Outeiro Secano em Lisboa

Março 29 2018

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Parafraseando o Diácono Remédios “não havia nexexidade” deste ambiente tão hostil, no discurso dos dirigentes desportivos. Curiosamente, o criador da figura do Diácono Remédios foi o humorista José de Pina, o qual ficou imortalizado no programa Herman Enciclopédia. Acontece que o próprio José de Pina é agora comentarista num desses programas da bola, o Prolongamento, o qual passa na TVI 24 às segundas-feiras, em defesa do seu clube o Sporting.

Em minha opinião este ambiente ficou ainda mais inquinado, quando os principais clubes passaram a ter centrais de comunicação liderados por jornalistas, a maioria deles vindos da área política, secundados depois por comentaristas televisivos e outros nas redes sociais, os quais recebem um guião, passando por isso a ser designados por cartilheiros.

É o caso dos comentadores do Benfica os quais, defendem esse guião até à exaustão, como se uma mentira repetida muitas vezes passasse a ser verdade.

Ora, se já antes o ex-político Jorge Coelho disse, “quem se mete com o PS leva”, o atual presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, defende essa mesma matriz, quem se mete com o Sporting leva. E se os outros presidentes dos outros clubes, regra geral mandam os seus colaboradores dizer, Bruno de Carvalho embora em boa verdade, quase sempre de forma reativa, não se escusa de vir ele próprio defender o seu clube, usando por vezes uma forma algo virulenta, com a qual nem sempre me identifico, e muito diferente do que estávamos habituados com os presidentes que o antecederam.

Só que nessa altura o Sporting certinho e direitinho era acusado de calimero, os seus rivais diziam que o Sporting passava a vida a queixar-se de tudo e todos. Em contrapartida os seus principais rivais, foi fartar vilanagem e agora até organizam gabinetes de crise para se defenderem das agressões, apesar de serem eles os prevaricadores, estando por isso a ser investigados.

Mas continuo a pensar que tudo isto é despropositado e sem sentido, o desporto deve-se praticar exclusivamente nos recintos desportivos. Muita dessa rivalidade é virtual pois passa-se entre colegas de trabalho e até meios familiares como é o meu caso em que tenho dois irmãos benfiquistas. Este ano até foi criada uma ferramenta que apesar de ainda manter algumas limitações, pode ajudar a repor a verdade desportiva, como é o caso do VAR o vídeo árbitro.

 Agora não faz nenhum sentido que, em vésperas de confrontos desportivos sejam criados casos como aconteceu recentemente com o Braga-Sporting ou o discurso do presidente do Benfica nos Açores.

E se em Braga esperamos que os bracarenses estejam mais concentrados nas celebrações da semana santa, diz-se no entanto que quem semeia ventos colhe tempestades, e como se sabe, é dos Açores que costumam vir as depressões atmosféricas que, afetam o clima no continente, e sem dúvida que as declarações vindas dos Açores, trouxeram uma grande depressão para o continente, que ameaça até chegar à UEFA.

    

  

publicado por Nuno Santos às 09:08

Fevereiro 18 2018

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22-09-1913 - 17-02-2018

 

Faleceu ontem a tia Bia (Maria da Costa) a última das nossas centenárias (cento e cinco anos) uma das referências da nossa terra, pelo seu exemplo de vida.

 Depois de uma precoce viuvez a tia Bia criou e educou sozinha cinco filhos, os quais são um exemplo de cidadania. Foi uma das maiores embaixadoras da nossa aldeia na cidade, distribuindo durante décadas o nosso leite de porta à porta, contribuindo desse modo para a economia doméstica de muitas famílias outeirosecanas.

Em devido tempo foi possível prestar-lhe um singelo tributo, registado em livro conjunto com outra centenária também recentemente falecida, a tia Amélia.

A semana passada ainda tive o privilégio de a visitar no Hospital de Chaves, mas devido a circunstâncias da vida, tive de regressar a Lisboa, não podendo por isso acompanhá-la à sua última morada, o qual ocorrerá amanhã, a hora ainda a designar.

