Outeiro Secano em Lisboa

Março 02 2014

Agora está tudo calmo e sereno pelo bairro de santa Rita. Longe vão os tempos em que nesta época os garotos quando por lá passavam, faziam-no com ar desconfiado, olhando para todos os lados, porque o Sr. Filipe Ranheta dizia no largo do cruzeiro, alto e em bom som para que todos ouvissem, que, já tinha sete caretos na loje, e só numa semana, a tia Júlia sua mulher, tivera de fazer três fornadas de pão, para os alimentar.

No domingo gordo e terça-feira de entrudo, os mais pequenos cujas casas não ficavam à beira da estrada, logo após o almoço, procuravam as casas de familiares e amigos aí situadas, para dali verem as principais incidências do que se passava na rua.

Quando se ouviam os gritos dos mais velhos – Ou Zé! Ou Zé, e o som das campainhas, eram o indicativo da proximidade dos caretos, que, munidos de sarrons, outros de gadanhas, punham em fuga todos quantos andavam na rua, em especial os mais crescidos, que fugiam à sua frente.

Mas não eram só os caretos que faziam a animação do entrudo da minha meninice. As suas tradições começavam logo nas duas quintas-feiras anteriores, uma dedicada aos compadres, outra às comadres, com a realização de opíparas merendas, quase sempre à base de linguiças cedidas pelas mães. Seguia-se depois o sábado filhoeiro, ou seja o sábado anterior ao domingo gordo, quando as mães repetiam as filhoses, feitas no natal.

Embora já tivesse ocorrido o domingo magro, era no domingo gordo e depois na terça-feira, que depois de um farto almoço, à base de enchidos e outras carnes de porco, agora conhecidas por cozido à portuguesa, se passavam essa tardes animadas.

Além dos caretos, havia o desfile das “madamas”, alguém que se travestia de mulher, mas de cara tapada para manter o anonimato, embora quase sempre fossem descobertos por qualquer peculiaridade, como o andar ou outra coisa qualquer.

Havia ainda as criações artísticas do tio Lépido e do meu pai, que só pelo facto de o ver metido nisto, fazia com que eu tivesse algumas reservas quanto ao Carnaval, porque apesar de se dizer que “é carnaval ninguém leva a mal” por vezes havia alguns constrangimentos.

Anos mais tarde o carnaval era um dos pontos altos do plano de actividades da Casa de Cultura, organizando corsos que, chegaram a desfilar na cidade.

Com a globalização a maioria das terras deixou cair as suas tradições carnavalescas, importando o formato brasileiro, embora mantendo basicamente as tradições culinárias. Em Chaves, com excepção ao desfile das escolas, realizado na sexta-feira anterior , nunca houve grandes tradições de carnaval por isso as pessoas vão até Verin, onde aí sim, se vive o Entroido como eles lhe chamam, com um grande intensidade e folia, com particular destaque para os Cigarrons, uma figura tradicional do carnaval galego.

O carnaval tornou-se de tal forma comercial que este ano, por causa das condições climatéricas adversas, algumas terras vão transferir os desfiles do carnaval para o dia 9 de Março, um período já de quaresma, contrariando o conhecido samba brasileiro “ e tudo se acabou na terça-feira”.

 

publicado por Nuno Santos às 09:16

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Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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