Outeiro Secano em Lisboa

Junho 01 2017

Pessoas já desaparecidas.jpg

Já não sei qual o evento que decorria no Largo do Tanque, o nosso salão de festas, mas presumo que seria uma Corrida da Páscoa. Dos assistentes nesta fotografia, apenas o meu sogro está entre nós, embora já não fosse o mais novo dos retratados.

Com o desaparecimento destas pessoas, desapareceu também muita da nossa história. Embora na nossa terra se tenha feito muita recolha, refletida em muita obra publicada, eu penitencio-me por não recolhido do meu pai ou do meu tio Augusto, como o filho mais velho, os testemunhos do meu avô Manuel dos Santos, um ex-combatente da I Grande Guerra, as suas vivências nesse terrível acontecimento que, assolou o mundo, no início do século passado.

Os personagens desta foto teriam também muitas histórias para contar, umas de caráter pessoal, outras com repercussões  na vida social da aldeia. Entre os retratados está o Zé Regalia, cuja bonomia era reconhecida sendo o autor de muitas histórias pitorescas.

Recordo-me duma que me contou, a do roubo da boina ao Carloto na Bagoeira, pensando este que fora o diabo que lhe aparecera, no cruzamento das Japoneiras.

Isso aconteceu numa noite de breu quando o Carloto e a sua mulher seroavam em casa da sua mãe, vizinha do Zé Regalia. Ora quando o Carloto estava para sair, o Zé escondeu-se na sua eira, entre as ramagens da figueira.

Nessa época durante o inverno, a Bagoeira era um lamaçal e os transeuntes tinham de passar por um tombarão, uma espécie de passadiço, mesmo rente ao muro da eira do Zé.

À frente vinha a tia Júlia e logo atrás o Carloto, assim quando o Carloto passou, o Zé aproveitando-se do escuro e da noite e as ramagens da figueira, sacou-lhe a boina da cabeça.

Este talvez sugestionado por aquilo que se dizia deste lugar, saltou para o meio da lama correndo o mais rápido que pode do lugar. A mulher surpreendida perguntou.

- Que foi Manel! Parece que viste o diabo?

- Foi o diabo negro, que me roubou a boina da cabeça.

O caso ficou apenas dentro do casal, reforçando a ideia que o cruzamento das Japoneiras, era um lugar assombrado. Passado alguns dias e como o Carloto continuava a andar com a cabeça em couca, o Zé com o seu espírito galhofeiro disse para os outros.

- Perguntai ao Carloto pela boina?

Foi quando o Carloto descobriu que, o diabo se chamava Zé.

 

publicado por Nuno Santos às 16:07

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Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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