A toda a família enlutada aqui ficam os meus sentidos pêsames, esperando que toda a comunidade se associe prestando à Tia Bia a última homenagem mais que merecida.

publicado por Nuno Santos às 15:05

Janeiro 28 2018

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foto do Record

Ontem cumpriu-se a máxima de que, não há duas sem três e depois de duas finais perdidas nos penaltis, à terceira foi de vez, caindo a sorte para o lado do Sporting, vencendo assim a Taça da Liga. Claro que não deixarão de surgir os comentários, de que o Sporting foi um vencedor injusto, porque as incidências do jogo indicam de que deveria ser o Vitória de Setúbal o vencedor, ainda que se esqueçam de que, face às mesmas incidências do jogo, os finalistas deveriam ser outros, pois na meia-final, a Oliveirense pelo que jogou e pelas oportunidades criadas, também merecia ter eliminado o Vitória de Setúbal.

Mas voltando ao jogo de ontem, claro que como sportinguista fiquei satisfeito com a vitória, tanto mais que colocou o Sporting na galeria dos vencedores, isto é; ganhando tudo o que há para ganhar em Portugal, igualando assim o seu grande rival o Benfica, tendo ambos ganho: Campeonato Nacional, Taça de Portugal, Supertaça, e Taça da Liga.

O Porto, ainda que tenha obtido já outras vitórias internacionais, ainda não ganhou a Taça da Liga. É verdade que houve anos, em que o Porto tal como o Sporting desvalorizaram este trofeu, porém, não foi o caso desta época, tendo apostado todas as fichas, recorrendo os dois clubes aos seus melhores plantéis. O Sporting na primeira fase da prova, nomeadamente no jogo com o Marítimo e o União da Madeira, ainda apresentou uma equipa alternativa.

Mas ontem tendo jogado com a sua melhor equipa disponível, o Sporting apresentou várias lacunas e a falta de Gelson Martins torna a equipa sem dinâmica.

Ora se quisermos ser campeões, o Sporting necessita urgentemente de ir ao mercado, e trazer alguém que possa substituir o Gelson nas suas ausências, uma vez que deixou sair Iuri Medeiros, porque Ruben Ribeiro não é um extremo como se tem visto e Bryan Ruiz já não tem a dinâmica de outrora, tanto mais que esteve afastado da equipa durante muito tempo.

Agora é tempo de comemorar mas também de reflexão sobre o que fazer para melhorar a equipa, pois o universo sportinguista está sedento de vitórias, nomeadamente do campeonato e da taça.  

publicado por Nuno Santos às 11:19

Janeiro 26 2018

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foto da internet

 

Se ainda fosse viva a minha tia Ester, faria hoje oitenta e sete anos, e juntaria a família residente na aldeia para comemorar mais um aniversário, assim como receberia as felicitações dos outros familiares não residentes. Mas de uma coisa eu tenho de certeza, ela não deixaria de evocar, o dia em que celebrou os seus sete anos.

Não porque tivesse uma festa de aniversário sumptuoso, ou recebido um presente extraordinário, mas por causa do acontecimento insólito ocorrido nesse dia, o qual ficou gravado para sempre, na sua memória.

Decorria o ano de 1938 e o dia estava muito frio, como é habitual nesta época do ano, pois lá diz o ditado” janeiro geadeiro”. Como o sino ainda não tinha tocado às santíssimas trindades, em sinal de recolher obrigatório para a pequenada, a Ester brincava ainda na rua com as amigas, convidadas para o lanche que, a mãe lhe fizera como festa de anos, composta de pão e compotas, sobretudo de marmelada.

Embora o sol já tivesse escondido no ocaso, estranhamente o céu ainda não escurecera, para alegria das raparigas que assim prolongavam a brincadeira. Entretanto interromperam-na subitamente, quando se aperceberam que dos lados do São Caetano, aproximava-se um vermelhão, mais parecendo que o céu estava a arder. Assustadas, fugiram cada uma para suas casas, buscando proteção junto das suas mães.

