Outeiro Secano em Lisboa

Janeiro 20 2018

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É uma triste sina, apesar de Chaves ser uma cidade com tudo para estar na linha da frente, no tocante ao turismo, porque além do seu vasto património, tem uma excelente oferta hoteleira,  são mais as vezes que a vimos citada nos meios de comunicação, por maus do que por bons motivos.

A avaliação positiva nem sequer é minha porque sendo eu flaviense embora não residente, sou suspeito para dizer bem da minha terra, mas ainda este ano numa visita à Irlanda, a guia turística que dava assistência ao grupo onde me inseria, dizia-me do potencial que encontrou em Chaves, para estar inserida num roteiro turístico, de interesse para grupos estrangeiros.  

Esta semana e depois do jornal o Público, ter denunciado a situação degradante do caso do Museu Termal, ontem foi a vez do programa televisivo Sexta às 9 trazer também o caso à colação. Ainda dizem que os alentejanos são um povo dolente, que gosta de dormir à sombra do chaparro. Em Chaves dorme-se sobre os assuntos, a não ser meia dúzia de pessoas que os vai comentando em conversa de café (Sport), não me recordo de qualquer petição ou movimento cívico, contestando os atentados feitos ao seu património. Claro que como não residente não estarei a par de tudo, mas vou muitas vezes a Chaves e sou assinante do jornal “A voz de Chaves”, e não tenho visto estes temas ali discutidos.

Tudo começou com a destruição do Mercado e da sua muralha, dando lugar à aberração que é o Centro Comercial Charlot. Depois foram a destruição do Jardim das Freiras e agora do Jardim do Bacalhau. Seguiram-se os gastos com a construção do Centro Cultural, uma sala minimalista incapaz de receber espetáculos de grande dimensão, quando já tinham comprado o antigo Cine Teatro, para continuar fechado. Isto sem falar do Solar dos Montalvões na minha aldeia, propriedade da Câmara Municipal onde também eu faço mea culpa pela minha inércia, mas confesso que sempre pensei estar salvaguardado, pelo protocolo de utilização com a UTAD.  

Sobre o Museu de Arte Contemporânea a situação a minha opinião é um pouco diferente, porque a sua construção, além de receber o espólio de um dos maiores artistas nacionais, veio requalificar uma zona perdida para a cidade, a Canelha das Longras.

Agora a sua vitalidade dependerá da dinâmica que lhe imprimam, devendo ser feitas parcerias com outras entidades, nomeadamente Serralves e outros museus, aproximar o MAC das Escolas, criando o hábito da visita aos museus nos seus alunos e por contágio destes, ao seu meio familiar.

É a vida, vivemos numa democracia e o povo escolhe livremente os seus eleitos, por sua vez estes consideram-se apenas penalizados pelos erros cometidos, em resultado dos votos obtidos em sufrágio, quando das eleições, contudo eu acho que, quando estão em causa elevados prejuízos materiais, como no caso do Museu Termal, a Justiça deveria  averiguar se houve ou não aproveitamento, de tão elevados gastos.   

 

publicado por Nuno Santos às 11:40

Dezembro 31 2017

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Se há coisa que me fascina em Outeiro Seco para lá das pessoas, é sem dúvida o nosso rio pequeno. Além da beleza que acrescenta à aldeia, o rio, apesar dos serviços cartográficos o designarem por Ribeira da Torre, será para nós outeiro secanos, sempre o nosso rio pequeno.

Graças à sua excelente localização, dividindo literalmente a aldeia em dois, tal como o equador o faz em relação à Terra, é a razão pela qual o rio não seja reivindicado pelo Eiró nem pelo Pontão, mas um património de todos os outeiro secanos.

Só que neste ano o rio ainda não é de ninguém, porque apesar de estarmos no fim de dezembro, paradoxalmente o “vaidoso” como lhe chamamos, porque aparece sempre num domingo, mostrando-se quando as pessoas vão para a missa, ainda não apareceu, nem tão pouco há expetativas de quando irá aparecer, não havendo memórias de uma aparição tão tardia.

É verdade que vivemos em ano de seca e em alguns locais do país de seca extrema, mas não existe na aldeia ninguém que se lembre, do rio não correr debaixo das pontes, entre os Santos e o Natal.

