Outeiro Secano em Lisboa

Fevereiro 01 2016

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 Foto da internet

 

Tenho um amigo que é alfacinha, mas gosta muito da província e não apenas da sua gastronomia, pois gosta também das paisagens naturais, talvez por reminiscências das suas origens paternas, ambos da Beira Alta.

Há dias dizia-me “Também eu gosto de passear pelas quelhas rurais nas fronteiras com as hortas e lameiros das aldeias.

Os cheiros das ervas humedecidas o chilrear dos pássaros e os sons das hastes da vegetação enchem-nos o peito de encanto”.

Ora, entre os muitos  gostos e prazeres urbanos que temos em comum, além da grande amizade de há muitos anos, compartilhamos também esses prazeres pelo mundo rural. Desde logo, porque foi onde eu nasci, e nunca reneguei as minhas origens.

A esse propósito, alguém me disse há dias, de que existe estudo, dizendo que os sons e aromas, podem perdurar na nossa memória, durante sete anos, porém, eu tenho para mim, de que alguns jamais se esquecem, sejam lugares, pessoas, aromas ou sons.

Há uns anos, escrevi no blogue do meu amigo Altino um post com este mesmo título, o qual sob pena de me repetir, recupero agora, porque o Vale do Boi, faz parte dessas memórias que eu preservo vivas, por tratar-se de um lugar, onde em menino e moço, passei muito  do meu tempo, como guardador de vacas.

O Vale do Boi pertence ao termo de Outeiro Seco, ficando num pequeno vale, situado numa garganta do nosso rio pequeno, entre os lugares do Cotete, a Quinta e a Pedrosa.  O verde que, irradia dos seus lameiros, assim como dos amieiros e freixos que ladeiam o rio, dão a este local um ambiente bucólico, convidando-nos ao recolhimento e à meditação.

Então se estivermos na estação da primavera, este local torna-se ainda mais fantástico, por causa do cheiro característico da erva dos lameiros, em harmonia com  os cheiros das flores campestres,entre as quais a flor da carqueja, do sabugueiro e do rosmaninho. A tudo isso associa-se ainda o murmúrio constante da água do rio, ora correndo no leito ora caindo em cachão das represas, construídas para desviar a água para os lameiros.

Ao som das águas do rio junta-se ainda a sinfonia do canto das variadíssimas espécies de pássaros que compõem o habitat, entre os quais (rouxinóis, cucos, poupas, pegas, melros, pica-paus, rolas, pintassilgos) tornando o local, num permanente concerto celestial.

A norte deste pequeno vale, ergue-se um pinhal em forma de anfiteatro, e nos dias de ventania, o som das ramagens dos pinheiros, convida a quem está cá em baixo, a um relaxe e a um momento zen, semelhante aquelas imagens que passam, numa das estações da televisão por cabo.

Só que nesse tempo, as tarefas de guardador de vacas, não davam para ter grandes momentos de relaxe, porque em qualquer momento de distração, as vacas já estavam pregadas no centeio de um vizinho, por  iso esses momentos zen, eram proibidos.

O descanso só acontecia depois das segadas, e aí, já havia o tempo para as brincadeiras com os outros jovens que, exerciam a mesma tarefa, ou para a leitura de livros que, mensalmente requisitavamos na biblioteca itinerante da Gulbenkian, ainda que tivessemos de  estar sempre atentos, aos animais no lameiro.

Todos os anos, quando regresso a Outeiro Seco, prometo a mim mesmo visitar o Vale do Boi, infelizmente outros afazeres acabam por se sobrepor, de modo que essa visita, vai ficando adiada. Mas devido ao interesse demonstrado pelo meu amigo Júlio, talvez  possamos um dia tornar esse desejo, em realidade.

 

publicado por Nuno Santos às 08:05

'O Vale do Boi'.
Muito bem, fica agendado.
Imagino os tempos em que os bois, de trabalho, de criação ou de luta de machos, por lá pastavam em lameiros verdes de fertilidade. Aos meus gostos rurais acrescem as riquezas históricas e culturais que abundam por terras transmontanas também elas terras do demo.
JÚLIO a 1 de Fevereiro de 2016 às 11:15

olha nuno vou dar-te uma garantia de que esse estudo está errado
pois os sons e aromas que eu trago do meu outeiro seco são os mesmos
e já lá vão quase 47 anos
vasco sobreira garcia a 6 de Fevereiro de 2016 às 14:41

Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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