Mas, quando as mães viram tal coisa, concluíram estar a cumprir-se a profecia, de se estar perante o fim  do mundo, desta vez em forma de fogo, em contraponto com o do Dilúvio.

Ora, perante este cenário restava-lhes procurar a salvação na igreja. O padre João da Lampaça com outra cultura, esforçava-se para os acalmar, dizendo-lhes que aquilo se tratava de um fenómeno da natureza, mas estes queriam era receber a sua absolvição, para poderem entrar puros, no reino de Deus.

Os momentos vividos na igreja foram terríficos, havia famílias inteiras abraçadas a chorar e a rezar, outros subiram aos altares e abraçando-se aos santos, pensando que assim mais perto, seriam ouvidos melhor. Uma mulher retirou as argolas das orelhas e doou-as à nossa senhora, embora as recolhesse no dia seguinte, quando se apercebeu que o mundo retomara o seu ciclo de vida normal.

 Afinal o vermelhão não fora outra coisa, senão uma aurora boreal, uma coisa rara na nossa latitude, embora frequente nos países a norte do planeta. O Zé Barroco que era um homem viajado e fora emigrante na América, não se deixou intimidar com o fenómeno e enquanto o povo fugira para a igreja ele jantava tranquilamente em sua casa.

 O mesmo já não se passava com a sua afilhada Júlia, que de coração apertado não conseguia comer.

O Zé Barroco bem insistia – Come Júlia! Mas a menina só dizia.

- Oh padinho num se m’ingole!

 

publicado por Nuno Santos às 13:22

Janeiro 20 2018

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É uma triste sina, apesar de Chaves ser uma cidade com tudo para estar na linha da frente, no tocante ao turismo, porque além do seu vasto património, tem uma excelente oferta hoteleira,  são mais as vezes que a vimos citada nos meios de comunicação, por maus do que por bons motivos.

A avaliação positiva nem sequer é minha porque sendo eu flaviense embora não residente, sou suspeito para dizer bem da minha terra, mas ainda este ano numa visita à Irlanda, a guia turística que dava assistência ao grupo onde me inseria, dizia-me do potencial que encontrou em Chaves, para estar inserida num roteiro turístico, de interesse para grupos estrangeiros.  

Esta semana e depois do jornal o Público, ter denunciado a situação degradante do caso do Museu Termal, ontem foi a vez do programa televisivo Sexta às 9 trazer também o caso à colação. Ainda dizem que os alentejanos são um povo dolente, que gosta de dormir à sombra do chaparro. Em Chaves dorme-se sobre os assuntos, a não ser meia dúzia de pessoas que os vai comentando em conversa de café (Sport), não me recordo de qualquer petição ou movimento cívico, contestando os atentados feitos ao seu património. Claro que como não residente não estarei a par de tudo, mas vou muitas vezes a Chaves e sou assinante do jornal “A voz de Chaves”, e não tenho visto estes temas ali discutidos.

Tudo começou com a destruição do Mercado e da sua muralha, dando lugar à aberração que é o Centro Comercial Charlot. Depois foram a destruição do Jardim das Freiras e agora do Jardim do Bacalhau. Seguiram-se os gastos com a construção do Centro Cultural, uma sala minimalista incapaz de receber espetáculos de grande dimensão, quando já tinham comprado o antigo Cine Teatro, para continuar fechado. Isto sem falar do Solar dos Montalvões na minha aldeia, propriedade da Câmara Municipal onde também eu faço mea culpa pela minha inércia, mas confesso que sempre pensei estar salvaguardado, pelo protocolo de utilização com a UTAD.  

Sobre o Museu de Arte Contemporânea a situação a minha opinião é um pouco diferente, porque a sua construção, além de receber o espólio de um dos maiores artistas nacionais, veio requalificar uma zona perdida para a cidade, a Canelha das Longras.

