Outeiro Secano em Lisboa

Fevereiro 22 2017

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Estes são os bilhetes para o jogo da próxima sexta-feira no Estádio da Luz, onde o Desportivo de Chaves jogará com o Benfica.

Este jogo traz-me à memória, dois outros encontros aos quais assisti na Luz, entre estas as duas equipas. O primeiro ocorreu em 29 de dezembro de 1976, já lá vão mais de quarenta anos e porventura terá sido o primeiro jogo que, o Desportivo de Chaves fez em Lisboa.

O Chaves não fazia parte do escalão principal do futebol português, creio mesmo que estava ainda na terceira divisão, mas, quis o capricho do sorteio da Taça de Portugal que, viesse jogar à Luz com o Benfica.

O jogo realizou-se numa quarta-feira à noite e os adeptos benfiquistas, desvalorizando o adversário por ser de um escalão inferior, acorreram em pouco número ao estádio. Ao invés, os flavienses e outros transmontanos residentes na capital, aproveitando a oportunidade rara de ver o Desportivo em Lisboa, acorreram em grande número, por isso eramos quase tantos os apoiantes do Chaves, como os do Benfica.

Embora o Benfica não fizesse grande poupança de jogadores, fazendo alinhar: José Henrique, Pietra, Eurico Gomes, Carlos Alhinho, António Bastos Lopes, José Luís, Shéu, Chalana, Moinhos e Nelinho, o Chaves defendeu-se com as suas armas, e o resultado foi-se mantendo no zero a zero, até que na marcação de um canto a bola foi cabeceada por José Luís, mas o Carlos Branco defesa do Chaves, cortou a bola de cabeça para canto, fazendo-a passar sobre a trave. Só que o fiscal de linha deu indicação ao árbitro, de que a bola tinha ultrapassado a linha de baliza e este validou o golo.

Gerou-se uma grande confusão no relvado, com os jogadores do Chaves a protestarem junto do árbitro, protestos que se estenderam depois à bancada, porque o fiscal de linha que validou o golo, estava posicionado na linha lateral, onde se encontravam os adeptos do Chaves.

Estávamos em 1976 e viviam-se ainda os resquícios da liberdade, conquistada dois anos antes, em abril de 1974 e a polícia, ainda não recuperara a sua veia repressora, em situações de conflito. Assim para evitar males maiores, a polícia colocou-se de forma apaziguadora, entre os contestários e a linha lateral, apesar de haver na altura, uma rede de proteção, a separar o público do campo.   

Talvez fruto do excesso de liberdade que, ainda pairava, fruto do momento revolucionário vivido, a certa altura alguém da assistência do Chaves gritou – invasão, invasão, invasão e muitos de nós, escalamos a rede para invadirmos o campo. Entretanto a polícia interveio de forma dissuasora, e eu, atingi um polícia com o guarda-chuva, partindo logo a mãozeira.  

Eu tinha na altura vinte e um anos e embora estivesse ali como apoiante do Chaves, agi em função da minha rivalidade com o Benfica, fruto de outros amores. Esse momento tornou-se num dos meus maiores constrangimentos de sempre, quando o polícia me disse.

- Oh homem! Eu também sou transmontano e também estou revoltado, só que estou aqui na minha missão de manter a ordem.

Sentindo-me envergonhado pelo meu ato, atirei o guarda-chuva já sem mãozeira ao chão, e ocupei o meu lugar na bancada, com a má consciência pelo ato perpetrado.

Apenas a título de curiosidade o Zé Luís autor do golo benfiquista era filho de um ex-jogador do Chaves chamado Manuel Jorge e irmão de um outro jogador do Chaves de nome Jorge Silva, que, chegou a ser internacional, fruto do seu desempenho no Desportivo de Chaves.

Doze anos mais tarde, em 20 de março de 1988, voltei a assistir na Luz a um jogo entre o Benfica-Chaves e o resultado foi um empate de 1.1. Nesse jogo o Chaves voltou a ser prejudicado pela arbitragem. O Chaves na época apresentou-se com: Padrão, Vicente, Jorginho, Cerqueira, Rogério Pimenta, Júlio Sérgio, Radi, Gilberto Serra e Vermelhinho.

O Benfica marcou aos 16 minutos por Chalana e o Chaves empatou aos 81 minutos por Radi. Já quase a acabar o jogo, o Radi foi rasteirado por António Veloso, tendo-lhe arrancado até a bota do pé. O árbitro disse depois que não marcou penalti, porque o Radi ficara em posição de prosseguir a jogada, ora, em lance de penalti não há lei da vantagem, nem se pode chutar uma bola descalço.

Quando terminou o encontro, os milhares de flavienses no estádio cantaram orgulhosamente a Marcha de Chaves, que, ecoou pelos corredores do estádio da Luz.

 

 

publicado por Nuno Santos às 19:07

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Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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