Outeiro Secano em Lisboa

Setembro 24 2013
Morreu ontem pelas 13,30 horas António Ramos Rosa, um dos nossos maiores poetas contemporâneos. Nascido em Faro em 17 de Outubro de 1924, faleceu ontem em Lisboa, no Hospital Egas Moniz. Além de poeta ensaísta e tradutor, António Ramos Rosa foi também um grande opositor ao regime de Salazar. Foi premiado com quase todos os prémios literários. Entre muitos outros poemas "O Boi da Paciência" é um dos seus poemas  de referência. Com a morte de Ramos Rosa Portugal perdeu mais uma figura de referência da nossa cultura.
O boi da Paciência  

Noite dos limites e das esquinas nos ombros

 noite por de mais aguentada com filosofia a mais

 que faz o boi da paciência aqui?

 que fazemos nós aqui?

 este espectáculo que não vem anunciado

 todos os dias cumprido com as leis do diabo

 todos os dias metido pelos olhos adentro numa evidência que nos cega

 até quando?

 Era tempo de começar a fazer qualquer coisa

 os meus nervos estão presos na encruzilhada

 e o meu corpo não é mais que uma cela ambulante

 e a minha vida não é mais que um teorema

 por demais sabido!
Na pobreza do meu caderno

 como inscrever este céu que suspeito

 como amortecer um pouco a vertigem desta órbita

 e todo o entusiasmo destas mãos de universo

cuja carícia é um deslizarr de estrelas?

 Há uma casa que me espera

 para uma festa de irmãos

 há toda esta noite a negar que me esperam

e estes rostos de insónia

 e o martelar opaco num muro de papel

 e o arranhar persistente duma pena implacável

 e a surpresa subornada pela rotina

 e o muro destrutível destruindo as nossas vidas

 e o marcar passo à frente deste muro

e a força que fazemos no silêncio para derrubar o muro

 até quando? até quando?
Teoricamente livre para navegar entre estrelas

 minha vida tem limites assassinos

Supliquei aos meus companheiros.

Mas fuzilem-me!

 Inventei um deus só para que me matasse

 Muralhei-me de amor e o amor desabrigou-me

 Escrevi cartas a minha mãe desesperadas

colori mitos e distribuí-me em segredo

 e ao fim ao cabo

 recomeçar

 Mas estou cansado de recomeçar!

Quereria gritar:Dêem árvores para um novo

 recomeço!

 Aproximem-me a natureza até que a cheire!

Desertem-me este quarto onde me perco!

 Deixem-me livre por um momento em qualquer parte

 para uma meditação mais natural e fecunda

 que me limpe o sangue!

 Recomeçar!
Mas originalmente com uma nova respiração

 que me limpe o sangue deste polvo de detritos

que eu sinta os pulmões com duas velas pandas

 e que eu diga em nome dos mortos e dos vivos

 em nome do sofrimento e da felicidade

 em nome dos animais e dos utensílios criadores

 em nome de todas as vidas sacrificadas

 em nome dos sonhos

 em nome das colheitas em nome das raízes

em nome dos países em nome das crianças

 em nome da paz

que a vida vale a pena que ela é a nossa medida

 que a vida é uma vitória que se constrói todos os dias

 que o reino da bondade dos olhos dos poetas

vai começar na terra sobre o horror e a miséria

 que o nosso coração se deve engrandecer

 por ser tamanho de todas as esperanças

e tão claro como os olhos das crianças

 e tão pequenino que uma delas possa brincar com ele
Mas o homenzinho diário recomeça

 no seu giro de desencontros

 A fadiga substituiu-lhe o coração

 As cores da inércia giram-lhe nos olhos

 Um quarto de aluguer

Como perservar este amor

 ostentando-o na sombra

 Somos colegas forçados

 Os mais simples são os melhores

 nos seus limites conservam a humanidade

 Mas este sedento lúcido e implacável

familiar do absurdo que o envolve

como uma vida de relógio a funcionar

e um mapa da terra com rios verdadeiros

 correndo-lhe na cabeça

como poderá suportar viver na contenção total

 na recusa permanente a este absurdo vivo?
Ó boi da paciência que fazes tu aqui?

Quis tornar-te amável ser teu familiar

 fabriquei projectos com teus cornos

 lambi o teu focinho acariciei-te em vão
A tua marcha lenta enerva-me e satura-me

As constelações são mais rápidas nos céus

a terra gira com um ritmo mais verde que o teu passo

 Lá fora os homens caminham realmente     

Há tanta coisa que eu ignoro

 e é tão irremediável este tempo perdido!

 Ó boi da paciência sê meu amigo!

António Ramos Rosa

publicado por Nuno Santos às 07:59

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
mais sobre mim
Setembro 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
11
13

15
16
17

28



links
pesquisar
 
Visitantes
blogs SAPO