Agora a sua vitalidade dependerá da dinâmica que lhe imprimam, devendo ser feitas parcerias com outras entidades, nomeadamente Serralves e outros museus, aproximar o MAC das Escolas, criando o hábito da visita aos museus nos seus alunos e por contágio destes, ao seu meio familiar.

É a vida, vivemos numa democracia e o povo escolhe livremente os seus eleitos, por sua vez estes consideram-se apenas penalizados pelos erros cometidos, em resultado dos votos obtidos em sufrágio, quando das eleições, contudo eu acho que, quando estão em causa elevados prejuízos materiais, como no caso do Museu Termal, a Justiça deveria  averiguar se houve ou não aproveitamento, de tão elevados gastos.   

 

publicado por Nuno Santos às 11:40

Dezembro 31 2017

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Se há coisa que me fascina em Outeiro Seco para lá das pessoas, é sem dúvida o nosso rio pequeno. Além da beleza que acrescenta à aldeia, o rio, apesar dos serviços cartográficos o designarem por Ribeira da Torre, será para nós outeiro secanos, sempre o nosso rio pequeno.

Graças à sua excelente localização, dividindo literalmente a aldeia em dois, tal como o equador o faz em relação à Terra, é a razão pela qual o rio não seja reivindicado pelo Eiró nem pelo Pontão, mas um património de todos os outeiro secanos.

Só que neste ano o rio ainda não é de ninguém, porque apesar de estarmos no fim de dezembro, paradoxalmente o “vaidoso” como lhe chamamos, porque aparece sempre num domingo, mostrando-se quando as pessoas vão para a missa, ainda não apareceu, nem tão pouco há expetativas de quando irá aparecer, não havendo memórias de uma aparição tão tardia.

É verdade que vivemos em ano de seca e em alguns locais do país de seca extrema, mas não existe na aldeia ninguém que se lembre, do rio não correr debaixo das pontes, entre os Santos e o Natal.

Quando da minha última estada aí pelo natal, foi estranho não ver correr o rio. Bem sei que já não tem a importância socioeconómica de outros tempos, quando as mulheres lavavam no rio a roupa, as leiteiras os cântaros onde transportavam o leite para a cidade, agora até os proprietários das hortas contíguas e ribeirinhas, já não regam do rio, não se vendo por isso os baldões nem os garabanos, utilizados para tirarem a água do rio, porque o custo de produção desses produtos hortícolas saem mais caros, do que comprá-los no dia de mercado ou nos supermercados.

Durante anos houve em minha casa alguma discussão entre mim e o meu filho, porque sendo ele estudante de engenharia ambiental, dizia que num futuro breve, iriamos colher os malefícios daquilo que estávamos a fazer ao nosso planeta, contribuindo para o seu aquecimento, porquanto isso iria-se refletir em secas e desregulações climáticas.

Confesso que demonstrei sempre o meu ceticismo sobre esse tema, porém, hoje tenho de fazer mea culpa, reconhecendo que isso aconteceu mais rápido do que eu imaginava.

Agora a nossa discussão terá de ser outra, nomeadamente, fazermos planeamentos para o armazenamento da água, para quando for preciso. Por exemplo o nosso rio pequeno, numa boa parte do ano a sua água perde-se no Tâmega.

Ora é tempo de os responsáveis autárquicos e outros interessados, começarem a pensar numa melhor forma da melhor utilização dessa água, construindo por exemplo uma barragem na Serragem ou no Cotete, assim além de condicionarem o seu caudal ao longo do ano, poderiam ainda fazer um aproveitamento para produção elétrica à semelhança do que se faz noutras paragens eu próprio já as vi por exemplo na Noruega, com grandes poupanças para as populações locais.  

Aproveito para desejar a todos os outeiro secanos espalhados pela diáspora, um Bom Ano cheio de saúde e prosperidades.       