Quando da minha última estada aí pelo natal, foi estranho não ver correr o rio. Bem sei que já não tem a importância socioeconómica de outros tempos, quando as mulheres lavavam no rio a roupa, as leiteiras os cântaros onde transportavam o leite para a cidade, agora até os proprietários das hortas contíguas e ribeirinhas, já não regam do rio, não se vendo por isso os baldões nem os garabanos, utilizados para tirarem a água do rio, porque o custo de produção desses produtos hortícolas saem mais caros, do que comprá-los no dia de mercado ou nos supermercados.

Durante anos houve em minha casa alguma discussão entre mim e o meu filho, porque sendo ele estudante de engenharia ambiental, dizia que num futuro breve, iriamos colher os malefícios daquilo que estávamos a fazer ao nosso planeta, contribuindo para o seu aquecimento, porquanto isso iria-se refletir em secas e desregulações climáticas.

Confesso que demonstrei sempre o meu ceticismo sobre esse tema, porém, hoje tenho de fazer mea culpa, reconhecendo que isso aconteceu mais rápido do que eu imaginava.

Agora a nossa discussão terá de ser outra, nomeadamente, fazermos planeamentos para o armazenamento da água, para quando for preciso. Por exemplo o nosso rio pequeno, numa boa parte do ano a sua água perde-se no Tâmega.

Ora é tempo de os responsáveis autárquicos e outros interessados, começarem a pensar numa melhor forma da melhor utilização dessa água, construindo por exemplo uma barragem na Serragem ou no Cotete, assim além de condicionarem o seu caudal ao longo do ano, poderiam ainda fazer um aproveitamento para produção elétrica à semelhança do que se faz noutras paragens eu próprio já as vi por exemplo na Noruega, com grandes poupanças para as populações locais.  

Aproveito para desejar a todos os outeiro secanos espalhados pela diáspora, um Bom Ano cheio de saúde e prosperidades.       

 

publicado por Nuno Santos às 12:43

Dezembro 17 2017

 

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Apesar deste período sabático imposto ao  Blogue, por mera opção pessoal, desejo a todos os outeiro secanos residentes e não residentes, um Santo Natal e um Ano Novo cheio de prosperidades. 

publicado por Nuno Santos às 10:32

Setembro 11 2017

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Depois da festa costuma dizer-se, "estamos sem festa e sem dinheiro", porém, reside em todos os outeiro secanos uma enorme satisfação e orgulho, pelo cumprimento de mais um ano de tradição, apesar das dificuldades na montagem deste evento, serem cada vez maiores.

Dificuldades que se prendem sobretudo com a angariação dos fundos necessários para a realização da festa, a qual orça entre os vinte e cinco a trinta mil euros, com recurso apenas a dávidas individuais.

Ora, é sabido que as populações do interior estão ficando cada vez mais reduzidas e claro, Outeiro Seco não é exceção, ainda que os cadernos eleitorais da freguesia não expressem muito essa redução, só que a maioria dos seus novos moradores pela nossa proximidade com a cidade, adquiriram aqui as suas casas, mas não os nossos costumes e tradições.

Como nos anos anos anteriores, muitos outeiro secanos não residentes, responderam ao chamamento da saudade e da fé na sua padroeira, vindo dos países de acolhimento, alguns da Europa, outros atravessaram mesmo o oceano, só para estarem presentes na sua festa.

O programa foi semelhante ao dos anos anteriores. No dia 6 realizou-se a Festa do Reco, um evento novo que, vai criando raízes e ganhando cada vez mais aderentes. Protagonizado por uma comissão independente da Comissão da Festa, mediante a aquisição de uma pulseira, os utentes usufruem do direito a comer sandes de porco assado e caldo verde, a divertir-se ao som de um conjunto musical e ainda a assistir a uma sessão de fogo de artifício, montado por elementos da própria organização, mas cada vez mais profissional.

No dia 7 à tarde houve o tradicional jogo entre os Casados e Solteiros, desta vez a taça foi para os solteiros por 4-3. Ao fim da tarde verificou-se ainda um outro evento, o qual já mereceu o meu comentário noutro local e abstenho-me de o comentar aqui. À noite realizou-se a Procissão das Velas, o momento do programa onde se agregam a maioria dos naturais e residentes, por causa da romagem ao cemitério, onde descansam os seus entes queridos.

