Outeiro Secano em Lisboa

Setembro 02 2014

 

Episódio VI

 

De vez em quando somos confrontados com notícias publicadas nos meios de comunicação, de pessoas vítimas do conto do vigário, ocorrendo a maioria destes casos na província e sobretudo com pessoas idosas. O conto do vigário é atribuído a alguém que se utiliza da sua esperteza, para ludibriar o outro.

A origem da expressão do “conto do vigário” vem do Brasil, por causa da disputa entre dois vigários de paróquias diferentes, por uma imagem de nossa senhora. Estando perto da contenda e preso a uma árvore um burro, um dos padres sugeriu que pusessem a imagem da nossa senhora em cima do burro, e a direcção da igreja que o burro tomasse, seria aquela onde ficaria a imagem.

Chegando a consenso, colocaram a imagem em cima do burro e depois de uma palmada sobre uma das espáduas do animal, este rapidamente rumou na direcção de uma das igrejas, onde acabou por ficar a imagem. Só mais tarde se veio a saber que, o burro, pertencia ao vigário dessa paróquia, daí a origem do conto do vigário.

Neste episódio a vítima não foi nenhum padre nem nenhum ancião, embora oriundo da província a vítima fui eu, quando ainda estávamos no escritório do Rossio. Foi no início de um mês de dezembro, e ainda não existiam o totoloto nem o euromilhões, os únicos jogos da Santa Casa eram a Lotaria e o Totobola.

Por ser um lugar de passagem de milhares de transeuntes, uns vindos dos barcos da margem sul, outros dos comboios das linhas de Sintra e Cascais rumo aos empregos, outros em direcção aos comércios da baixa para as compras de Natal, o Rossio nessa época do ano fervilhava de cauteleiros apregoando a taluda que, andava à roda em vésperas do Natal, e com o pregão de "quem quer a grande"  espalhavam a ilusão de que a sorte, poderia estar ali naquele pequeno rectângulo de papel.

Um dia apareceu-me no escritório um senhor invisual, ou passando-se por tal, perguntando pelo Sr. Nuno Santos. Disse chamar-se Manuel dos Reis e que era um velho conhecido do Sr. António Nunes, administrador da Nucase, a quem nesta altura do ano ele costumava recorrer para comprar o jogo do Natal, porquanto as cautelas eram mais caras.

Disse que já tinha falado com o Sr. António Nunes, mas como ele estava na Parede, que o mandara vir ao Rossio ter comigo e que lhe desse  mil escudos, que depois o Sr. Nunes mos devolveria.

Perante os argumentos apresentados nem hesitei, entreguei os mil escudos ao senhor e só no final do dia falei do caso ao Sr. António Nunes que,  quando ouviu a história,  soltou uma gargalhada e exclamou:

- Eh pá! Já foste enganado! Deixa lá este ano caíste tu, mas no ano passado caí eu. Foi então que eu soube que no ano anterior, o mesmo personagem fora à Parede, e com  outra história mirabolante, cravara também  mil escudos ao Sr. Nunes.

publicado por Nuno Santos às 07:23

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Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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