo dos vencidos!
Alpendre do perdão! ó Piedade! ó Clemencia!
Singular fado o nosso, estranha coincidência:
Deixamos nossa Pátria ao mesmo tempo: tu,
Adentro d'um caixão, que era também baú,
Onde levavas as desgraças d'esta vida;
Eu, n'um paquete sobre a vaga enraivecida
(Sob a qual, entretanto, havia a paz das loisas)
E nele o esquife do meu lar, as minhas coisas,
E mais tu sabes, Santa! um saco de misérias!
Mas a existência, é um dia, esta vida são férias
E, mal acabem, te verei de novo... em breve!
E tu de novo me verás...
    Ah! como deve
Ser frio esse teu lar de debaixo da terra
Que teu cadáver de oiro ainda intacto encerra:
Ainda intacto e sempre: disse-me o coveiro
Que a tua cova era a única sem cheiro...
E assim te deixo, Santa! Santa! ao abandono,
Só, aos cuidados das corujas e do Outono!
Com este frio, horror! Senhora da Piedade!
Sem uma mão amiga e cheia de bondade
Que te agasalhe e faça a dobra do lençol,
Que abra a janela para tu veres o sol,
Que, logo de manhã, venha trazer-te o leite
E, á noite, a lamparina-esmalte com azeite!
Sem uma voz que vá ao pé da tua loisa,
Ansiosa, perguntar se queres alguma coisa,
Cobrir-te, dar-te as boas-noites... Sem ninguém!
Ai de ti! ai de ti! Minha segunda Mãe!

Dobra era meu coração o sino da saudade...

Aqui, no meio d'esta fria soledade,
Evoco a Coimbra triste, em seu aspecto moiro:
Entro, chapéu na mão, em tua Casa d'Oiro,
Em frente a um canavial, cheio de rouxinóis,
Que era nervoso de mistério, ao por-dos-soes...
Vejo o teu lar e a ti, tão pura, tão singela,
E vejo-te a sorrir, e vejo-te, á janela,
Quando eu seguia para as aulas, manhã cedo,
Ansiosa, olhando d'entre as folhas do arvoredo,
Olhando sempre até eu me sumir, a olhar,
Que ás vezes não me fosse um carro atropelar.
Vejo o meu quarto de dormir, todo caiado,
D'onde ouvia arrulhar as pombas, no telhado;
Oiço o relógio a dar as horas vagamente,
Devagar, devagar, como os ais d'um doente...
Vejo-te, á noite, pelas noites de Janeiro,
Na sala a trabalhar, á luz do candeeiro,
Mais vejo o Emílio, indo a tactear, quase sem vista,
Mas que lembrava com seus olhos de ametista,
Meio cerrados, como ao sol uma janela,
Que lindos olhos! uma pomba de Ramella!
E andava á solta pela casa, não fugia,
Que aos libres ares o casulo preferia...
Mais vejo Aquela, cujo olhar são pirilampos,
Que tem o nome da mais linda flor dos campos,
Que tem o nome que tiveste... Vejo-a, ainda,
Como se ontem fosse, a Margareth, tão linda:
Vejo-a passar, sorrindo, e faz-me assim lembrar
No seu vestido rubro, uma papoila a andar...
Mais te vejo ainda ungir d'afagos minhas penas,
Mais te vejo voltar, á tarde, das novenas...
Mais oiço os sinos a dobrar, em Santa Clara,
E tu encomendando a alminha que voara...
Mais vejo os meus contemporâneos, pela Estrada,
As capas destraçando, ao verem-te á sacada;
Mais vejo o Ruy, na sua farda de artilheiro,
E tu mirando-o (o que são mães!) o dia inteiro!
Mais vejo o sol, áurea cabeça do Senhor,
Mais vejo os cravos, notas de clarim em flor!
Mais vejo no quintal as papoilas vermelhas,
Mais vejo o lar das andorinhas, sob as telhas,
Mais oiço o tanque a soluçar soluços d'agua,
Mais oiço as rãs, coaxando á noite a sua magoa,
Mais vejo o figueiral todo cheio de figos,
Mais vejo a tua mão a dá-los aos mendigos...
Mais oiço os guizos, ao passar da mala-posta,
Mais vejo a sala de jantar, a mesa-posta,
E tu, Senhora! presidindo, á cabeceira.
E (o que a distancia faz!) vejo-te na cadeira,
Com uma touca preta a cobrir-te os cabelos,
Que eram de neve, aos caracóis, estou a vê-los!
(Hei-de ir cortar-tos, alta noite, ao cemitério...)
Mais vejo o Vasco sempre triste, sempre serio,
D'um lado e eu de outro...

    Que abençoado refeitório!

Mas tudo passa n'este mundo transitório!
E tudo passa e tudo fica! A Vida é assim
E sê-lo-á sempre pelos seculos sem fim!
Ainda vejo a tua casa, e oiço os teus gritos
(Mas nas janelas e na porta vejo escritos!)
O Vasco é ainda sempre triste, sempre serio
(Mas sua casa, agora, é ao pé d'um cemitério...)
Meu quarto de dormir vejo-o no mesmo estado
(Mas não sei que é, não me parece tão caiado.)
A janela ainda tem o mesmo parapeito
(Mas já não sou «o estudantino de Direito».)
Na sala de jantar ainda se estende a mesa
(Mas já não tem a mesa-posta, a sobremesa.)
Vejo o relógio na parede como outrora
(Mas o ponteiro marca ainda a mesma hora...)
O candeeiro ainda tem o petróleo e a torcida
(Mas apagou-se a luz a quando a tua vida.)
A diligencia passa, á tardinha, a tinir,
(Mas já não tem os olhos teus para a seguir...)
Passam ainda pela Estrada os estudantes
(Mas não destraçam suas capas, como d'antes...)
Vêm da novena ainda as moças e as donzelas
(Mas procuro-te, em vão, já não te vejo entre ellas...)
As andorinhas ainda têm o mesmo fito
(Mas já fizeram três jornadas ao Egipto...)
Ainda dobra por defuntos e defuntas
(Mas não te vejo a ti a rezar de mãos juntas.)
Ainda lá está o figueiral com figos,
(Mas não a tua mão a dá-los aos mendigos...)
O Ruy ainda traz a farda de soldado
(Mas, agora, já poe mais divisas, ao lado.)
As rãs coaxam ainda á noite, á beira d'água
(Mas, já não têm quem peça a Deus por essa magoa.)
O Emílio tem ainda esse olhar que maravilha,
(Mas, com seus olhos d'hoje, é uma pombinha da Ilha)
Ainda lá estão os cravos, no jardim,
(Mas já não são as mesmas notas de clarim...)
Ainda oiço o tanque a soluçar a sua magoa
(Mas já não acho tão branquinha a sua água...)
A Margareth ainda é a papoila de outrora
(Mas a papoila... já está uma senhora!)
Ainda lá estão as papoilas em flor
(Mas a velhinha já não vai de regador...)
Meu coração é ainda o Valle de Gangrenas
(Mas já não tenho quem lhe plante as açucenas...)
Vive ainda o Sol, vivo eu ainda... (Mas tu morreste!)
Tudo ficou, tudo passou...

    Que mundo este!

António Nobre, in 'Só'

 

publicado por Nuno Santos às 08:09

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