Como sempre o programa do dia 8 cumpriu-se com a alvorada logo às oito da manhã, onde os entusiastas do fogo marcam presença in loco, fazendo uma avaliação das expetativas daquilo que os espera na sessão da noite.

Seguiu-se a arruada pela Banda local pelas ruas da aldeia, depois a missa e procissão, este ano apenas com seis andores, não sei se por falta de fé nos santos, se pelo preço dos andores, agora armados em flores naturais, orçando entre os duzentos e os trezentos euros.

A nossa festa, embora seja aquela que mais forasteiros recebe, estes só vêm à noite, sobretudo por causa do fogo. Durante a tarde há um concerto pela banda, mas os presentes, limitam-se aos outeiro secanos locais e pouco mais.

À noite são milhares de pessoas, vindas de todos os cantos da região, enchem os dois recintos, um onde atuam as duas bandas filarmónicas este ano a de Pontido do concelho de Vila Pouca de Aguiar e a de Cumieira do concelho de Santa Marta de Penaguião.

Apesar da distância donde vêm, estas bandas apresentam orçamentos mais compatíveis que as bandas do concelho, o que não deixa de ser um paradoxo.

No outro recinto atua o conjunto normalmente mais procurado pelo público mais jovem. Têm passado por aqui bons conjuntos, mas neste ano a atuação do TV5 não mereceu uma crítica muito favorável.

Como a maioria das pessoas vêm exclusivamente para ver o fogo-de-artifício, após uma breve visita à igreja a fim de verem os andores, perfilam-se logo no local mais apropriado, quer do ponto de visão como de segurança.

Creio que muitos nem se apercebem, da beleza do templo, um monumento românico classificado como monumento nacional, este ano mais enriquecido com quatro telas restauradas e que cobrem toda a parede da capela mor, além dos frescos cada vez mais esbatidos das paredes laterais, mas que encerram ainda grande beleza.

O fogo-de-artifício esteve a cargo da empresa Minhota, e a julgar pelos aplausos no final da sessão, esteve à altura das expectativas dos milhares de forasteiros, os quais após o fogo partem logo em debandada para as suas terras não esperando pelo final do arraial às duas da manhã e assim não assistindo a um dos momentos altos da festa que é a despedida das bandas e a homenagem à santa padroeira, com a volta à igreja.

Está de parabéns toda a população de Outeiro Seco por mais uma vez manter esta tradição secular, mas sobretudo aqueles que com o seu empenho e sacrifício, tornaram esta festa possível, ou seja as Comissões da Festa do Reco, Comissão dos Casados e Comissão dos Solteiros.

Um destaque para o Costinha e os primos Gonçalves, que neste ano em matéria de fogo-de-artifício, quase competiram com a Minhota.

Por tudo isto viva Outeiro Seco! E porque para o ano há mais, podemos dizer com propriedade que não há festa como esta.

 

 

 

publicado por Nuno Santos às 09:31

Julho 26 2017

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Nas muitas estórias fantásticas que constam da memória coletiva de Outeiro Seco, o forno do Có está ainda ligado a um outro mendigo, que, nas suas frequentes passagem pela ladeia, ali pernoitava. Apesar de já não se saber o nome, dizia-se dos lados do Vidago.

 Tal como os restantes não tinha ter eira nem beira, além disso, este mendigo era ainda apoquentado pelo espírito de um militar que, fora morto por uma patada de um cavalo, quando cumprira o serviço militar, no regimento de cavalaria de Chaves.

 De vez em quando e sem vir nada a propósito, este homem entrava em transe, saindo-lhe do interior uma voz que, nada tinha a ver com o tom de voz como falava, em estado natural.

Embora haja uma grande contradição no seio da igreja católica, sobre a temática dos espíritos, o certo é que a Bíblia tem várias passagens, citando a sua existência. Uma delas é a missão dos doze ou seja, a dos doze apóstolos que é:

Missão dos Doze (Mc 6,7-11; Lc 9,1-6; 10,1-11) - 5Jesus enviou estes doze apóstolos, depois de lhes ter dado as seguintes instruções: «Não sigais pelo caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. 6Ide, primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel. 7Pelo caminho, proclamai que o Reino do Céu está perto. 8Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça. 9Não possuais ouro, nem prata, nem cobre, em vossos cintos; 10nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem cajado; pois o trabalhador merece o seu sustento.