 

publicado por Nuno Santos às 12:43

Dezembro 17 2017

 

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Apesar deste período sabático imposto ao  Blogue, por mera opção pessoal, desejo a todos os outeiro secanos residentes e não residentes, um Santo Natal e um Ano Novo cheio de prosperidades. 

publicado por Nuno Santos às 10:32

Setembro 11 2017

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Depois da festa costuma dizer-se, "estamos sem festa e sem dinheiro", porém, reside em todos os outeiro secanos uma enorme satisfação e orgulho, pelo cumprimento de mais um ano de tradição, apesar das dificuldades na montagem deste evento, serem cada vez maiores.

Dificuldades que se prendem sobretudo com a angariação dos fundos necessários para a realização da festa, a qual orça entre os vinte e cinco a trinta mil euros, com recurso apenas a dávidas individuais.

Ora, é sabido que as populações do interior estão ficando cada vez mais reduzidas e claro, Outeiro Seco não é exceção, ainda que os cadernos eleitorais da freguesia não expressem muito essa redução, só que a maioria dos seus novos moradores pela nossa proximidade com a cidade, adquiriram aqui as suas casas, mas não os nossos costumes e tradições.

Como nos anos anos anteriores, muitos outeiro secanos não residentes, responderam ao chamamento da saudade e da fé na sua padroeira, vindo dos países de acolhimento, alguns da Europa, outros atravessaram mesmo o oceano, só para estarem presentes na sua festa.

O programa foi semelhante ao dos anos anteriores. No dia 6 realizou-se a Festa do Reco, um evento novo que, vai criando raízes e ganhando cada vez mais aderentes. Protagonizado por uma comissão independente da Comissão da Festa, mediante a aquisição de uma pulseira, os utentes usufruem do direito a comer sandes de porco assado e caldo verde, a divertir-se ao som de um conjunto musical e ainda a assistir a uma sessão de fogo de artifício, montado por elementos da própria organização, mas cada vez mais profissional.

No dia 7 à tarde houve o tradicional jogo entre os Casados e Solteiros, desta vez a taça foi para os solteiros por 4-3. Ao fim da tarde verificou-se ainda um outro evento, o qual já mereceu o meu comentário noutro local e abstenho-me de o comentar aqui. À noite realizou-se a Procissão das Velas, o momento do programa onde se agregam a maioria dos naturais e residentes, por causa da romagem ao cemitério, onde descansam os seus entes queridos.

Como sempre o programa do dia 8 cumpriu-se com a alvorada logo às oito da manhã, onde os entusiastas do fogo marcam presença in loco, fazendo uma avaliação das expetativas daquilo que os espera na sessão da noite.

Seguiu-se a arruada pela Banda local pelas ruas da aldeia, depois a missa e procissão, este ano apenas com seis andores, não sei se por falta de fé nos santos, se pelo preço dos andores, agora armados em flores naturais, orçando entre os duzentos e os trezentos euros.

A nossa festa, embora seja aquela que mais forasteiros recebe, estes só vêm à noite, sobretudo por causa do fogo. Durante a tarde há um concerto pela banda, mas os presentes, limitam-se aos outeiro secanos locais e pouco mais.

À noite são milhares de pessoas, vindas de todos os cantos da região, enchem os dois recintos, um onde atuam as duas bandas filarmónicas este ano a de Pontido do concelho de Vila Pouca de Aguiar e a de Cumieira do concelho de Santa Marta de Penaguião.

Apesar da distância donde vêm, estas bandas apresentam orçamentos mais compatíveis que as bandas do concelho, o que não deixa de ser um paradoxo.

No outro recinto atua o conjunto normalmente mais procurado pelo público mais jovem. Têm passado por aqui bons conjuntos, mas neste ano a atuação do TV5 não mereceu uma crítica muito favorável.

Como a maioria das pessoas vêm exclusivamente para ver o fogo-de-artifício, após uma breve visita à igreja a fim de verem os andores, perfilam-se logo no local mais apropriado, quer do ponto de visão como de segurança.

Creio que muitos nem se apercebem, da beleza do templo, um monumento românico classificado como monumento nacional, este ano mais enriquecido com quatro telas restauradas e que cobrem toda a parede da capela mor, além dos frescos cada vez mais esbatidos das paredes laterais, mas que encerram ainda grande beleza.

