Outeiro Secano em Lisboa

Janeiro 06 2015

JANEIRAS.jpg

 

Ainda agora aqui cheguei

Pus o pé nesta escada

Logo o meu coração disse

Aqui mora gente honrada

Pastores serranos

Vamos a Belém

Ver o Deus menino

Que a senhora tem

Quem diremos nós que viva

Debaixo de um laranjal

Vivam pequenos e grandes

Vivam todos em geral

No meu tempo de menino e moço era com estes versos que neste dia, iniciávamos o cântico dos reis pelas casas dos lavradores mais abastados da aldeia, em troco de uns figos secos e nozes, tudo produção caseira.

Embora se continuem a cantar os Reis ou as Janeiras por todo o país, o seu espírito está adulterado, porque, deixou de ser cantado pelos miúdos das aldeias a troco de umas guloseimas, passando a ser cantados por escolas e instituições, umas vezes a título de reivindicação de qualquer coisa, outras para angariação de fundos.

Ainda que alinhasse com os outros, por causa da minha timidez, nunca me senti muito confortável nesta tradição, por isso, era quase sempre dos últimos do grupo, embora o não fizesse muitas vezes, recordo-me de alguns episódios vividos nesse tempo.

Um ano fomos cantar os Reis a casa do Sr. Filipe Ranheta e da tia Julia, que moravam no bairro da Santa Rita. O casal não tivera filhos mas, afeiçoara-se a um criado de servir que praticamente criaram lá em casa, a quem chamavam João Mono, porém quando se tornou adulto, imigrou para Lisboa onde se radicou, mas manteve durante muitos anos esse vínculo quase maternal, pois todos os anos visitava o casal pelo verão, em especial pela festa da Sra da Azinheira.

O senhor Filipe fora um ex-combatente da 1ª Grande Guerra e pese embora tivesse vivido as vicissitudes dessa guerra, sendo um dos sobreviventes da batalha de La Lys, tinha um espírito muito jovial, gostando de pregar partidas aos miúdos, em especial no período do Entrudo.

Passando o Natal era ouvi-lo no Largo da Oliveira da Saúde, de que já tinha sete caretos na loja, e a sua Júlia não fazia outra coisa, senão, cozer fornadas de pão, para alimentar aquelas almas do diabo, deixando os garotos aterrorizados com o que seria o Entrudo.

O Senhor Filipe era padrinho do Edgar Silva e por ideia deste, juntamo-nos alguns dos garotos do Eiró e lá fomos a sua casa cantar-lhes os Reis. Depois de os cantarmos no cimo das escadas, mandou-nos entrar para a cozinha, brindando-nos com um opíparo lanche, composto de pão alheiras e linguiças.

A bebida era o vinho da casa, uma coisa a que todos nós e apesar da idade estávamos habituados, só que em vez de ser servido em copos, bebíamos por um alguidar de barro negro de Nantes, onde a tia Júlia lavava a loiça. Assim para bebermos, tínhamos de mergulhar a cabeça, saindo de lá com as camisas todas manchadas  e a cambalear.

Para mim esse dia de reis foi memorável, primeiro porque apanhei uma das minhas primeiras bebedeiras, segundo, porque ainda apanhei uns tabefes da minha mãe, quando cheguei a casa.

publicado por Nuno Santos às 07:26

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Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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