Ora, nas frequentes passagens pela aldeia, por mais de uma vez o pobre homem foi apoquentado pelo espírito do militar, dizendo que penava neste mundo, por causa do incumprimento de uma promessa ao São Caetano.

A maioria das pessoas que assistiam à cena dividia-se quanto ao fenómeno. Uns diziam que aquilo era de facto uma situação sobrenatural, outros que não passava de uma encenação, para captar maior pena e compaixão, a fim de recolher mais dádivas.

Crentes ou não mas corajosos, os jovens António Salgado, António Castro e Augusto dos Santos, decidiram levar o homem ao São Caetano, para que se consumasse o descanso eterno da alma penada.

Assim num tórrido dia de verão, ainda que não fosse no dia da festa do santo, a qual se comemora no segundo domingo de Agosto, os três jovens montaram o mendigo num burro da tia Ana Barroca, mãe do António Salgado, rumando até ao São Caetano pelo antigo estradão da Torre.

 No início do percurso tiveram logo um constrangimento, o mendigo não estava habituado a montar e não se segurava na montada, ultrapassaram a situação, atando o homem ao dorso do burro, como se fosse uma carga.

A viagem durou mais de duas horas, chegados ao São Caetano, deram duas voltas com o mendigo à capela do santo, cumprindo assim o desejo do espírito.

Cumprida a promessa os rapazes ouviram do interior do mendigo o agradecimento pelo seu gesto e que doravante, a sua alma ficaria em descanso.

Os rapazes sentiram um misto de espanto e satisfação pela missão cumprida, quanto ao mendigo, pelo menos nas suas passagens pela aldeia, jamais se verificou o aparecimento do espírito.

publicado por Nuno Santos às 07:37

Julho 25 2017

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Bai te por essa calle abajo, ter al forno do concelho” quem diz isto é o  Caldeireiro ao seu ajudante, numa das quadras do Auto de Natal, o Ramo, infelizmente representado com bastante intermitência em Outeiro Seco, embora tal como o Acto da Paixão,  façam parte do património imaterial de todos os outeiro secanos.

O pão e a batata sempre foram a base da alimentação das populações rurais, mas para se cozer o pão, são necessários fornos, que, nas aldeias serviam ainda também de estalagem aos pedintes, uma espécie de sem abrigo dos tempos modernos, que deambulavam de terra em terra, pedindo uma esmola, em nome de Deus ou pelas almas de quem as lá tinha.

Em Outeiro Seco, não há memória da existência de um forno do povo. O pão cozia-se em fornos privados, espalhados pelos bairros da aldeia. Alguns desses forneiros viviam praticamente dessa atividade. Aqueciam o forno, indo buscar a lenha a casa das donas da fornada, que apenas amassavam a farinha e tendian o pão.

No bairro do Eiró coexistiam os fornos do Joaquim Félix e da Delfina Carreira. No bairro do Penedo, o da Antónia Sanches, um dos mais procurados, estando até na origem da alcunha do seu filho José Ferreira, ficando conhecido como o Zé do Forno. No bairro do Papeiro não havia fornos, donde os seus moradores, tinham de  recorrer aos fornos dos outros bairros.

O bairro do Pontão onde se concentrava o maior núcleo populacional da aldeia, havia ali vários fornos. Os mais conhecidos eram o forno dos Canelhas ou da Tenreira, porque a forneira chamava-se Maria Tenreira, originária de Vilarelho da Raia e o Forno do Có, assim conhecido, por causa de uma tragédia que ali ocorreu.

Este forno fora propriedade de Teresa Merceana, mas devido à sua morte precoce, e porque era solteira, passou por herança para a sua irmã Rita Merceana, casada com Adriano Lara. Durante muitos anos o forno foi explorado em regime de concessão, primeiro pela família Agrela, depois por Maria Mafalda, minha avó paterna.

O forno porque estava situado junto ao largo do tanque, bem no centro da aldeia, era muito procurado não só para cozer o pão, mas também como albergue dos pedintes que, apareciam com alguma regularidade na aldeia.

