Outeiro Secano em Lisboa

Março 28 2016

Corrida da Páscoa II.jpg

 

Via sacra I.jpg

 

Foram muitos os outeiro secanos, que vieram das várias regiões do país e do estrangeiro, para socializarem com as suas famílias e os amigos, nesta quadra festiva. Mas, não fora o facto de se ter realizado na sexta-feira santa a via sacra, cada vez menos participada, uns porque a distância do  calvário, já pesa nas suas pernas, outros por preguiça e comodismo preferem ficar na cama, da tradição da Páscoa vai restando, a cozedura dos folares e o evangelho da missa do domingo.

Até  a tradição de se cozerem os folares, já não existe em todas as casas, porquanto, muitos compram-nos na cidade, nas diversas casas da especialidade.

Longe vão os tempos em que esta quadra festiva, se vivia na aldeia com grande intensidade. Começava logo na quarta-feira de Cinzas, o dia que marca o início da quaresma, com a novena da via sacra, a qual era rezada todos os dias. Agora a novena da via sacra, reza-se apenas às sextas-feiras à noite, com pouco mais de uma dezena de presenças.

Ao meio dia de quinta-feira santa, quando se ouvia nos sinos da torre da igreja o toque a sinais, simbolizando a morte de Cristo, os lavradores interrompiam as suas lides, guardando o feriado, o qual se prolongava até segunda-feira. Na sexta-feira de manhã realizava-se então a via sacra sempre muito participada. As mulheres faziam luto, cobrindo-se com os seus xailes negros. No regresso do calvário, os jovens mais irreverentes atavam as franjas dos xailes às mais distraídas, de modo que quando a primeira virava para a sua rua, arrastava o xaile das outras, para grande risada e chacota dos restantes.

No sábado da Páscoa era dedicado à azáfama dos folares e à decoração das ruas e das casas, para no domingo se receber o Compasso, que ia benzer as casas. Nessa madrugada os rapazes acordavam a aldeia, com o toque nos sinos da igreja,  assinalando a aleluia e ainda que voltássemos a adormecer, éramos despertados bem cedo, por uma alvorada de foguetes.

Após a celebração da  missa, o povo andava numa roda viva entre os assados para o almoço e o ouvido à escuta da campaínha, anunciando a proximidade do Compasso. O Compasso era composto normalmente por cinco elementos, o padre, o sacristão e mais três voluntários.

À frente ia a campaínha anunciando o séquito, seguindo-se a cruz, a qual era dada a beijar a todos os elementos da família, depois a caldeirinha com a água benta, com a qual o padre benzia a casa, por fim o saco, onde se guardavam as oferendas. Quase sempre o portador do saco era o sacristão, não fosse algum dos outros, cair em tentação.

Embora o calendário pascal se mantenha, isto é a Páscoa é sempre no primeiro domingo de lua cheia, após o equinócio da primavera, ou seja após o dia 21 de março. Razão porque a Páscoa é uma festa móvel. Este ano a primeira lua cheia, ocorreu seis dias após o equinócio da primavera, mas em 2017 já será em 16 de abril, na nossa aldeia as tradições da Páscoa, têm sofrido grande mutação.

Acabou-se a tradição do Compasso, mas com o aparecimento da Casa de Cultura, apareceram outras tradições, mais ligadas ao desporto e ao lazer, como a participação em torneios populares de futebol, a Corrida da Páscoa, complementadas pela organização de um baile.

O futebol pese embora existam infraestruturas para a sua prática, vá lá saber-se porquê, é uma atividade em vias de extinção na aldeia. Já a Corrida da Páscoa, com maior ou menor dinamismo tem-se realizado quase todos os anos. Porém este ano porque se celebrava a 25ª Corrida, atendendo ao seu simbolismo merecia um maior destaque, que, em minha opinião, não lhe foi dado.

Para isso bastava que da parte da organização, no caso a Casa da Cultura, tivesse havido um maior empenhamento,  envolvendo anteriores organizadores que, sem disputarem qualquer protagonismo, estariam dispostos a colaborar de forma a assinalar esta efeméride, e ao mesmo tempo ajudando a corrida a ter o prestígio que merecia.

Com a criação da Banda Musical no seio da Casa da Cultura, acabou também a organização do baile da Páscoa sendo substituido por um concerto da Banda, aos seus associados. A ideia foi boa só que este ano, vá lá saber-se porquê! O concerto da Páscoa não se realizou, ficando os sócios da Casa da Cultura e o povo em geral privados de mais uma tradição da aldeia.

Ora, este ano o domingo de Páscoa, tornou-se praticamente num domingo igual a tantos outros, deixando em muitos outeiro secanos que vieram de longe a interrogação, se valeu a pena o sacrifício, de vir de tão longe passar a Páscoa à terra!

É urgente repensar tudo isto, para que Outeiro Seco possa manter vivo o lema de “Tradição e Modernidade”, sobretudo na área social e cultural.

publicado por Nuno Santos às 14:48

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Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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