Outeiro Secano em Lisboa

Abril 09 2014
 

A quaresma é o tempo que medeia o carnaval e a páscoa, sendo várias as tradições celebradas neste período, por todo o país, pese embora muitas delas já tenham caído em desuso.

A primeira é a quarta-feira de cinzas, porque depois da folia do carnaval, onde tudo é permitido, este dia, sendo de jejum e abstinência, serve para lembrar aos crentes, de que são mortais, e por isso há um tempo para as coisas mundanas e outro para as coisas espirituais.

Noutros tempos durante os quarenta dias da quaresma, rezava-se a novena da via-sacra, a qual simboliza o percurso de Jesus Cristo, do pretório onde foi condenado, até ao calvário onde foi cruxificado. Actualmente na nossa aldeia esta novena já só se reza às sextas-feiras.

Em miúdo nas quintas-feiras santas à noite, realizava-se na cidade uma grande procissão da via-sacra, a qual percorria várias ruas da cidade. Juntava sempre muita gente, da cidade e das aldeias vizinhas, esta foi mais uma tradição que se perdeu. Contudo, a via-sacra na nossa aldeia continua a realizar-se todas as sextas-feiras santas, percorrendo o nosso belo calvário, ainda que num modelo renovado, e mais participado, sobretudo na leitura dos textos.

Outra tradição desaparecida foi a Serrada da Velha, celebrada sempre na terceira quarta-feira da quaresma, a qual neste ano calhou em 26 de março. De vez em quando há associações culturais que ressuscitam esta tradição, sendo por isso notícia, mais por fazerem reviver a tradição, do que pela sua continuidade.

Na semana antes da Páscoa celebra-se a Bênção dos Ramos, simbolizando a entrada triunfante de Jesus Cristo em Jerusalém. Recordo-me da nossa azáfama na véspera, para arranjarmos os ingredientes que tinham de constar no ramo; oliveira, louro, alecrim, salva e cangorsa. No dia seguinte no adro ao fim da missa, comentava-se os ramos maiores e os mais criativos.   

O ponto alto das tradições da quaresma decorrem durante a semana santa, e apesar de se comemorarem um pouco por todo o país, onde têm maior expressão são em Braga, famosa pelas suas procissões, atraindo milhares de forasteiros, vindos em especial da vizinha Galiza.

Havia outras tradições como a Encomendação das Almas, celebrada na Beira Baixa mas também em Vila Verde da Raia. Contam que um dia o senhor que fazia essa prática, fê-la também em Outeiro Seco do alto da torre da igreja, só que nessa altura não havia os meios técnico de som de agora e por isso não se terá obtido, o efeito desejado.

Uma outra tradição muito comemorada na região entre Douro e Minho, é a Queima do Judas. O Judas é um boneco carregado de artigos pirotécnicos, só que antes de se queimar o Judas, é lido o seu testamento todo ele carregado de sátiras sociais. Nesse testamento são descobertas algumas das coisas incómodas e encobertas na terra.

Este ano os outeiro secanos vão recuperar uma tradição, que já não acontecia há cinquenta e três anos, a encenação do Acto da Paixão. Embora por razões pessoais eu não vá estar presente, desejo do fundo do coração um grande êxito para todos os intervenientes, de modo que a nossa aldeia saia mais uma vez dignificada, perante toda a região.   

 

publicado por Nuno Santos às 11:54

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Um outeiro secano residente em Lisboa, sempre atento às realidades da sua terra.
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