Nas frias noites de inverno, por condescendência da forneira esses pedintes aqueciam o corpo, e muitas vezes aconchegavam o estômago, quando por misericórdia, ou pela alma de quem lá tinham, a dona da fornada lhes dava uma pequena bola quente, ou uma parte dela.

Uns dos muitos mendigos que aparecia com regularidade na aldeia, dizia-se dos lados do Barroso, embora não fosse esse o seu nome de batismo, era conhecido pelo Có, epíteto para alguém que é pouco expedito, e talvez por isso o Có  em vez de ser um homem de trabalho ativo, era um mendigo nómada.

Quando pernoitava na aldeia depois da última fornada, o Có tinha por hábito meter-se dentro do forno, abrigando-se assim do frio, sem precisão de cobertores. Só que um dia um grupo de rapazes decidiu pregar-lhe uma partida.

Sem medirem as consequências do acto, enquanto o homem dormia, taparam-lhe a entrada do forno com a porta. Por via disso, o pobre homem morreu asfixiado por falta de oxigénio.

Na manhã seguinte, quando a forneira, a minha avó, se preparava para acender ao forno, deparou-se com o corpo do mendigo já cadáver. Embora reportasse de imediato o caso ao regedor, o certo é que ninguém reclamou na justiça, a morte do infeliz, por isso a morte do Có ficou impune, só que doravante, esse forno passou a ser designado pelo forno do Có.

 

publicado por Nuno Santos às 00:42

Junho 29 2017

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O mês de junho é o mês dos santos populares, razão pela qual assistimos um pouco por todo o lado, às suas comemorações, misturando-se a parte religiosa do tributo aos santos pelas graças concedidas, com a festa pagã, mais virada para a folia e diversão.

O primeiro é o Santo António, cujos festejos atingem o seu expoente máximo em Lisboa, seguindo-se depois o São João e o São Pedro. Claro que o São João do Porto, é aquele que, concita uma maior atenção mediática, ainda que rivalizando um pouco com o de Braga, mas há muitos outros festejos do São João espalhados pelo país, como o de Almada e de outras localidades.

Com o São Pedro é precisamente o mesmo e quem ontem viu televisão, soube da devoção e tradição que este santo tem na Póvoa de Varzim, mas também no Montijo e em Sintra.

Curiosamente estes festejos têm todos um denominador comum, o forte envolvimento das respetivas autarquias no tocante à parte económica, suportando estas, uma boa parte da despesa, nomeadamente a do fogo-de-artifício. A propósito o fogo-de-artifício do São João no Porto neste ano, foi espetacular.

Mas independente do envolvimento das autarquias, assistimos também um grande envolvimento das populações, esforçando-se por manter vivas as tradições, honrando desse modo, a memória dos seus antepassados. No Porto, alguém faz a cascata do São João, porque herdou as figuras do seu avô e quer preservar a sua memória e a tradição. O mesmo se passa com os tronos de São Pedro na Póvoa de Varzim, nos desfiles etnográficos de Braga ou nas marchas de Lisboa.

Em Outeiro Seco também existia uma tradição no São Pedro. Armava-se uma espécie de trono no largo do tanque, feito com os vasos das flores roubados às donas de casa durante a noite, mas também com artefactos usados pelos lavradores que, descuidadamente os deixavam na rua nessa noite.

 Mas, a maior tradição da aldeia é sem dúvida em setembro, com a comemoração das festas da Senhora da Azinheira e do São Miguel, sobretudo o arraial da Senhora da Azinheira. Aqui manda a tradição que, a comissão nomeada para a organização da festa seja rotativa, tocando assim a todos os bairros, sendo que, neste ano, a comissão nomeada pertença ao bairro do Eiró.

Embora ainda falte algum tempo, para a data da festa, parece haver um silêncio ensurdecedor, levando em crer que, a comissão nomeada, vá resignar à organização da mesma, quebrando-se assim uma tradição à qual o bairro do Eiró esteve sempre associado, nomeadamente pela vitória conquistada no despique entre os bairros, realizado no ano de 1945.

Bem sei que vivemos outros tempos, e a proximidade de Outeiro Seco com a cidade, ajudou na descaracterização desse bairrismo. Mas por outro lado a cidade, tem sido nos últimos anos, a maior fonte de financiamento da festa.