O fogo-de-artifício esteve a cargo da empresa Minhota, e a julgar pelos aplausos no final da sessão, esteve à altura das expectativas dos milhares de forasteiros, os quais após o fogo partem logo em debandada para as suas terras não esperando pelo final do arraial às duas da manhã e assim não assistindo a um dos momentos altos da festa que é a despedida das bandas e a homenagem à santa padroeira, com a volta à igreja.

Está de parabéns toda a população de Outeiro Seco por mais uma vez manter esta tradição secular, mas sobretudo aqueles que com o seu empenho e sacrifício, tornaram esta festa possível, ou seja as Comissões da Festa do Reco, Comissão dos Casados e Comissão dos Solteiros.

Um destaque para o Costinha e os primos Gonçalves, que neste ano em matéria de fogo-de-artifício, quase competiram com a Minhota.

Por tudo isto viva Outeiro Seco! E porque para o ano há mais, podemos dizer com propriedade que não há festa como esta.

 

 

 

publicado por Nuno Santos às 09:31

Julho 26 2017

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Nas muitas estórias fantásticas que constam da memória coletiva de Outeiro Seco, o forno do Có está ainda ligado a um outro mendigo, que, nas suas frequentes passagem pela ladeia, ali pernoitava. Apesar de já não se saber o nome, dizia-se dos lados do Vidago.

 Tal como os restantes não tinha ter eira nem beira, além disso, este mendigo era ainda apoquentado pelo espírito de um militar que, fora morto por uma patada de um cavalo, quando cumprira o serviço militar, no regimento de cavalaria de Chaves.

 De vez em quando e sem vir nada a propósito, este homem entrava em transe, saindo-lhe do interior uma voz que, nada tinha a ver com o tom de voz como falava, em estado natural.

Embora haja uma grande contradição no seio da igreja católica, sobre a temática dos espíritos, o certo é que a Bíblia tem várias passagens, citando a sua existência. Uma delas é a missão dos doze ou seja, a dos doze apóstolos que é:

Missão dos Doze (Mc 6,7-11; Lc 9,1-6; 10,1-11) - 5Jesus enviou estes doze apóstolos, depois de lhes ter dado as seguintes instruções: «Não sigais pelo caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. 6Ide, primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel. 7Pelo caminho, proclamai que o Reino do Céu está perto. 8Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça. 9Não possuais ouro, nem prata, nem cobre, em vossos cintos; 10nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem cajado; pois o trabalhador merece o seu sustento.

Ora, nas frequentes passagens pela aldeia, por mais de uma vez o pobre homem foi apoquentado pelo espírito do militar, dizendo que penava neste mundo, por causa do incumprimento de uma promessa ao São Caetano.

A maioria das pessoas que assistiam à cena dividia-se quanto ao fenómeno. Uns diziam que aquilo era de facto uma situação sobrenatural, outros que não passava de uma encenação, para captar maior pena e compaixão, a fim de recolher mais dádivas.

Crentes ou não mas corajosos, os jovens António Salgado, António Castro e Augusto dos Santos, decidiram levar o homem ao São Caetano, para que se consumasse o descanso eterno da alma penada.

Assim num tórrido dia de verão, ainda que não fosse no dia da festa do santo, a qual se comemora no segundo domingo de Agosto, os três jovens montaram o mendigo num burro da tia Ana Barroca, mãe do António Salgado, rumando até ao São Caetano pelo antigo estradão da Torre.

 No início do percurso tiveram logo um constrangimento, o mendigo não estava habituado a montar e não se segurava na montada, ultrapassaram a situação, atando o homem ao dorso do burro, como se fosse uma carga.

A viagem durou mais de duas horas, chegados ao São Caetano, deram duas voltas com o mendigo à capela do santo, cumprindo assim o desejo do espírito.

Cumprida a promessa os rapazes ouviram do interior do mendigo o agradecimento pelo seu gesto e que doravante, a sua alma ficaria em descanso.