Se calhar chegou o tempo de se encontrar um outro modelo para a organização da festa, assim em vez de se nomear uma comissão que, nunca se sabe se aceita a nobre missão de organizar a festa, passar a ser a própria Junta de Freguesia que, juntamente com os restantes elementos da Assembleia de Freguesia e a Comissão da Igreja, organizem em conjunto, as festas da Senhora da Azinheira e o São Miguel.

Embora não residente e cada vez com menor ligação funcional que não sentimental à aldeia, é com tristeza que vejo o desaparecimento dessas tradições do passado, porque uma terra sem passado não tem futuro. Ora todos nós conhecemos o brilhante passado da nossa terra, mas para o preservar, há que viver o presente e esse, é agora.

 

  

 

  

 

publicado por Nuno Santos às 08:51

Junho 19 2017

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 Foto do Público

 

O terrível incêndio de Pedrógão Grande, considerado desde já o maior de sempre em Portugal, por causa do número de vítimas causadas, trouxe à discussão temas recorrentes, como o ordenamento do território, a prevenção e o combate aos incêndios, além de outros temas como a cobertura televisiva.

Embora atento ao acontecimento, tenho evitado assistir às reportagens televisivas, sobretudo à sistemática repetição das imagens telivisivas, assim como às explicações de técnicos de gabinete, a maioria dos quais, nunca se viu confrontado com um incêndio.

Claro que o tema é muito controverso, digo isso porque já me vi confrontado de perto com este fenómeno, por mais de uma vez. Há poucos anos em Vilela Seca, concelho de Chaves, ajudei a estender as mangueiras aos bombeiros de Vidago, quando o fogo estava a cerca de três ou quatro quilómetros de distância. Ainda não tínhamos acabado de estender as mangueiras e tivemos de fugir, levando o carro as mangueiras de rasto, porque o fogo, já estava em cima de nós. Valeu-nos a circunstância de estarmos numa estrada asfaltada e ter sido fácil a escapatória.

Sobre este incêndio não deixa de ser paradoxal que, quando o mesmo ainda não se extinguiu, assim como não se tenham identificado todas as vítimas nem feito os funerais, já se procurem culpados desta catástrofe, mas em meu entender as suas causas estão muito a montante, desde logo no ordenamento do território.    

Ora, quando nas cidades do interior se fecham escolas, maternidades e outros serviços hospitalares, e as empresas e os serviços são deslocalizados para o litoral, contribuindo para a sua desertificação destas regiões, claro que se está a potenciar os incêndios.

Eu estive apenas por duas vezes nesta região, tendo almoçado numa delas em Figueiró dos Vinhos. Uma das coisas que me chamou a atenção foi a quantidade de casas solarengas ali existentes, muitas delas em estado de abandono, sinais dessa mesma desertificação.

A imagem publicada hoje na capa do Público é ilustrativa dessa realidade, atente-se na densidade deste pinhal, além de contribuir para uma maior propagação dos incêndios, contribui também uma menor rentabilidade económica do mesmo. Ora estando este pinhal à beira de uma estrada, quem é o responsável pelo seu estado? Claro que em primeiro será o proprietário, mas tratando-se de um depósito de combustão não existe uma fiscalização que obrigue à sua limpeza?

publicado por Nuno Santos às 20:37

Junho 11 2017

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                                                                  Foto Humberto Ferreira

 

Embora os censos indiquem que sejamos cerca de dez milhões de portugueses, há outros indicadores que dizem que seremos cerca de quinze milhões, espalhados pela diáspora, isto é pelos cinco continentes.

A prova disso é que no espaço de pouco mais de uma semana, os sinos da nossa igreja tocaram três vezes, anunciando a morte de outros tantos outeiro secanos, tendo em comum, o facto de terem nascido e vivido na nossa aldeia parte das suas vidas, mas por razões circunstanciais, tiveram de fazer as suas vidas noutros paradeiros, sem contudo perderem as suas raízes.

por via disso os seus familiares, fizeram questão que, o sino da nossa igreja que, quando dos seus batismos anunciou ao povo o seu nascimento, agora nas suas mortes anunciasse também a sua despedida.

A primeira vez foi a Aninhas Florista, lamento já não me lembrar do apelido verdadeiro, ainda que tivesse nascido em Guimarães, tal como o seu irmão, o Zé Sapateiro, foi em Outeiro Seco que cresceu e se fez mulher aqui casando e criado os seus filhos.

Mais tarde emigrou para os Estados Unidos, donde regressou para viver os seus últimos dias. Só que a vida dá muitas voltas e afinal, quem veio para ficar foi o seu marido, João Floristo, este sim nascido e criado na aldeia. Viúva e com a família toda nos Estados Unidos, a Aninhas acabou por regressar para junto dos seus, dos quais se separou em definitivo, na passada semana.

A segunda vez que o sino tocou foi pelo José Lopes, mais conhecido na aldeia como o Zé Chibinha. O Zé era o mais novo de quatro irmãos, dois rapazes e duas raparigas todos eles ainda vivos. Ao que parece, a vida terá sido um pouco madrasta para o Zé, lá por terras de França, razão pela qual poucas vezes nos visitava no verão, ao contrário da maioria dos emigrantes que regressam quase todos os anos por altura das férias.

Quem também nos visitava frequentemente, em especila por altura da festa da Sra da Azinheira, era a Maria do Céu Pinho, mais conhecida por Céu Vigária. A partir de hoje jamais o fará, porquanto, faleceu em Lisboa. O sino que tantas vezes tocou para as orações rezadas pela sua avó, a senhora Maria dos Anjos, toca hoje a finados pela sua neta Céu.

Convivi com todos eles ainda embora mais com a Céu, porque durante anos fomos vizinhos no Bairro Alto em Lisboa. Por isso deixo aqui os sentidos pêsames a todas as famílias enlutadas, em especial à Fernanda e ao Mári,o pois, pelo facto de ter vindo justamente neste fim de semana a Chaves, não poderei estar presente nas cerimónias fúnebres. Paz às suas almas.

Nota - Por ironia ontem o sino tocou duas vezes a finados, a primeira vez pela Céu Pinho falecida em Lisboa e ali enterrada, fazendo companhia ao seu marido Ângelo.

Em seguida, tocou pelo António Pereira do Rio Costa mais conhecido como o António "Caneco". O António nasceu em 03-09-1933 falecendo ontem dia 11 de junho de 2017 vítima de doença prolongada. O seu corpo está em câmara ardente na capela mortuária de Outeiro Seco e o seu funeral será hoje segunda-feira às 17 horas. À Lula sua esposa e restante família, apresentamos os sentidos pêsames.

 

 

 

publicado por Nuno Santos às 11:38

Junho 03 2017

Quem tem medo de V W.jpg

Depois de Plaza Suite no Teatro Tivoli a dupla Diogo Infante e Alexandra Lencastre regressou ao palco, desta vez no Teatro da Trindade, para interpretarem o clássico “Quem tem medo de Virgínia Woolf.

Porque morei alguns anos no Largo de Camões, tornei-me num frequente espetador do Teatro da Trindade, tendo ali assistido à exibição de grandes peças de teatro, mas também de outros espetáculos, recordando-me de uma atuação da flaviense Teresa Ventura, cuja carreira deixei de seguir, por ignorância minha ou se por abandono seu!

Quanto ao Teatro da Trindade e por causa dessa proximidade, também fui assistindo à sua degradação, ao ponto de se tornar penoso assistir ali a um espetáculo, por causa da incomodidade das cadeiras.

Felizmente este teatro um dos mais belos de Lisboa, foi requalificado, ganhando de novo comodidade e dada a sua capacidade, torna assim possível que, mais público possa usufruir da sua programação.

Claro que a cidade de Lisboa beneficia muito da proximidade dos grandes artistas, pois mesmo entre as gravações de novelas ou de outras séries televisivas, podem representar peças de teatro. Alguns fazem-no por necessidade artística pois o Teatro é a sua essência como artistas, enquanto as novelas e outras representações, são a sua sobrevivência.

A peça em cena embora não escrita por Virgínia Woolf, tem como referência os jogos psicológicos entre os casais, sendo que nestas circunstâncias nem sempre tenham finais felizes. A representação destes dois monstros do teatro nacional é que é sempre brilhante.

 

publicado por Nuno Santos às 09:54

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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