Os rapazes sentiram um misto de espanto e satisfação pela missão cumprida, quanto ao mendigo, pelo menos nas suas passagens pela aldeia, jamais se verificou o aparecimento do espírito.

publicado por Nuno Santos às 07:37

Julho 25 2017

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Bai te por essa calle abajo, ter al forno do concelho” quem diz isto é o  Caldeireiro ao seu ajudante, numa das quadras do Auto de Natal, o Ramo, infelizmente representado com bastante intermitência em Outeiro Seco, embora tal como o Acto da Paixão,  façam parte do património imaterial de todos os outeiro secanos.

O pão e a batata sempre foram a base da alimentação das populações rurais, mas para se cozer o pão, são necessários fornos, que, nas aldeias serviam ainda também de estalagem aos pedintes, uma espécie de sem abrigo dos tempos modernos, que deambulavam de terra em terra, pedindo uma esmola, em nome de Deus ou pelas almas de quem as lá tinha.

Em Outeiro Seco, não há memória da existência de um forno do povo. O pão cozia-se em fornos privados, espalhados pelos bairros da aldeia. Alguns desses forneiros viviam praticamente dessa atividade. Aqueciam o forno, indo buscar a lenha a casa das donas da fornada, que apenas amassavam a farinha e tendian o pão.

No bairro do Eiró coexistiam os fornos do Joaquim Félix e da Delfina Carreira. No bairro do Penedo, o da Antónia Sanches, um dos mais procurados, estando até na origem da alcunha do seu filho José Ferreira, ficando conhecido como o Zé do Forno. No bairro do Papeiro não havia fornos, donde os seus moradores, tinham de  recorrer aos fornos dos outros bairros.

O bairro do Pontão onde se concentrava o maior núcleo populacional da aldeia, havia ali vários fornos. Os mais conhecidos eram o forno dos Canelhas ou da Tenreira, porque a forneira chamava-se Maria Tenreira, originária de Vilarelho da Raia e o Forno do Có, assim conhecido, por causa de uma tragédia que ali ocorreu.

Este forno fora propriedade de Teresa Merceana, mas devido à sua morte precoce, e porque era solteira, passou por herança para a sua irmã Rita Merceana, casada com Adriano Lara. Durante muitos anos o forno foi explorado em regime de concessão, primeiro pela família Agrela, depois por Maria Mafalda, minha avó paterna.

O forno porque estava situado junto ao largo do tanque, bem no centro da aldeia, era muito procurado não só para cozer o pão, mas também como albergue dos pedintes que, apareciam com alguma regularidade na aldeia.

Nas frias noites de inverno, por condescendência da forneira esses pedintes aqueciam o corpo, e muitas vezes aconchegavam o estômago, quando por misericórdia, ou pela alma de quem lá tinham, a dona da fornada lhes dava uma pequena bola quente, ou uma parte dela.

Uns dos muitos mendigos que aparecia com regularidade na aldeia, dizia-se dos lados do Barroso, embora não fosse esse o seu nome de batismo, era conhecido pelo Có, epíteto para alguém que é pouco expedito, e talvez por isso o Có  em vez de ser um homem de trabalho ativo, era um mendigo nómada.

Quando pernoitava na aldeia depois da última fornada, o Có tinha por hábito meter-se dentro do forno, abrigando-se assim do frio, sem precisão de cobertores. Só que um dia um grupo de rapazes decidiu pregar-lhe uma partida.

Sem medirem as consequências do acto, enquanto o homem dormia, taparam-lhe a entrada do forno com a porta. Por via disso, o pobre homem morreu asfixiado por falta de oxigénio.

Na manhã seguinte, quando a forneira, a minha avó, se preparava para acender ao forno, deparou-se com o corpo do mendigo já cadáver. Embora reportasse de imediato o caso ao regedor, o certo é que ninguém reclamou na justiça, a morte do infeliz, por isso a morte do Có ficou impune, só que doravante, esse forno passou a ser designado pelo forno do Có.

 

publicado por Nuno Santos às 00:42

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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